O que só existe aqui · Cotia
83 produtores de batata fundaram em Cotia a maior cooperativa da América Latina — e ela acabou num único dia
Em 1927 eram 83 agricultores japoneses num bairro rural. Em 1987 eram 15 mil cooperados em 15 estados, faturando US$ 760 milhões. Em 30 de setembro de 1994, tudo terminou.
Existe uma história econômica em Cotia que deveria ser ensinada em escola de administração, e que quase ninguém na cidade conhece por inteiro.
Ela começa com 83 pessoas plantando batata e termina, sessenta e sete anos depois, com uma dívida de R$ 1,5 bilhão e um acervo doado a um museu.
No meio, a maior cooperativa agrícola da América Latina.
Dezembro de 1927
O nome original diz tudo sobre a modéstia do começo:
Sociedade Cooperativa de Responsabilidade Limitada de Produtores de Batata em Cotia
Foi fundada em dezembro de 1927 — não em 1928, como circula com frequência — por imigrantes japoneses.
Eram 83 agricultores.
Oitenta e três pessoas que plantavam batata e decidiram fazer a coisa mais simples e mais difícil que existe: comprar junto e vender junto.
Comprar junto significa insumo mais barato. Vender junto significa não aceitar o preço que o atravessador impõe a quem chega sozinho com um caminhão.
É a ideia inteira. Não há nada mais nela.
Por que ali, e por que eles
Cotia começou a receber imigrantes japoneses em 1913.
Eles trouxeram algo que a região não tinha: técnica agrícola. Não era só trabalhar a terra — era saber rotacionar cultura, tratar solo, selecionar semente e organizar a produção. Os registros da época falam numa verdadeira evolução técnico-rural.
Quatorze anos depois de chegarem, aqueles agricultores fundaram a cooperativa.
O que ela virou em sessenta anos
Em 1987, ao completar seis décadas, a Cooperativa Agrícola de Cotia:
- operava em 15 estados
- tinha dez cooperativas ligadas à central
- mantinha 90 armazéns regionais
- reunia 15 mil cooperados
- faturava US$ 760 milhões por ano
E comercializava uma lista que foi muito além da batata: frutas, ovos, grãos, aves, hortaliças, chá, algodão e leguminosas.
Repita o começo em voz alta: 83 produtores de batata, num bairro rural de Cotia, em 1927.
Sessenta anos depois, três quartos de bilhão de dólares por ano e presença em mais da metade dos estados brasileiros.
30 de setembro de 1994
E então acabou.
As cooperativas contraíram grande volume de dívidas no fim dos anos 1980, por causa da crise agrícola e do cenário econômico do período.
A Cooperativa Agrícola Sul-Brasil encerrou as atividades em 30 de março de 1994.
A Cooperativa Agrícola de Cotia encerrou em 30 de setembro do mesmo ano.
A liquidação judicial se deu com dívida acumulada de aproximadamente R$ 1,5 bilhão à época.
O impacto na comunidade nipo-brasileira foi descrito como um choque. Sessenta e sete anos de construção coletiva desapareceram em meses.
Vale entender por que dói tanto: cooperativa não é empresa de um dono. Quando ela quebra, não quebra um empresário — quebram quinze mil famílias ao mesmo tempo, cada uma com sua parte no prejuízo e nenhuma com poder de decidir sozinha.
Onde a memória dela está hoje
Quatro anos depois do fechamento, os arquivos da cooperativa foram doados ao Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil, na Liberdade.
É onde está a documentação: numa sala de museu, a trinta quilômetros do bairro rural onde tudo começou.
Há algo de melancólico e de correto nisso ao mesmo tempo. A CAC não foi só um negócio agrícola — foi uma das maiores realizações coletivas da imigração japonesa no Brasil. O lugar dela é mesmo no museu que conta essa imigração.
Como uma cooperativa central funciona
A estrutura da CAC em 1987 merece explicação, porque o desenho é o que explica tanto a força quanto o colapso.
Não era uma cooperativa só. Era uma central, com dez cooperativas filiadas e 90 armazéns regionais espalhados por quinze estados.
Central significa que as cooperativas locais continuavam existindo — cada uma com seus associados, sua diretoria e sua região — e delegavam à central a parte pesada: compra em escala, armazenagem, transporte, comercialização e crédito.
É uma arquitetura poderosa. Um produtor de hortaliça em Cotia passava a ter o poder de negociação de quinze mil produtores somados.
E é também uma arquitetura frágil, porque concentra o risco. Quando a central endivida, todo mundo endivida junto — inclusive o cooperado que estava com as contas em dia e que não participou de nenhuma decisão financeira.
