Guia Rápido

O que só existe aqui · Miracatu

A banana do Vale do Ribeira ganhou selo de origem — e Miracatu é um dos 13 municípios

São 850 mil toneladas por ano, quase 80% da produção paulista, e cerca de 50 mil empregos. A Indicação Geográfica coloca a região no mesmo tipo de proteção que o champanhe francês.

· 7 min de leitura

Vista de Miracatu

Existe um tipo de reconhecimento que poucos produtos brasileiros têm, e que é o mesmo mecanismo que protege o champanhe na França e o parmesão na Itália.

Chama-se Indicação Geográfica.

E a banana do Vale do Ribeira — a região onde fica Miracatu — acaba de conquistá-lo.

O que é uma Indicação Geográfica

É um selo que amarra um produto a um lugar.

Ele reconhece que aquele alimento, produzido naquela região específica, tem características que decorrem do território: solo, clima, altitude, técnica acumulada.

Na prática, significa que ninguém pode vender banana de outro canto do país chamando de "banana do Vale do Ribeira". O nome da região vira patrimônio dos produtores dela.

É o mesmo instrumento jurídico do champanhe, do queijo da Canastra e do café do Cerrado Mineiro.

A IG do Vale do Ribeira cobre as variedades Cavendish (Nanica) e Prata.

Os números da região

São grandes o suficiente para mudar a percepção de quem só conhece o Vale de passagem:

  • a região produz mais de 850 mil toneladas de banana por ano
  • isso representa quase 80% da produção do estado de São Paulo
  • São Paulo é o principal estado produtor de banana do país, com mais de 960 mil toneladas
  • a região responde por 7,07% de toda a área destinada à bananicultura no Brasil, segundo IBGE e Projeto LUPA
  • a atividade emprega cerca de 50 mil pessoas, entre empregos diretos e indiretos

Cinquenta mil pessoas. É mais que o dobro da população inteira de Miracatu.

Os 13 municípios

A delimitação geográfica da IG abrange treze cidades:

Cajati, Cananéia, Eldorado, Iguape, Itariri, Iporanga, Jacupiranga, Juquiá, Miracatu, Pariquera-Açu, Pedro de Toledo, Registro e Sete Barras.

As maiores produções se concentram em Cajati, Eldorado e Sete Barras, que somam 341.500 toneladas.

Miracatu não é a maior das treze — e é justamente por isso que a IG importa para ela. O selo é coletivo: protege o pequeno produtor de um município médio com a mesma força que protege o grande.

Miracatu em números de banana

O município tem 1.001 km² e cerca de 22 mil habitantes.

E dentro dele há aproximadamente 5.240.615 pés de banana, em 4.701 hectares.

Cinco milhões e duzentos mil pés para 22 mil pessoas: cerca de 238 pés de banana por habitante.

O clima quente e úmido do Vale faz o resto.

Onde essa história começa

A bananicultura não é acaso nem vocação natural. Ela foi trazida.

A partir do início do século XX, a região recebeu grande número de imigrantes japoneses, que desenvolveram a cultura do arroz e da banana.

E o Vale do Ribeira não é um capítulo qualquer dessa imigração: foi aqui que a colonização japonesa no Brasil começou.

Em 9 de novembro de 1913, as primeiras famílias — os relatos variam entre 30 e 36, lideradas por Ikutaro Aoyagui — fundaram a Colônia Katsura, batizada em homenagem ao então primeiro-ministro japonês, Taro Katsura.

Meses antes, em Tóquio, constituíra-se a Brasil Takushoku Kaisha, companhia criada com o propósito de estabelecer colonos japoneses no Vale do Rio Ribeira de Iguape para o cultivo de arroz.

Cerca de duas mil famílias japonesas foram para o Vale em 1913.

O conjunto formado por Registro, Sete Barras e Katsura foi a primeira grande colônia japonesa do Brasil — e dois desses três nomes estão hoje na lista da IG da banana.

O arroz veio primeiro. A banana veio junto, e é a que ficou.

A escola de 1938

Há um detalhe que diz tudo sobre a prioridade daquela gente.

A primeira escola de Miracatu foi construída por japoneses, em 1938.

Não pelo município. Não pelo estado. Pelos imigrantes.

Vinte e cinco anos depois de chegarem a um vale quente e úmido para plantar arroz, construíram uma escola.

