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Curiosidades · Taboão da Serra

Taboão da Serra tem nome de mato de brejo — e elegeu, em 1963, a primeira prefeita do Brasil desde a redemocratização

A cidade mais densa do estado se chama assim por causa de uma planta de beira de córrego. E em 1963, quando tinha quatro anos de idade, fez uma coisa que nenhum município brasileiro tinha feito.

· 7 min de leitura

Vista de Taboão da Serra

Taboão da Serra cabe em cerca de 20 km². É uma das menores cidades do estado de São Paulo.

E tem a maior densidade populacional do estado: aproximadamente 13.416 habitantes por quilômetro quadrado, segundo o IBGE — o que a coloca entre os lugares mais adensados do Brasil inteiro.

Mas a história mais surpreendente da cidade não é essa. É o que ela fez em 1963, com quatro anos de idade.

Primeiro, o nome: é mato de brejo

Taboão vem da taboa — uma planta que cresce em lugares de muita água.

E havia muita: a região fica no cruzamento do Córrego Poá com o Pirajuçara.

A taboa é conhecida popularmente como "capim dos brejos". Em tupi, os indígenas a chamavam de "peri-peri".

Ou seja: a cidade se chama, literalmente, "lugar de muita taboa" — mato de beira de córrego.

E o "da Serra"? Foi incorporado depois da emancipação, como homenagem à cidade-mãe: Itapecerica da Serra.

É um detalhe bonito. Ao se separar, a cidade nova fez questão de carregar um pedaço do nome de quem a criou.

A cidade começou com batata e mandioca

A história de Taboão começa por volta de 1910, com um vilarejo chamado Vila Poá, instalado nas margens dos córregos Poá e Pirajussara.

No começo eram poucas casas — a maioria chácaras, que produziam batata, cenoura e mandioca.

Hoje, no mesmo território, moram mais de 270 mil pessoas.

Pouco mais de um século separa a roça de mandioca da cidade mais densa do estado. É uma das transformações mais rápidas de toda a região metropolitana.

A Comissão dos 9

Até os anos 1950, Taboão da Serra era distrito de Itapecerica da Serra.

A emancipação veio em 19 de fevereiro de 1959, e não caiu do céu: foi resultado de mobilização popular organizada.

Funcionários do instituto local, donos de olarias, chacareiros e comerciantes se juntaram no que ficou conhecido como a "Comissão dos 9" — o grupo que articulou e promoveu o processo.

Nove pessoas. É esse o tamanho do começo de uma cidade que hoje tem quase 300 mil habitantes.

6 de outubro de 1963: 1.347 votos

Aqui está o fato que devia ser muito mais conhecido do que é.

Em 6 de outubro de 1963, Laurita Ortega Mari foi eleita prefeita de Taboão da Serra com 1.347 votos, de pouco mais de 3.000 votos válidos.

Ela se tornou a primeira mulher eleita para uma prefeitura no Brasil no período democrático iniciado em 1946.

E aqui o qualificador não é detalhe burocrático — é o que separa o fato da lenda.

A primeira prefeita do Brasil, sem qualquer ressalva, foi Alzira Soriano, eleita em 2 de setembro de 1928 para a prefeitura de Lajes, no Rio Grande do Norte, com 60% dos votos. Foi também a primeira da América do Sul, e a eleição dela saiu no The New York Times — quatro anos antes de o Brasil aprovar o voto feminino em âmbito nacional.

Laurita é a primeira do período democrático aberto em 1946. É um feito enorme, e é assim que as fontes o registram. Dizer "a primeira do Brasil" sem a ressalva apaga Alzira Soriano — e não é o que este guia faz.

Os grandes jornais de São Paulo, incluindo O Estado de S. Paulo, deram destaque ao fato na edição de 18 de outubro de 1963.

Vale medir o peso disso. Em 1963, a mulher brasileira tinha direito ao voto havia trinta anos. O país estava a meses de um golpe militar. E uma cidade de quatro anos de idade, nascida de chácara de batata, elegeu uma mulher para governá-la.

Quem foi Laurita

Ela nasceu no Rio de Janeiro, em 1908, e casou-se com Francisco Ettore Pedro Mari em 1934.

Governou Taboão da Serra entre 1964 e 1968 — exatamente o período em que o país entrava na ditadura.