Foi o que aconteceu no fim dos anos 1980.
O que significa liquidação judicial
O termo aparece nos registros e não é o mesmo que falência comum.
A liquidação judicial é o processo em que a Justiça assume o encerramento da entidade: apura o que existe, apura o que se deve, vende o que dá para vender e distribui o resultado entre os credores.
No caso da CAC, isso se deu com dívida acumulada de aproximadamente R$ 1,5 bilhão.
E há um detalhe que dá a medida do fim: a liquidação se arrastou por décadas. O CNPJ da cooperativa central seguiu registrado como "em liquidação" muito tempo depois de 1994 — o encerramento formal de uma estrutura desse tamanho não acontece num dia, mesmo quando a atividade para de uma vez.
Linha do tempo
- século XVIII — Cotia é pouso de tropeiros na rota para o Sul
- 02/04/1856 — elevada a Vila
- 19/12/1906 — elevada a cidade
- 1913 — chegam os primeiros imigrantes japoneses
- dezembro/1927 — fundação da cooperativa, com 83 produtores de batata
- 1948 — Carapicuíba é anexada a Cotia, por um ano
- 1987 — auge: 15 estados, 15 mil cooperados, US$ 760 milhões
- 30/03/1994 — encerra a Cooperativa Agrícola Sul-Brasil
- 30/09/1994 — encerra a Cooperativa Agrícola de Cotia
- 1998 — os arquivos são doados ao Museu da Imigração Japonesa
O que o acervo do guia mostra
Este guia mapeia 12.899 estabelecimentos em Cotia, dos quais 11.876 têm telefone, distribuídos por 432 bairros.
Pare nesse número: 432 bairros.
É a maior dispersão relativa de todas as vinte cidades do guia. Mais bairros por estabelecimento que Guarulhos, que São Bernardo, que qualquer outra.
Traduzindo: Cotia não é uma cidade. São várias, coladas, com quilômetros de estrada entre elas — o centro histórico, a Granja Viana, os bairros rurais, os condomínios.
E o perfil das categorias:
- Serviços e profissionais — 2.155
- Outros — 1.199
- Bares e restaurantes — 1.164
- Beleza e bem-estar — 1.074
A liderança folgada de serviços, num município tão espalhado, mostra uma economia que se reorganizou por completo. A Cotia agrícola da cooperativa deu lugar a uma Cotia de prestador de serviço, comércio de estrada e atendimento a condomínio.
O dado não opina. Só mostra o que restou.
Quem precisa navegar essas várias Cotias pode ver o guia completo de Cotia, serviços e profissionais, pet e agropecuária — o que sobrou da cadeia rural —, mercados e alimentos e bares e restaurantes.
Comparando com as vizinhas
Com Ibiúna: vizinha e também agrícola, mas com destino oposto. Ibiúna nunca teve uma estrutura do porte da CAC — e talvez seja por isso que sua produção continue pulverizada, com 25% da alface do estado saindo de centenas de propriedades familiares que ninguém cadastrou. Concentrar dá escala e dá risco; pulverizar dá fragilidade e dá sobrevivência.
Com Mogi das Cruzes e Suzano: a mesma imigração japonesa criou, no leste da região metropolitana, o Cinturão Verde — que segue de pé. No oeste, criou a maior cooperativa do continente — que caiu. Duas estratégias, dois desfechos.
Com Carapicuíba: foram o mesmo município por um ano, em 1948. Quase ninguém nas duas cidades sabe disso.
O que ninguém explica
- Por que a maior cooperativa da América Latina não conseguiu se reestruturar? Há explicações econômicas — dívida, crise agrícola, câmbio —, mas nenhuma fecha sozinha a conta de por que não houve saída.
- O que existe hoje no Moinho Velho? O bairro onde tudo começou raramente é apontado no mapa da cidade.
- Para onde foram os 15 mil cooperados? Não há levantamento sobre o que aconteceu com as famílias depois de 1994.
O que fica
Em 1913, imigrantes japoneses chegaram a Cotia trazendo técnica agrícola.
Quatorze anos depois, oitenta e três deles decidiram comprar junto e vender junto.
Sessenta anos depois, eram quinze mil, em quinze estados, faturando três quartos de bilhão de dólares por ano — a maior cooperativa agrícola da América Latina, nascida de um acordo entre plantadores de batata.
Em 30 de setembro de 1994, acabou.
Do que foi construído sobraram os arquivos, doados a um museu na Liberdade — e o nome de um roedor tímido no mapa de São Paulo.
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