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O bairro · Embu-Guaçu

Embu-Guaçu começou com o dote de casamento de uma menina de 16 anos — e a casa dela virou museu

Em 21 de setembro de 1867, Emília Pedrozo de Moraes recebeu do pai as terras da Fazenda da Ilha ao se casar. O bairro que leva esse nome existe até hoje, tem 41 comércios e todos os 41 têm telefone.

· 9 min de leitura

Vista de Embu-Guaçu

A história oficial de Embu-Guaçu não começa com um bandeirante, um jesuíta nem um decreto.

Começa com um casamento.

Em 21 de setembro de 1867, uma jovem de dezesseis anos chamada Emília Pedrozo de Moraes se casou — e recebeu, como dote, boa parte das terras que hoje formam o município.

Essas terras se chamavam Fazenda da Ilha.

E ainda existe, em Embu-Guaçu, um bairro com esse nome.

Quem foi Emília

Emília Pedrozo de Moraes nasceu em 1849, em Itapecerica da Serra.

Era filha do Capitão Manoel José de Moraes, fazendeiro e comerciante de tropas — o tipo de figura que concentrava, no interior paulista do século XIX, terra, gado e influência.

Aos dezesseis anos, casou-se com José Pires de Albuquerque, também tropeiro, como o sogro.

E aí está o ponto: o casamento não foi só um casamento. Foi uma transferência patrimonial.

Como parte do dote, Emília recebeu, segundo a prefeitura, "grande parte das terras da Fazenda da Ilha ou Itararé, na margem direita do rio Embu-Guaçu, abrangendo terras até a divisa com Itanhaém", além da casa do capitão em Itapecerica e outros bens.

Leia de novo a extensão: até a divisa com Itanhaém. Ou seja, terras que iam da região de Embu-Guaçu em direção ao litoral sul.

Uma adolescente de dezesseis anos, em 1867, tornou-se proprietária de um território que hoje comportaria municípios inteiros.

A casa que virou museu

O casal foi morar na casa sede da Fazenda da Ilha ou Itararé, que a prefeitura situa na margem esquerda do rio Embu-Guaçu.

Vale registrar a curiosidade: o texto oficial diz que o dote era da margem direita, e que a casa sede ficava na margem esquerda. As duas informações estão no mesmo parágrafo. Provavelmente a fazenda ocupava os dois lados e o dote foi só uma parte — mas o documento não explica, e nós não vamos inventar a explicação.

O que importa é o destino da casa.

Ela existe. E hoje é a sede do Museu Municipal Abraham Svartman Goltman.

Poucas cidades da Grande São Paulo podem dizer isso: que a casa onde morou o casal fundador continua de pé e continua aberta ao público.

O nome do bairro sobreviveu à fazenda

E aqui está o que torna esta história diferente das outras desta rodada.

Na maior parte dos bairros que investigamos, o nome perdeu o referente. Ninguém sabe quem foi Amorim, quem foi Virgínia, o que era Intercap, quem eram os Camargos.

Em Embu-Guaçu, não. A Fazenda da Ilha ainda está no mapa, como bairro, com endereço, CEP e comércio funcionando.

Cento e cinquenta e nove anos depois do casamento de Emília, o nome da propriedade que ela recebeu de dote continua sendo o nome de um pedaço da cidade.

E há um segundo indício, que registramos como leitura e não como fato: o segundo maior bairro comercial de Embu-Guaçu chama-se Jardim Emília, com 98 estabelecimentos. É difícil não pensar na mesma Emília — mas não localizamos documento que confirme a homenagem, então fica anotado como coincidência sugestiva.

O que o acervo do guia mostra

Este guia mapeia 41 estabelecimentos na Fazenda da Ilha.

E aqui vem um número que não vimos em nenhum outro bairro desta série: todos os 41 têm telefone.

Cem por cento.

Em bairros grandes, a taxa costuma ficar entre 93% e 97% — sempre sobra um comércio sem contato cadastrado. Aqui não sobra nenhum.

É o quarto bairro de Embu-Guaçu em número de comércios, entre os 130 bairros que a cidade tem no acervo, atrás do Centro (409), do Jardim Emília (98) e do Itororó (43).

O perfil é o mais concentrado de toda esta rodada:

  • Serviços e profissionais — 18
  • Construção e reforma — 4
  • Bares e restaurantes — 4
  • Mercados e alimentos — 3
  • Moda e vestuário — 2
  • Oficinas e serviços para veículos — 2

Serviços respondem por 44% de todo o comércio do bairro.

Isso é excepcional. Nos outros bairros desta rodada, a primeira categoria fica entre 20% e 25% do total. Aqui é quase metade.

Um bairro com esse perfil — serviço profissional dominante, altíssima taxa de telefone cadastrado, pouca coisa de consumo cotidiano — não é bairro de rua movimentada. É bairro de endereço: escritório, prestador, empresa registrada, atividade que atende por telefone e não por vitrine.

O que faz sentido para uma área que hoje abriga condomínio e chácara, e não comércio de calçada.

Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Embu-Guaçu, serviços e profissionais, construção e reforma, bares e restaurantes e mercados e alimentos.

De dote a município

O caminho de Embu-Guaçu até virar cidade demorou quase um século depois do casamento.