Teve papel importante em consolidar Taboão como cidade independente. Entre suas realizações estão melhorias na Estrada Kizaemon Takeuti e a inauguração do Grupo Escolar do Jardim Maria Rosa.

E fez uma coisa que quase nenhum político brasileiro fez: doou o próprio salário — cem mil cruzeiros mensais — para obras assistenciais.

Hoje há uma avenida com o nome dela na cidade, e a Câmara Municipal concede anualmente a Medalha Laurita Ortega Mari.

Linha do tempo

  • c. 1910 — nasce a Vila Poá, com chácaras de batata, cenoura e mandioca
  • anos 1950 — articula-se a Comissão dos 9
  • 19/02/1959 — emancipação de Itapecerica da Serra
  • 06/10/1963 — Laurita Ortega Mari é eleita prefeita com 1.347 votos
  • 18/10/1963 — os grandes jornais paulistas noticiam o feito
  • 1964–1968 — governo de Laurita
  • hoje — a maior densidade populacional do estado de São Paulo

O que o acervo do guia mostra sobre Taboão da Serra

Este guia mapeia 11.609 estabelecimentos em Taboão da Serra, dos quais 10.623 têm telefone, distribuídos por 261 bairros.

Faça a conta que interessa: 11.609 estabelecimentos em cerca de 20 km².

Isso dá aproximadamente 580 estabelecimentos por quilômetro quadrado — a maior concentração comercial de todas as vinte cidades do guia, com folga.

Para comparar: Mogi das Cruzes tem quase o dobro de fichas, mas espalhadas por um território dezenas de vezes maior.

O perfil:

  • Serviços e profissionais — 1.574
  • Bares e restaurantes — 1.305
  • Beleza e bem-estar — 1.223
  • Outros — 1.024

As quatro categorias estão próximas, todas de atendimento direto ao morador. É o retrato exato de uma cidade compacta: comércio de rua em cima de comércio de rua, atendendo uma população que vive muito perto uma da outra.

O paradoxo de morar numa cidade densa

Densidade alta produz um efeito que quem mora em Taboão conhece bem: tudo está perto e mesmo assim você não acha nada.

Comércio em cima de comércio, rua atrás de rua, e nenhuma lista organizada de o que existe onde.

É exatamente esse o problema que este guia resolve: o guia completo de Taboão da Serra, saúde, bares e restaurantes, beleza e bem-estar, mercados e alimentos e construção e reforma.

Endereço, telefone e mapa. Sem cadastro.

Taboão comparada com a vizinhança

Com Itapecerica da Serra: foi a primeira filha a se emancipar, em 1959, e levou o sobrenome da mãe. Itapecerica geraria mais quatro cidades depois.

Com São Lourenço da Serra: as duas fizeram exatamente a mesma escolha — se separar de Itapecerica e, ainda assim, manter "da Serra" no nome. Uma em 1959, outra em 1992. Trinta e três anos de distância, e o mesmo gesto.

Com Diadema: são as duas campeãs de densidade da região metropolitana, em lados opostos da capital, com o mesmo problema urbano — muita gente, pouco chão.

Com Embu das Artes: vizinhas coladas, ambas emancipadas de Itapecerica, e com perfis comerciais quase idênticos na contagem do acervo.

O que ninguém explica

  • Quem eram, um a um, os nove da Comissão dos 9? O grupo é citado sempre em bloco. Os nomes individuais raramente aparecem.
  • Por que Laurita, em 1963? O que fez uma cidade recém-nascida eleger uma mulher, três décadas depois do voto feminino e num país que não faria isso de novo tão cedo?
  • De onde veio o nome da Estrada Kizaemon Takeuti? Uma via importante da cidade leva nome de origem japonesa, e a história por trás dela é pouco contada.

O que fica

Um brejo com capim alto no encontro de dois córregos.

Umas poucas chácaras de batata em 1910.

Nove pessoas decididas a fazer uma cidade em 1959.

E, quatro anos depois, um município recém-nascido elegendo com 1.347 votos a primeira prefeita do país desde a redemocratização de 1946 — que governaria durante o golpe militar e doaria o próprio salário.

Taboão da Serra é a menor cidade grande do estado. E tem uma das histórias mais surpreendentes de toda a região metropolitana, escondida atrás de um nome que significa, sem nenhuma poesia, "lugar de mato de brejo".

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