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O bairro · Mauá

O maior bairro de Mauá tem nome da mãe do loteador — e ele doava tijolo para quem comprasse lote

Chafik Mansur Sadek batizou o loteamento com o nome de Zaira, sua mãe. Para atrair moradores, dava telha, porta e janela. Hoje são 100 mil pessoas em 5 km², 22% da população da cidade.

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Vista de Mauá

Um em cada cinco moradores de Mauá vive no mesmo bairro.

São 100 mil pessoas em 5 km² — cerca de 22% da população do município, no território mais populoso da cidade.

E o bairro leva o nome de uma senhora chamada Zaira, que era mãe do homem que loteou aquilo tudo.

Quem foi Zaira

O nome é homenagem à mãe de Chafik Mansur Sadek, o loteador.

Ela não era proprietária, não era administradora, não tinha papel na negociação. Era a mãe. E o filho decidiu que o lugar levaria o nome dela.

Há inclusive um registro visual: Zaira aparece retratada numa pintura a óleo que esteve exposta no Asilo Lar Santa Terezinha.

É uma raridade nesta série. Nos outros bairros que investigamos, o homenageado é jurista, delegado, proprietário, engenheiro. Aqui é uma mulher de quem não se sabe profissão nem sobrenome de solteira — só que era mãe de alguém e que o filho quis vê-la no mapa.

O acento que o povo colocou

Um detalhe pequeno e revelador: o "Zaira" original não tem acento.

O Zaíra com i acentuado, como se escreve por toda parte hoje, foi incluído popularmente pelos moradores.

Ou seja: o nome foi dado por um homem, e a pronúncia foi corrigida por dezenas de milhares de pessoas ao longo de setenta anos, até o acento virar oficial na boca de todo mundo.

Poucos exemplos mostram tão bem o que acontece quando um nome comercial de loteamento cai no uso diário: ele deixa de pertencer a quem o inventou.

O empresário turco da chácara

Chafik Mansur Sadek era empresário de ascendência turca e possuía uma grande chácara na região montanhosa de Mauá.

O loteamento começou em 1952.

Mas a história oficial tem outra data: 23 de julho de 1956, quando o prefeito da recém-emancipada Mauá, Ennio Brancalion, assinou o decreto nº 23, autorizando Sadek a vender lotes na região.

Quatro anos entre a prática e a autorização.

Isso não é anomalia — é como boa parte da Grande São Paulo foi de fato ocupada. Primeiro se vende, depois se regulariza. E vale lembrar o contexto: Mauá havia se emancipado de Santo André apenas dois anos antes, em 1954. A cidade era novíssima e estava aprendendo a se administrar enquanto crescia.

O tijolo de graça

E aqui está o detalhe que explica por que aquilo funcionou.

Para facilitar o povoamento da região, Chafik doava tijolos, telhas, portas e janelas.

Pare um segundo nisso.

Um loteador que dá o material de construção não está apenas vendendo terreno — está resolvendo o problema seguinte de quem compra. Quem adquiria um lote naquela região montanhosa, sem infraestrutura, precisava levantar a casa com o que sobrasse do salário.

Doar tijolo e telha acelera a ocupação, valoriza os lotes vizinhos e cria um bairro em vez de um loteamento vazio.

É estratégia comercial, e é também um arranjo que colocou teto sobre a cabeça de muita gente que não teria como comprar material.

O que 5 km² com 100 mil pessoas significam

A densidade do Jardim Zaira é o dado mais impressionante do bairro.

Cem mil habitantes em cinco quilômetros quadrados dá cerca de 20 mil pessoas por km² — mais que a densidade média de Taboão da Serra, que é a cidade mais densa do estado de São Paulo, com cerca de 13,4 mil habitantes por km².

Um bairro de Mauá é mais adensado que o município mais adensado do estado.

E ele tem mais moradores que Miracatu (22 mil), São Lourenço da Serra e Juquitiba somados — três municípios inteiros deste guia.

O ônibus como infraestrutura fundadora

Há um aspecto do Jardim Zaira que raramente aparece em história de bairro e que, aqui, é central.

A chácara de Chafik ficava numa região montanhosa de Mauá — longe do centro, longe da estação, longe de tudo.