O lugar foi elevado à condição de distrito de Itapecerica da Serra em 1944 — o mesmo ano em que Una virou Ibiúna, Prainha virou Miracatu e Santo Ângelo virou Jundiapeba. O Brasil inteiro estava reorganizando sua toponímia e sua divisão administrativa.

A emancipação político-administrativa veio em fevereiro de 1964.

E em 28 de março de 1965 tomou posse o primeiro prefeito, José Simões Louro Junior.

Vale notar quantas cidades deste guia saíram do mesmo tronco: Embu-Guaçu, Taboão da Serra, Juquitiba e São Lourenço da Serra foram todas distritos de Itapecerica da Serra antes de existirem como municípios. Uma cidade só gerou quatro.

O que era um dote, e por que isso importa

Vale explicar o instituto, porque hoje ele soou estranho e na época era a regra.

O dote era o patrimônio que a família da noiva transferia por ocasião do casamento. Não era presente: era um ato jurídico, registrado, que constituía a base econômica do novo casal.

E ele tinha uma função social bem concreta no Brasil do século XIX. Terra não se vendia com facilidade num país sem mercado de crédito e sem cartório em toda esquina. O casamento era um dos principais mecanismos de circulação de propriedade rural.

Um capitão com muita terra e uma filha em idade de casar não estava fazendo caridade ao entregar uma fazenda de dote. Estava consolidando aliança com outra família de tropeiros — no caso, os Pires de Albuquerque — e garantindo que o patrimônio continuasse dentro de um círculo conhecido.

Por isso a idade de Emília não é anedota: dezesseis anos era idade normal de casar, e o dote era entregue exatamente nesse momento porque era ele que dava sentido econômico ao arranjo.

O que torna este caso digno de artigo não é o costume. É a escala: aquele contrato específico transferiu um território que, um século depois, viraria um município inteiro da Região Metropolitana de São Paulo.

Uma cidade que ainda é rural

Os números de Embu-Guaçu confirmam o que a história sugere.

O município tem 2.106 estabelecimentos no acervo — o quarto menor entre as vinte cidades deste guia, à frente apenas de Juquitiba, Miracatu e São Lourenço da Serra.

E eles estão distribuídos assim:

  • Serviços e profissionais — 242
  • Bares e restaurantes — 221
  • Mercados e alimentos — 188
  • Igrejas e templos — 181
  • Beleza e bem-estar — 164
  • Construção e reforma — 150

Igrejas e templos em quarto lugar, com 181 — quase empatado com mercados. É o padrão que se repete em toda a faixa sudoeste: Juquitiba, Ibiúna, São Lourenço, Itapecerica. Onde o município é grande em território e disperso em população, o templo de bairro é o equipamento coletivo mais próximo de casa.

E o Centro concentra 409 dos 2.106 — quase 20% de tudo, numa cidade com 130 bairros. É uma economia que ainda gira em torno de um núcleo só.

Comparando com os vizinhos

Com o Jardim Santo Eduardo, em Embu das Artes: os dois municípios saíram de Itapecerica e os dois têm um bairro grande fora do Centro. Mas o de Embu das Artes é periferia adensada com cem comércios numa estrada; o de Embu-Guaçu é o oposto — 41 comércios, quase todos de serviço.

Com a Aldeinha, em São Lourenço da Serra: os dois bairros são o lugar onde a cidade começou. Só que a Fazenda da Ilha ainda tem comércio e museu, e a Aldeinha praticamente não tem nada.

Com o Jardim Zaira, em Mauá: os dois levam nome ligado a uma mulher da família de quem era dono da terra. Zaira era mãe do loteador; Emília era a noiva que recebeu a fazenda.

Linha do tempo

  • 1849 — nasce Emília Pedrozo de Moraes, em Itapecerica da Serra
  • 21/09/1867 — casamento com José Pires de Albuquerque; Emília recebe o dote com as terras da Fazenda da Ilha ou Itararé
  • 1944 — o lugar é elevado a distrito de Itapecerica da Serra
  • fevereiro de 1964 — emancipação político-administrativa de Embu-Guaçu
  • 28/03/1965 — posse do primeiro prefeito, José Simões Louro Junior
  • hoje — a casa sede é o Museu Municipal Abraham Svartman Goltman

O que ninguém explica

  • Por que o dote era da margem direita e a casa, da esquerda? A história oficial diz as duas coisas sem conciliar.
  • O Jardim Emília é homenagem à mesma Emília? É o segundo maior bairro da cidade, e não há confirmação documental.
  • O que aconteceu com Emília depois? A história oficial a apresenta no casamento e não conta o resto da vida dela.

O que fica

Em 1867, um capitão do interior paulista casou a filha de dezesseis anos com um tropeiro e entregou, junto, um pedaço de terra que ia até a divisa com Itanhaém.

Aquele pedaço de terra virou município em 1964.

A casa onde o casal foi morar continua de pé e hoje é museu.

E o nome da fazenda — Fazenda da Ilha — continua nomeando um bairro com 41 comércios, todos eles com telefone cadastrado.

Numa região onde quase nenhum bairro sabe de onde veio o próprio nome, este sabe: veio de um contrato de casamento assinado há cento e cinquenta e nove anos, em que uma adolescente recebeu uma fazenda de presente.

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