O bairro · Miracatu
O Centro de Miracatu era a praia onde os canoeiros paravam para almoçar
Um francês comprou a sesmaria em 1847 por um milhão de réis e construiu um sobrado de 12 janelas. A cidade nasceu ali, chamou-se Prainha por quase um século e hoje tem 161 comércios no mesmo lugar.
Antes de existir cidade, existia um lugar de parar.
Na margem esquerda do Rio São Lourenço, no Vale do Ribeira, havia uma faixa de areia onde os canoeiros encostavam para descansar e fazer suas refeições durante a viagem.
Uma praia pequena. Uma prainha.
O nome pegou. E, por quase um século, foi o nome oficial da cidade.
Hoje aquele mesmo ponto é o Centro de Miracatu — e concentra 161 dos 582 comércios do município.
O francês que comprou a sesmaria
A origem do povoado está ligada ao núcleo surgido nas terras do francês Pierre Laragnoit.
Em julho de 1847, por um milhão de réis, Laragnoit comprou uma sesmaria.
Ele se instalou com conforto: construiu um sobrado de 12 janelas — detalhe que a prefeitura registra e que diz tudo sobre a escala da coisa. Doze janelas, no Vale do Ribeira de 1847, era arquitetura de gente rica.
E usou o Rio São Lourenço para transportar sua produção aos consumidores, em Iguape e no Rio de Janeiro.
Repare no que isso significa. Não havia estrada. O rio era a estrada. A mesma água em que os canoeiros paravam para almoçar era a via de escoamento que ligava aquela fazenda ao litoral e à capital do Império.
A prainha não era um detalhe pitoresco da paisagem. Era infraestrutura.
De fazenda a povoado
Com o progresso da Fazenda Prainha, outros fazendeiros chegaram à região.
E em 14 de junho de 1871, Laragnoit doou terras para a construção de uma igreja.
A povoação foi fundada pela família Laragnoit, auxiliada por José Antônio da Silva, João Mendes de Almeida e pelo Cônego Scipião Goulart Ferreira Junqueira, e teve início justamente com a construção da capela de Nossa Senhora das Dores.
Menos de um ano depois, em 6 de abril de 1872, o povoado foi elevado à categoria de Distrito de Paz.
É a sequência clássica da formação urbana brasileira, e ela é curta aqui: fazenda em 1847, doação da terra da igreja em 1871, distrito em 1872. Vinte e cinco anos entre a compra de uma sesmaria e o reconhecimento oficial de uma povoação.
O decreto que também criou Jundiapeba
Agora um detalhe que só aparece quando se lê muita história municipal em sequência.
Pelo Decreto-Lei nº 9.775, de 30 de novembro de 1938, o Distrito de Prainha foi elevado à categoria de município.
Guarde o número e a data.
É exatamente o mesmo decreto e a mesma data que criaram o distrito de Santo Ângelo, em Mogi das Cruzes — o lugar que seis anos depois viraria Jundiapeba, e sobre o qual escrevemos nesta mesma rodada.
Um único ato do governo estadual, num único dia, reorganizou a divisão administrativa de São Paulo inteiro. Numa ponta, criou um distrito no Alto Tietê. Na outra, promoveu a município um povoado do Vale do Ribeira.
Trinta de novembro de 1938 foi um dia movimentado no mapa paulista.
E aí veio 1944
Seis anos depois, Prainha perdeu o nome.
Em 1944, o nome da cidade teve que ser mudado porque existia uma cidade com nome idêntico no estado do Pará. Prainha passou a ser então Miracatu.
É a mesma história de Una, que virou Ibiúna por causa de uma homônima na Bahia, e de Santo Ângelo, que virou Jundiapeba.
Três cidades deste guia e um distrito trocaram de nome no mesmo ano, dentro da mesma revisão nacional da toponímia.
E aqui vale a franqueza que esta série adotou: não localizamos base acadêmica sólida para o significado de "Miracatu". A prefeitura, no seu texto oficial, também não fornece a etimologia. Circulam versões, e nenhuma delas conseguimos verificar em dicionário de tupi antigo.
Uma cidade que existe desde 1847 carrega, desde 1944, um nome cujo significado ninguém consegue documentar.
