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Origem do nome · Miracatu

Miracatu se chamava Prainha — e fica no vale onde começou a imigração japonesa no Brasil

Um francês comprou aquelas terras em 1847 por um milhão de réis. A primeira grande colônia japonesa do país foi fundada no mesmo vale em 1913. E a primeira escola da cidade foi construída por imigrantes em 1938.

· 8 min de leitura

Vista de Miracatu

Existem nomes de cidade que descrevem o terreno, outros que homenageiam um santo, outros que lembram um fundador.

Miracatu descreve as pessoas: a tradução que a cidade adota, e que consta em todos os registros locais, é "terra de gente boa".

Vale a ressalva — não localizamos essa etimologia em dicionário acadêmico de tupi antigo. Ela é a versão oficial do município, e é assim que deve ser lida: não como decomposição linguística verificada.

E a cidade só passou a se chamar assim porque foi obrigada.

Fica, além disso, no vale onde a imigração japonesa no Brasil começou — não em São Paulo, não no Paraná: aqui.

Antes, era Prainha

O antigo povoado se chamava Prainha, e ficava na margem esquerda do Rio São Lourenço.

O nome vinha de algo muito concreto: uma pequena praia onde os canoeiros paravam para descansar e fazer as refeições durante a viagem.

Aquele trecho de areia era o posto de parada do rio. Onde se comia, se esticava as pernas e se trocava notícia com quem vinha do outro lado.

Prainha era um nome honesto: descrevia exatamente a função do lugar.

O francês e o milhão de réis

A origem do núcleo está ligada às terras do francês Pierre Laragnoit.

Em julho de 1847, ele comprou uma sesmaria de Domingos Pereira de Oliveira e sua esposa por um milhão de réis.

Um francês, no Vale do Ribeira, em 1847, comprando terra.

O sobrenome dele continua na cidade: o Museu Municipal Pedro Laragnoit, inaugurado em 30 de novembro de 1983, guarda cerca de 500 peças que contam a colonização do Vale do Ribeira — com peças raras, curiosidades e documentos.

Quinhentas peças é acervo de verdade para uma cidade de pouco mais de 20 mil habitantes.

1944: a confusão com o Pará

Em 1944, o nome da cidade teve que ser mudado.

O motivo: existia uma cidade chamada Prainha no estado do Pará.

Prainha virou Miracatu.

E vale reparar na escolha. Poderiam ter escolhido "Nova Prainha", "Prainha do Sul" ou o nome de algum político.

Escolheram uma palavra tupi que significa terra de gente boa.

Alguém, em 1944, decidiu que a melhor coisa a dizer sobre aquele lugar era isso.

No mesmo ano, e pelo mesmo tipo de problema, Ibiúna deixou de se chamar Una — por causa de uma homônima na Bahia. Dois municípios paulistas rebatizados em 1944 por causa de cidades de outros estados.

O vale onde a imigração japonesa começou

Aqui está o fato que quase ninguém associa a esta região.

O Brasil tem a maior população de origem japonesa fora do Japão. E foi no Vale do Ribeira, em 1913, que começou a colonização japonesa em terras brasileiras.

Não na capital. Não no norte do Paraná. Aqui.

Em 9 de novembro de 1913, as primeiras famílias — os relatos variam entre 30 e 36, lideradas por Ikutaro Aoyagui — chegaram e fundaram a Colônia Katsura, batizada em homenagem ao então primeiro-ministro japonês, Taro Katsura.

O conjunto formado por Registro, Sete Barras e Katsura foi a primeira grande colônia japonesa no país.

Em meados de 1913 havia sido constituída em Tóquio a Brasil Takushoku Kaisha — a Companhia de Colonização do Brasil —, com o propósito de estabelecer colonos japoneses no Vale do Rio Ribeira de Iguape para o cultivo de arroz.

Cerca de duas mil famílias de imigrantes japoneses foram para o Vale do Ribeira em 1913.

A primeira escola da cidade

E há um detalhe que diz tudo sobre a prioridade daquela gente:

A primeira escola de Miracatu foi construída por japoneses, em 1938.

Não pelo município. Não pelo estado. Pelos imigrantes.

Vinte e cinco anos depois de chegarem ao vale para plantar arroz, construíram uma escola.

A banana

Miracatu fica no Vale do Ribeira, na região sul do estado de São Paulo. Tem 1.001 km² de extensão e cerca de 22 mil habitantes.

O clima é quente e úmido. E a economia é, principalmente, bananicultura.

Os números são grandes: cerca de 5.240.615 pés de banana em 4.701 hectares.

Cinco milhões de pés para 22 mil pessoas. Isso dá aproximadamente 238 pés de banana por habitante.

Se você comprou banana em qualquer feira ou mercado da Grande São Paulo, existe uma chance considerável de ela ter vindo do Vale do Ribeira — e boa parte dessa produção sai daqui.

