O que só existe aqui · Diadema
Diadema elegeu o primeiro prefeito do PT no Brasil — um ferramenteiro, com 23.310 votos
Em 1982, na primeira eleição que o partido disputou, Gilson Menezes venceu em Diadema. A gestão dele virou laboratório do orçamento participativo, três anos antes de Fortaleza e seis antes de Porto Alegre.
Em 1982, o Partido dos Trabalhadores disputou eleição pela primeira vez.
Elegeu um prefeito no Brasil inteiro.
Ele era ferramenteiro, tinha sido um dos líderes da greve da Scania, e venceu em Diadema com 23.310 votos.
O nome dele era Gilson Menezes.
O contexto: 1982
O PT havia acabado de ser reconhecido oficialmente pelo TSE e já entrou no primeiro pleito disponível.
Era um partido novo, nascido do movimento sindical do ABC, sem estrutura, sem tempo de televisão relevante e sem tradição eleitoral.
E numa cidade de pouco mais de 30 km², encravada entre São Bernardo e a capital, ele elegeu o primeiro prefeito de sua história.
Gilson Menezes governou entre 1983 e 1988. Foi eleito de novo em 1997, e ficou até 2000.
Antes da política, o chão de fábrica
Gilson não veio de gabinete.
Ele foi um dos líderes da greve da Scania, no fim dos anos 1970, sob a liderança de Lula — o movimento que iniciou a transformação do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC no maior sindicato do país.
Fazia parte da geração que mudou o sindicalismo brasileiro e lutou pela redemocratização.
Vale lembrar a escala do que aconteceu naqueles anos: em 13 de março de 1979, metalúrgicos de São Bernardo, Diadema, Santo André e São Caetano pararam. Cerca de 200 mil trabalhadores aderiram. No 1º de maio de 1980, estima-se que 150 mil pessoas estivessem no Estádio de Vila Euclides.
Diadema não foi coadjuvante nisso. A concentração de fábricas de autopeças no município fazia dela peça essencial da paralisação.
Três anos depois, a mesma cidade elegeu um daqueles grevistas para a prefeitura.
O laboratório
E aqui está a parte de alcance nacional, que costuma ser atribuída a outras cidades.
A gestão iniciada em 1982 foi um laboratório de participação popular.
Experiências como o orçamento participativo — que se tornariam referência universal da administração petista depois das vitórias em grandes capitais — começaram ali.
A cronologia importa:
- Diadema — 1983
- Fortaleza — 1985
- São Paulo e Porto Alegre — 1988
Porto Alegre ficou mundialmente conhecida pelo orçamento participativo. Delegações de dezenas de países foram estudar o modelo.
Mas o ensaio aconteceu cinco anos antes, numa cidade de 30 km² do ABC paulista, sob um prefeito ferramenteiro.
O que é orçamento participativo
Vale explicar, porque o termo virou jargão.
É um mecanismo em que os moradores decidem diretamente parte do orçamento municipal — em assembleias de bairro, definindo prioridades de obra e serviço.
Não é consulta simbólica: a decisão vincula. O que a comunidade escolhe, entra no orçamento.
Numa cidade recém-saída da ditadura, em que a maior parte da população era operária e a estrutura urbana era precária, entregar a decisão de gasto para assembleia de bairro era uma aposta considerável.
Foi testada primeiro em Diadema.
A cidade que ele recebeu
Vale entender o que era Diadema em 1983, porque isso explica por que a experiência de participação popular fazia sentido ali.
A cidade tinha se emancipado havia pouco mais de vinte anos. Cresceu como território de passagem entre o litoral e o planalto, e depois como lugar das fábricas de autopeças que abasteciam as montadoras de São Bernardo.
O resultado foi uma cidade operária, densa e com infraestrutura urbana atrás da população — mais de 400 mil habitantes se acumulariam em pouco mais de 30 km².
Numa cidade assim, quase toda demanda é básica e concorre com outra igualmente básica: asfalto num bairro ou creche em outro, rede de esgoto aqui ou posto de saúde ali.
É exatamente o cenário em que decidir sozinho, de gabinete, gera revolta — e em que decidir em assembleia de bairro, com todo mundo vendo a conta, funciona.
O orçamento participativo não nasceu de teoria. Nasceu de uma cidade em que não havia dinheiro para tudo e havia gente organizada o bastante para discutir a prioridade.
