O que só existe aqui · Miracatu
A banana do Vale do Ribeira ganhou selo de origem — e Miracatu é um dos 13 municípios
São 850 mil toneladas por ano, quase 80% da produção paulista, e cerca de 50 mil empregos. A Indicação Geográfica coloca a região no mesmo tipo de proteção que o champanhe francês.
Existe um tipo de reconhecimento que poucos produtos brasileiros têm, e que é o mesmo mecanismo que protege o champanhe na França e o parmesão na Itália.
Chama-se Indicação Geográfica.
E a banana do Vale do Ribeira — a região onde fica Miracatu — acaba de conquistá-lo.
O que é uma Indicação Geográfica
É um selo que amarra um produto a um lugar.
Ele reconhece que aquele alimento, produzido naquela região específica, tem características que decorrem do território: solo, clima, altitude, técnica acumulada.
Na prática, significa que ninguém pode vender banana de outro canto do país chamando de "banana do Vale do Ribeira". O nome da região vira patrimônio dos produtores dela.
É o mesmo instrumento jurídico do champanhe, do queijo da Canastra e do café do Cerrado Mineiro.
A IG do Vale do Ribeira cobre as variedades Cavendish (Nanica) e Prata.
Os números da região
São grandes o suficiente para mudar a percepção de quem só conhece o Vale de passagem:
- a região produz mais de 850 mil toneladas de banana por ano
- isso representa quase 80% da produção do estado de São Paulo
- São Paulo é o principal estado produtor de banana do país, com mais de 960 mil toneladas
- a região responde por 7,07% de toda a área destinada à bananicultura no Brasil, segundo IBGE e Projeto LUPA
- a atividade emprega cerca de 50 mil pessoas, entre empregos diretos e indiretos
Cinquenta mil pessoas. É mais que o dobro da população inteira de Miracatu.
Os 13 municípios
A delimitação geográfica da IG abrange treze cidades:
Cajati, Cananéia, Eldorado, Iguape, Itariri, Iporanga, Jacupiranga, Juquiá, Miracatu, Pariquera-Açu, Pedro de Toledo, Registro e Sete Barras.
As maiores produções se concentram em Cajati, Eldorado e Sete Barras, que somam 341.500 toneladas.
Miracatu não é a maior das treze — e é justamente por isso que a IG importa para ela. O selo é coletivo: protege o pequeno produtor de um município médio com a mesma força que protege o grande.
Miracatu em números de banana
O município tem 1.001 km² e cerca de 22 mil habitantes.
E dentro dele há aproximadamente 5.240.615 pés de banana, em 4.701 hectares.
Cinco milhões e duzentos mil pés para 22 mil pessoas: cerca de 238 pés de banana por habitante.
O clima quente e úmido do Vale faz o resto.
Onde essa história começa
A bananicultura não é acaso nem vocação natural. Ela foi trazida.
A partir do início do século XX, a região recebeu grande número de imigrantes japoneses, que desenvolveram a cultura do arroz e da banana.
E o Vale do Ribeira não é um capítulo qualquer dessa imigração: foi aqui que a colonização japonesa no Brasil começou.
Em 9 de novembro de 1913, as primeiras famílias — os relatos variam entre 30 e 36, lideradas por Ikutaro Aoyagui — fundaram a Colônia Katsura, batizada em homenagem ao então primeiro-ministro japonês, Taro Katsura.
Meses antes, em Tóquio, constituíra-se a Brasil Takushoku Kaisha, companhia criada com o propósito de estabelecer colonos japoneses no Vale do Rio Ribeira de Iguape para o cultivo de arroz.
Cerca de duas mil famílias japonesas foram para o Vale em 1913.
O conjunto formado por Registro, Sete Barras e Katsura foi a primeira grande colônia japonesa do Brasil — e dois desses três nomes estão hoje na lista da IG da banana.
O arroz veio primeiro. A banana veio junto, e é a que ficou.
A escola de 1938
Há um detalhe que diz tudo sobre a prioridade daquela gente.
A primeira escola de Miracatu foi construída por japoneses, em 1938.
Não pelo município. Não pelo estado. Pelos imigrantes.
Vinte e cinco anos depois de chegarem a um vale quente e úmido para plantar arroz, construíram uma escola.