A cultura do arroz veio primeiro; a da banana veio junto, e é a que ficou.

Linha do tempo

  • julho/1847 — Pierre Laragnoit compra a sesmaria por um milhão de réis
  • 1913 — constitui-se em Tóquio a Brasil Takushoku Kaisha
  • novembro/1913 — funda-se a Colônia Katsura, parte da primeira grande colônia japonesa do país
  • 1913 — cerca de 2.000 famílias japonesas chegam ao Vale do Ribeira
  • 1938 — imigrantes japoneses constroem a primeira escola de Miracatu
  • 1944 — Prainha vira Miracatu, por causa da homônima paraense
  • 30/11/1983 — inauguração do Museu Municipal Pedro Laragnoit

O que o acervo do guia mostra sobre Miracatu

Este guia mapeia 583 estabelecimentos em Miracatu, dos quais 494 têm telefone, distribuídos por 54 bairros.

É o menor acervo das vinte cidades depois de São Lourenço da Serra — e o perfil traz uma singularidade absoluta:

  • Bares e restaurantes — 78
  • Serviços e profissionais — 73
  • Igrejas e templos — 58
  • Outros — 55

Miracatu é a única das vinte cidades em que "Bares e restaurantes" aparece em primeiro lugar.

Em todas as outras dezenove, quem lidera é "Serviços e profissionais". Aqui não.

O que isso conta: numa cidade de 22 mil habitantes espalhados por 1.001 km², o bar e a lanchonete são o serviço. São o ponto de encontro, o lugar de negócio, o café da manhã de quem sai para a roça e o almoço de quem passa de caminhão pela BR-116.

E igrejas em terceiro — o mesmo padrão de Juquitiba e Embu-Guaçu: em território grande com núcleos distantes, o templo é o equipamento coletivo que existe onde não existe outro.

Faça a conta final: 583 estabelecimentos para 1.001 km². Menos de 0,6 estabelecimento por quilômetro quadrado. Em Taboão da Serra são cerca de 580 — mil vezes mais.

Duas cidades no mesmo estado, no mesmo guia, com densidades comerciais que diferem por três ordens de grandeza.

Miracatu comparada com a vizinhança

Com Ibiúna: as duas trocaram de nome em 1944 pelo mesmo motivo.

Com Suzano e Mogi das Cruzes: as três devem sua economia à agricultura japonesa. Mas a colonização do Vale do Ribeira, de 1913, é anterior à consolidação do Cinturão Verde no Alto Tietê — Miracatu está mais perto da origem da história.

Com Juquitiba: as duas menores economias do guia, as duas com igrejas no topo, e as duas dependentes do que a natureza em volta oferece. As duas também estão ligadas pelo mesmo rio: o São Lourenço, que passa por Miracatu, e o Juquiá, que nasce na região de Juquitiba, pertencem à mesma bacia.

Com São Lourenço da Serra: o nome do rio de Miracatu e o nome da cidade vizinha de Itapecerica homenageiam o mesmo santo, em dois cantos distantes do estado.

O que ninguém explica

  • Quem foi Pedro Laragnoit, e por que o museu leva o nome dele e não o de Pierre? A relação entre os dois nomes raramente é esclarecida.
  • O que aconteceu com a Colônia Katsura? Ela teve ascensão e queda, e a história completa é pouco divulgada.
  • Quem foi Miyoji Kayo? A Fanfarra Municipal de Miracatu leva o nome dele, e quase não há registro público sobre quem foi.

Uma cidade pequena e enorme ao mesmo tempo

Mil quilômetros quadrados para 22 mil pessoas significa distâncias grandes e bairros isolados.

Encontrar um serviço aqui é diferente de encontrar em cidade adensada: o problema não é excesso de opção, é saber quem existe e onde.

Este guia foi feito exatamente para isso: o guia completo de Miracatu, bares e restaurantes — a maior categoria da cidade —, mercados e alimentos, pet e agropecuária, saúde e serviços e profissionais.

Endereço, telefone e mapa de cada estabelecimento. Sem cadastro e sem nota inventada — inclusive dos comércios pequenos, que costumam ficar de fora de todo aplicativo.

O que fica

Uma praia de rio onde os canoeiros paravam para comer.

Um francês que comprou aquilo tudo por um milhão de réis em 1847.

E, em 9 de novembro de 1913, trinta e seis famílias japonesas desembarcando num vale quente e úmido do sul de São Paulo para plantar arroz — sem saber que estavam começando a maior comunidade japonesa fora do Japão.

Vinte e cinco anos depois, construíram a primeira escola da cidade.

E uma mudança de nome forçada por burocracia, em 1944, acabou dando ao lugar a melhor definição possível de si mesmo.

Terra de gente boa — ao menos é o que a cidade diz que o nome quer dizer, e ninguém por ali tem interesse em conferir. É difícil superar isso.

MiracatuVale do RibeiraHistóriaBananaImigração japonesa

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