O segundo tempo
Gilson Menezes voltou à prefeitura em 1997, e ficou até 2000 — quase dez anos depois do primeiro mandato.
Ele morreu aos 70 anos, e foi descrito como parte da geração que mudou o sindicalismo brasileiro e lutou pela redemocratização.
Poucos personagens brasileiros têm uma trajetória tão direta entre o chão de fábrica e o gabinete: greve da Scania, fundação de um partido, primeira eleição disputada, prefeitura.
Linha do tempo
- 1959 — Diadema se emancipa de São Bernardo do Campo
- anos 1960–70 — a indústria de autopeças transforma a cidade
- fim dos anos 1970 — greve da Scania; Gilson Menezes entre os líderes
- 13/03/1979 — greve dos metalúrgicos do ABC; cerca de 200 mil param
- 01/05/1980 — 150 mil pessoas em Vila Euclides
- 1982 — Gilson Menezes é eleito com 23.310 votos: primeiro prefeito do PT no Brasil
- 1983–1988 — primeiro mandato; começa a experiência de orçamento participativo
- 1985 — Fortaleza
- 1988 — São Paulo e Porto Alegre
- 1997–2000 — segundo mandato de Gilson em Diadema
Um par improvável na região
Há uma coincidência entre duas cidades deste guia que vale colocar lado a lado.
Taboão da Serra, em 1963, elegeu Laurita Ortega Mari — a primeira mulher a assumir uma prefeitura no Brasil no período democrático iniciado em 1946. Ela venceu com 1.347 votos, numa cidade que tinha quatro anos de idade.
Diadema, em 1982, elegeu o primeiro prefeito do PT do país, com 23.310 votos.
Duas cidades pequenas da Grande São Paulo, separadas por dezenove anos e por trinta quilômetros, fizeram duas coisas que nenhum outro município brasileiro tinha feito antes.
Nenhuma das duas costuma aparecer em livro de história.
O que o acervo do guia mostra
Este guia mapeia 15.165 estabelecimentos em Diadema, dos quais 13.938 têm telefone, distribuídos por 197 bairros.
Guarde esse último número: 197 bairros, o menor entre as cidades grandes do guia. São Bernardo tem 543; Guarulhos, 749.
O motivo é o território — pouco mais de 30 km² para mais de 400 mil habitantes. É uma das cidades mais densas do Brasil.
O perfil:
- Serviços e profissionais — 1.919
- Bares e restaurantes — 1.629
- Beleza e bem-estar — 1.500
- Mercados e alimentos — 1.308
As quatro estão próximas, e as três últimas são de atendimento direto ao morador. É o retrato de uma cidade compacta onde tudo fica a poucos quarteirões — e onde, justamente por isso, é difícil saber o que existe.
Dá para navegar em o guia completo de Diadema, oficinas e serviços para veículos — herança direta da era das autopeças —, mercados e alimentos, saúde e bares e restaurantes.
Comparando com as vizinhas
Com São Bernardo: Diadema era parte dela até 1959, e as duas pararam juntas em 1979. A diferença é que São Bernardo virou símbolo nacional da greve, e Diadema virou o laboratório do que veio depois dela.
Com Taboão da Serra: as duas campeãs de densidade da região, e as duas com um primeiro nacional na biografia política.
Com Mauá: as duas se emanciparam na mesma década e as duas viraram cidades industriais densas.
O que ninguém explica
- Por que Diadema, e não outra cidade do ABC? O PT nasceu em São Bernardo. Elegeu prefeito em Diadema. A explicação para isso raramente é detalhada.
- Como funcionou o orçamento participativo em 1983? A experiência é sempre citada como origem, e quase nunca descrita em detalhe.
- Quantos votos o PT teve nas outras cidades naquele ano? O contraste daria a dimensão exata do que aconteceu aqui.
O que fica
Uma cidade de 30 quilômetros quadrados, nascida da fusão de dois vilarejos em 1936 e emancipada de São Bernardo em 1959.
Uma geração de operários que parou fábrica sob ditadura e ajudou a reabrir o país.
E, em 1982, na primeira eleição que o partido deles disputou, um ferramenteiro eleito com 23.310 votos — o único do PT no Brasil naquele ano.
O modelo de gestão que ele começou a testar virou referência mundial pelo nome de outra cidade.
Mas o primeiro ensaio foi aqui.
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