Vender lote nessas condições exige resolver uma pergunta antes de qualquer outra: como a pessoa vai trabalhar?

A resposta foi o ônibus. A imprensa especializada em transporte já tratou o Jardim Zaíra justamente como exemplo da importância social do ônibus ao longo da história — o caso em que a linha não serve um bairro existente, mas torna possível que ele exista.

Pense na ordem das coisas. Sem linha de ônibus, um lote a quilômetros do emprego não vale nada. Com linha, ele vale. O transporte não veio atrás da ocupação: veio junto com ela, como parte do produto.

É o mesmo mecanismo que a ferrovia cumpriu no KM 18, em Osasco, e em Jundiapeba, em Mogi — só que quarenta anos depois e sobre rodas.

E é por isso que, num bairro de 100 mil pessoas, o ônibus nunca foi assunto secundário. Ele é a razão de o bairro ter sido possível.

Linha do tempo

  • 1954 — Mauá se emancipa de Santo André
  • 1952 — começa, na prática, o loteamento da chácara de Chafik Mansur Sadek
  • 23/07/1956 — o prefeito Ennio Brancalion assina o decreto nº 23, autorizando a venda de lotes
  • décadas seguintes — a ocupação avança, sustentada pela doação de material de construção
  • hoje — cerca de 100 mil habitantes, 22% da população de Mauá

O que o acervo do guia mostra sobre o Jardim Zaira

Este guia mapeia 653 estabelecimentos no Jardim Zaira, dos quais 620 têm telefone.

É o segundo bairro de Mauá em número de comércios, entre os 215 bairros que a cidade tem no acervo.

E o perfil confirma exatamente o que a história conta:

  • Mercados e alimentos — 99
  • Bares e restaurantes — 69
  • Construção e reforma — 64
  • Serviços e profissionais — 63

Mercados em primeiro lugar. É a assinatura de bairro onde se mora — gente que compra comida onde vive, não onde trabalha.

E construção e reforma em terceiro, com 64 estabelecimentos. Material de construção, elétrica, hidráulica, marcenaria.

Setenta anos depois de Chafik Mansur Sadek começar a doar tijolo e telha para atrair moradores, o comércio de material de construção continua sendo um dos pilares do bairro.

A casa que se levanta aos poucos, laje por laje, nunca deixou de estar em obra. É o mesmo negócio, com outros donos.

Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Mauá, mercados e alimentos, construção e reforma, bares e restaurantes e serviços e profissionais.

Comparando com os vizinhos

Com a Cidade Ariston, em Carapicuíba: os dois são bairros populares grandes, com o mesmo perfil de mercados no topo e construção alta. A diferença é decisiva: o Jardim Zaira tem história documentada — nome do loteador, nome da homenageada, data do decreto, número do decreto. A Cidade Ariston não tem nada disso.

O que separa os dois não é importância. É alguém ter escrito.

Com Rudge Ramos, em São Bernardo: os dois são os maiores bairros das suas cidades. Rudge Ramos leva nome de jurista e delegado; o Jardim Zaira, de uma mãe.

Com o resto de Mauá: o município tem 215 bairros no acervo, e este responde por 22% da população.

O que ninguém explica

  • Qual era o sobrenome de Zaira? A homenageada do maior bairro de Mauá é conhecida só pelo primeiro nome.
  • Por que quatro anos entre o início do loteamento e o decreto? A defasagem entre 1952 e 1956 é registrada sem explicação.
  • Onde está a pintura a óleo? O retrato esteve exposto no Asilo Lar Santa Terezinha — e não há registro de onde se encontra hoje.

O que fica

Um empresário de ascendência turca tinha uma chácara numa região montanhosa de uma cidade que acabara de nascer.

Ele dividiu aquilo em lotes, começou a vender em 1952, e só quatro anos depois recebeu autorização formal do prefeito.

Para que as pessoas de fato construíssem, dava tijolo, telha, porta e janela.

E batizou o lugar com o nome da própria mãe.

Setenta anos depois, cem mil pessoas moram ali — mais gente que em três cidades deste guia somadas —, e todas elas escrevem Zaíra, com um acento que o filho não pôs.

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