O que o acervo do guia mostra
Este guia mapeia 161 estabelecimentos no Centro de Miracatu, dos quais 151 têm telefone.
É, com folga, o primeiro bairro do município entre os 50 bairros que a cidade tem no acervo. O segundo, Jardim Miracatu, tem 36.
Ou seja: o Centro tem quase cinco vezes mais comércio que o segundo colocado, e responde sozinho por 28% de todo o comércio da cidade.
O perfil:
- Serviços e profissionais — 29
- Mercados e alimentos — 20
- Bares e restaurantes — 19
- Igrejas e templos — 17
- Saúde — 15
- Educação — 9
Saúde em quinto e educação em sexto, num bairro de 161 comércios, mostram uma coisa importante: numa cidade pequena, tudo o que é serviço fica no centro. Não há bairro com clínica própria nem escola particular própria. Quem precisa, vai ao Centro.
E o município tem uma peculiaridade que já apontamos nesta série. Miracatu é a única cidade do guia em que bares e restaurantes lidera o ranking municipal, com 78 estabelecimentos entre 582 — à frente de serviços, que tem 72.
É a assinatura de cidade de beira de estrada no Vale do Ribeira: quem passa, para para comer.
Cento e setenta e nove anos depois, o município continua vivendo de ser um lugar onde se para no meio do caminho. Mudou o veículo — era canoa, virou caminhão. A função é a mesma.
Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Miracatu, bares e restaurantes, mercados e alimentos, saúde e serviços e profissionais.
O nome do francês ficou
Um detalhe que fecha o círculo.
O museu municipal de Miracatu chama-se Museu Municipal Pedro Laragnoit.
Cento e setenta e nove anos depois de um francês comprar uma sesmaria por um milhão de réis, o sobrenome dele continua na fachada de um equipamento público da cidade que ele fundou.
O nome da cidade mudou. O nome do fundador, não.
Linha do tempo
- julho de 1847 — o francês Pierre Laragnoit compra a sesmaria por um milhão de réis
- anos seguintes — constrói um sobrado de 12 janelas e escoa a produção pelo rio São Lourenço até Iguape e o Rio de Janeiro
- 14/06/1871 — Laragnoit doa terras para a construção da igreja
- 06/04/1872 — o povoado é elevado a Distrito de Paz
- 30/11/1938 — pelo Decreto-Lei nº 9.775, o Distrito de Prainha vira município
- 1944 — Prainha passa a se chamar Miracatu, por causa da homônima no Pará
- hoje — o Centro concentra 161 dos 582 comércios do município
Comparando com os vizinhos
Com Jundiapeba, em Mogi das Cruzes: os dois foram tocados pelo mesmo Decreto-Lei nº 9.775, de 30/11/1938, e os dois passaram por 1944. Um virou município e trocou de nome; o outro virou distrito e trocou de nome.
Com a Aldeinha, em São Lourenço da Serra: os dois são o ponto original da cidade. A diferença é que aqui o ponto original continua sendo o centro econômico, e lá o lugar de origem esvaziou.
Com Barnabés, em Juquitiba: as duas cidades ficam na mesma faixa serrana a caminho do litoral sul, e as duas têm igrejas entre as maiores categorias comerciais.
O que ninguém explica
- O que significa "Miracatu"? Nem a prefeitura arrisca no texto oficial.
- Onde ficava exatamente a prainha? O ponto que deu nome à cidade não tem localização registrada.
- O sobrado de 12 janelas ainda existe? A casa que marcou a fundação não aparece com destino documentado.
O que fica
Havia uma faixa de areia na margem esquerda de um rio, e homens que remavam paravam ali para comer.
Em 1847, um francês comprou aquilo por um milhão de réis, levantou um sobrado de doze janelas e começou a mandar mercadoria rio abaixo até Iguape e o Rio de Janeiro.
Em 1871 doou terra para uma igreja. No ano seguinte, o lugar virou distrito. Em 1938, virou cidade. Em 1944, perdeu o nome.
Mas não perdeu a função.
No mesmo ponto onde os canoeiros encostavam para almoçar, hoje existem 161 comércios — e a cidade inteira é a única deste guia em que bar e restaurante é a maior categoria de todas.
Cento e setenta e nove anos depois, Miracatu continua sendo o lugar onde quem está de passagem para para comer.
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