Linha do tempo
- julho/1847 — o francês Pierre Laragnoit compra a sesmaria por um milhão de réis
- meados de 1913 — constitui-se em Tóquio a Brasil Takushoku Kaisha
- novembro/1913 — funda-se a Colônia Katsura; o Conjunto Iguape é a primeira grande colônia japonesa do país
- 1913 — cerca de 2.000 famílias japonesas chegam ao Vale do Ribeira
- 1938 — imigrantes constroem a primeira escola de Miracatu
- 1944 — Prainha passa a se chamar Miracatu
- hoje — a banana do Vale do Ribeira conquista a Indicação Geográfica
O que o acervo do guia mostra
Este guia mapeia 583 estabelecimentos em Miracatu, dos quais 494 têm telefone, distribuídos por 54 bairros.
E o perfil tem uma singularidade absoluta:
- Bares e restaurantes — 78
- Serviços e profissionais — 73
- Igrejas e templos — 58
- Outros — 55
Miracatu é a única das vinte cidades do guia em que "Bares e restaurantes" aparece em primeiro lugar.
Em todas as outras dezenove, quem lidera é "Serviços e profissionais".
O que isso conta: numa cidade de 22 mil habitantes espalhados por 1.001 km², o bar e a lanchonete são o serviço. São o ponto de encontro, o lugar de negócio, o café da manhã de quem sai para o bananal e o almoço de quem passa de caminhão.
E há a conta que fecha o retrato: 583 estabelecimentos para 1.001 km² — menos de 0,6 por quilômetro quadrado. Em Taboão da Serra são cerca de 580 por km². Duas cidades no mesmo estado, no mesmo guia, separadas por três ordens de grandeza.
Quem precisa achar alguém aqui pode ver o guia completo de Miracatu, bares e restaurantes, mercados e alimentos, pet e agropecuária — insumo para o bananal — e serviços e profissionais.
O museu que guarda o resto da história
A banana é o presente. O passado tem endereço.
O Museu Municipal Pedro Laragnoit, inaugurado em 30 de novembro de 1983, no centro da cidade, guarda cerca de 500 peças que contam a colonização do Vale do Ribeira — com peças raras, curiosidades e documentos escritos.
Quinhentas peças é acervo de verdade para um município de pouco mais de 20 mil habitantes. Há cidade dez vezes maior neste guia sem museu nenhum.
O sobrenome vem do francês Pierre Laragnoit, que em julho de 1847 comprou de Domingos Pereira de Oliveira e sua esposa a sesmaria que deu origem ao núcleo — por um milhão de réis.
Antes de Miracatu, o lugar se chamava Prainha: o nome vinha de uma pequena praia na margem esquerda do Rio São Lourenço, onde os canoeiros paravam para descansar e comer durante a viagem.
Um francês, canoeiros parando numa praia de rio, trinta e seis famílias japonesas e uma indicação geográfica. Cabe tudo em 1.001 km².
Comparando com as vizinhas
Com Suzano e Mogi das Cruzes: as três devem sua economia à agricultura japonesa. Mas a colonização do Vale, de 1913, é anterior à consolidação do Cinturão Verde no Alto Tietê — Miracatu está mais perto da origem dessa história do que as duas outras.
Com Ibiúna: as duas trocaram de nome em 1944 pelo mesmo motivo — havia homônimas em outros estados. Prainha por causa do Pará; Una por causa da Bahia.
Com Juquitiba: as duas menores economias do guia, as duas com igrejas entre as maiores categorias, e as duas na mesma bacia hidrográfica — o rio São Lourenço passa por Miracatu, e o Juquiá nasce na região da vizinha.
O que ninguém explica
- O que aconteceu com a Colônia Katsura? Ela teve ascensão e queda, e a história completa é pouco divulgada.
- Quem foi Miyoji Kayo? A Fanfarra Municipal de Miracatu leva o nome dele, e quase não há registro público sobre quem foi.
- A IG vai chegar ao pequeno produtor? O selo é coletivo, mas o acesso a ele depende de organização — e é aí que municípios menores costumam ficar para trás.
O que fica
Em 9 de novembro de 1913, trinta e seis famílias japonesas desembarcaram num vale quente e úmido do sul de São Paulo para plantar arroz.
Vinte e cinco anos depois, construíram a primeira escola da cidade.
Cem anos depois, a região produz 850 mil toneladas de banana por ano, emprega cinquenta mil pessoas e acaba de ganhar um selo de origem do mesmo tipo que protege o champanhe.
E o nome da cidade, escolhido por acaso em 1944 para resolver uma confusão com o Pará, continua sendo a melhor descrição do lugar: terra de gente boa.
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