Linha do tempo

  • julho/1847 — o francês Pierre Laragnoit compra a sesmaria por um milhão de réis
  • meados de 1913 — constitui-se em Tóquio a Brasil Takushoku Kaisha
  • novembro/1913 — funda-se a Colônia Katsura; o Conjunto Iguape é a primeira grande colônia japonesa do país
  • 1913 — cerca de 2.000 famílias japonesas chegam ao Vale do Ribeira
  • 1938 — imigrantes constroem a primeira escola de Miracatu
  • 1944 — Prainha passa a se chamar Miracatu
  • hoje — a banana do Vale do Ribeira conquista a Indicação Geográfica

O que o acervo do guia mostra

Este guia mapeia 583 estabelecimentos em Miracatu, dos quais 494 têm telefone, distribuídos por 54 bairros.

E o perfil tem uma singularidade absoluta:

  • Bares e restaurantes — 78
  • Serviços e profissionais — 73
  • Igrejas e templos — 58
  • Outros — 55

Miracatu é a única das vinte cidades do guia em que "Bares e restaurantes" aparece em primeiro lugar.

Em todas as outras dezenove, quem lidera é "Serviços e profissionais".

O que isso conta: numa cidade de 22 mil habitantes espalhados por 1.001 km², o bar e a lanchonete são o serviço. São o ponto de encontro, o lugar de negócio, o café da manhã de quem sai para o bananal e o almoço de quem passa de caminhão.

E há a conta que fecha o retrato: 583 estabelecimentos para 1.001 km² — menos de 0,6 por quilômetro quadrado. Em Taboão da Serra são cerca de 580 por km². Duas cidades no mesmo estado, no mesmo guia, separadas por três ordens de grandeza.

Quem precisa achar alguém aqui pode ver o guia completo de Miracatu, bares e restaurantes, mercados e alimentos, pet e agropecuária — insumo para o bananal — e serviços e profissionais.

O museu que guarda o resto da história

A banana é o presente. O passado tem endereço.

O Museu Municipal Pedro Laragnoit, inaugurado em 30 de novembro de 1983, no centro da cidade, guarda cerca de 500 peças que contam a colonização do Vale do Ribeira — com peças raras, curiosidades e documentos escritos.

Quinhentas peças é acervo de verdade para um município de pouco mais de 20 mil habitantes. Há cidade dez vezes maior neste guia sem museu nenhum.

O sobrenome vem do francês Pierre Laragnoit, que em julho de 1847 comprou de Domingos Pereira de Oliveira e sua esposa a sesmaria que deu origem ao núcleo — por um milhão de réis.

Antes de Miracatu, o lugar se chamava Prainha: o nome vinha de uma pequena praia na margem esquerda do Rio São Lourenço, onde os canoeiros paravam para descansar e comer durante a viagem.

Um francês, canoeiros parando numa praia de rio, trinta e seis famílias japonesas e uma indicação geográfica. Cabe tudo em 1.001 km².

Comparando com as vizinhas

Com Suzano e Mogi das Cruzes: as três devem sua economia à agricultura japonesa. Mas a colonização do Vale, de 1913, é anterior à consolidação do Cinturão Verde no Alto Tietê — Miracatu está mais perto da origem dessa história do que as duas outras.

Com Ibiúna: as duas trocaram de nome em 1944 pelo mesmo motivo — havia homônimas em outros estados. Prainha por causa do Pará; Una por causa da Bahia.

Com Juquitiba: as duas menores economias do guia, as duas com igrejas entre as maiores categorias, e as duas na mesma bacia hidrográfica — o rio São Lourenço passa por Miracatu, e o Juquiá nasce na região da vizinha.

O que ninguém explica

  • O que aconteceu com a Colônia Katsura? Ela teve ascensão e queda, e a história completa é pouco divulgada.
  • Quem foi Miyoji Kayo? A Fanfarra Municipal de Miracatu leva o nome dele, e quase não há registro público sobre quem foi.
  • A IG vai chegar ao pequeno produtor? O selo é coletivo, mas o acesso a ele depende de organização — e é aí que municípios menores costumam ficar para trás.

O que fica

Em 9 de novembro de 1913, trinta e seis famílias japonesas desembarcaram num vale quente e úmido do sul de São Paulo para plantar arroz.

Vinte e cinco anos depois, construíram a primeira escola da cidade.

Cem anos depois, a região produz 850 mil toneladas de banana por ano, emprega cinquenta mil pessoas e acaba de ganhar um selo de origem do mesmo tipo que protege o champanhe.

E o nome da cidade, escolhido por acaso em 1944 para resolver uma confusão com o Pará, continua sendo a melhor descrição do lugar: terra de gente boa.

MiracatuBananaVale do RibeiraIndicação GeográficaAgricultura

Leia também

Todos os artigos