Origem do nome · Itapecerica da Serra
A pedra que batizou Itapecerica ainda está lá — e a cidade é mãe de cinco municípios
O nome nasceu de um tombo, e a pedra da lenda pode ser vista até hoje, com casas construídas em cima. E de Itapecerica saíram Taboão, Embu, Embu-Guaçu, Juquitiba e São Lourenço.
A maioria das lendas de fundação de cidade é solene: um santo, uma aparição, uma batalha.
A de Itapecerica da Serra é sobre alguém escorregando.
E o melhor: a pedra do tombo ainda existe, e você pode vê-la.
Mais do que isso — esta é a cidade que gerou outras cinco. Metade do sudoeste da região metropolitana saiu do território dela.
Ita! Pecerica!
O nome vem do tupi antigo, e desta vez a decomposição tem lastro acadêmico. Segundo o Dicionário de Tupi Antigo de Eduardo Navarro, "Itapecerica" significa "pedra achatada escorregadia":
- itá — pedra
- peb — achatada
- syryk — escorregadia
- a — sufixo substantivador
Escrito originalmente como "Itapycyryca".
A lenda conta que dois índios caminhavam sobre uma grande pedra no que hoje é o centro da cidade, quando um deles escorregou e exclamou:
— Ita!
E o outro respondeu:
— Pecerica!
Dois gritos. Um tombo. E um nome que dura séculos.
Não há como saber se aconteceu exatamente assim — lenda é lenda. Mas o significado é sólido, e existe uma pedra escorregadia de verdade.
A pedra está lá até hoje
Esta é a parte que quase ninguém sabe, nem quem mora na cidade.
A enorme pedra lisa ainda pode ser vista parcialmente na Rua Henrique Soter Fernandes, perto do Largo da Matriz — onde várias construções foram erguidas sobre ela.
Leia de novo: construíram casas em cima da pedra que deu nome à cidade.
Não é uma crítica. É apenas muito humano. A pedra estava ali, era firme, servia de fundação. Alguém construiu. Depois alguém construiu ao lado. E o marco fundador do topônimo virou base de alicerce.
Se você passar por ali, vale procurar. Está lá embaixo, aparecendo em pedaços.
1562: a aldeia de Nossa Senhora dos Prazeres
O povoamento começou com um aldeamento indígena sob a proteção de Nossa Senhora dos Prazeres, fundado pelos jesuítas em 1562, com o objetivo de defender o Colégio de São Paulo de Piratininga e facilitar a catequese.
No século XVII, o aldeamento cresceu com a chegada de índios trazidos de Carapicuíba pelo sertanista Afonso Sardinha, então proprietário da Fazenda Ubatatá — onde hoje é o Butantã.
Esses índios ficaram sob a orientação do padre jesuíta Belchior de Pontes, que também atendia a aldeia de M'Boy — a futura Embu das Artes.
Guarde os dois nomes. Eles reaparecem em outras cidades desta região, e são a prova de que as vinte cidades do guia são todas parentes.
Em 1689, a Capela de Itapecerica já reunia mais de 900 pessoas sob a proteção do jesuíta Diogo Machado.
Novecentas pessoas, no fim do século XVII, no planalto paulista. Era um lugar grande para a época.
Afonso Sardinha: o homem que liga três cidades
Vale um parêntese, porque é a melhor conexão desta região inteira.
Afonso Sardinha é o sertanista que trouxe índios de Carapicuíba para Itapecerica no século XVII.
E o mesmo sobrenome aparece na origem do ciclo do ouro em Guarulhos: é a Afonso Sardinha, o Velho, que se atribui a descoberta das jazidas de lá, entre 1597 e 1598.
O mesmo personagem, em dois cantos opostos da Grande São Paulo, ligando Carapicuíba, Itapecerica e Guarulhos.
A história desta região não é feita de vinte histórias independentes. É uma história só, com poucos personagens circulando por todo lado.
Os alemães de 1827
Em 1827, o Governo Imperial criou aqui uma colônia para incentivar a atividade agrícola, e nela se radicaram imigrantes alemães.
É um capítulo pouco lembrado. Antes dos italianos, antes dos japoneses, antes da migração nordestina que formaria boa parte da região metropolitana, houve uma colônia alemã em Itapecerica.
Vila em 1877, "da Serra" em 1944
Itapecerica foi elevada à categoria de vila pela Lei Provincial nº 33, de 8 de maio de 1877 — quando o município foi criado.
E em 1944 acrescentou-se ao nome a partícula "da Serra", por dois motivos: em alusão à topografia e para distinguir a cidade do município mineiro de mesmo nome.
A mãe de cinco cidades
Aqui está o fato que dá a real dimensão de Itapecerica — e que a maioria dos textos sobre a cidade conta errado, dizendo "quatro".
São cinco. Do território original de Itapecerica saíram:
- Taboão da Serra — 1959
- Embu-Guaçu — 1964
- Embu das Artes
- Juquitiba — 1964
- São Lourenço da Serra — 1992
Cinco municípios. E duas delas carregam "da Serra" no nome justamente em homenagem à cidade-mãe — Taboão e São Lourenço, separadas por 33 anos e pelo mesmo gesto.
Itapecerica é o tronco de boa parte do sudoeste da região metropolitana. Foi ficando menor no mapa à medida que a região foi ficando maior.
Linha do tempo
- 1562 — fundação do aldeamento de Nossa Senhora dos Prazeres
- século XVII — Afonso Sardinha traz índios de Carapicuíba; Belchior de Pontes os orienta
- 1689 — a capela reúne mais de 900 pessoas
- 1827 — o Governo Imperial cria a colônia alemã
- 08/05/1877 — elevada a vila pela Lei Provincial nº 33
- 1944 — acrescenta-se "da Serra" ao nome
- 1959 — emancipa-se Taboão da Serra
- 1964 — emancipam-se Embu-Guaçu e Juquitiba
- 1992 — emancipa-se São Lourenço da Serra
O que o acervo do guia mostra sobre Itapecerica da Serra
Este guia mapeia 5.308 estabelecimentos em Itapecerica da Serra, dos quais 4.759 têm telefone, distribuídos por 148 bairros.
O perfil:
- Serviços e profissionais — 644
- Bares e restaurantes — 577
- Beleza e bem-estar — 510
- Mercados e alimentos — 435
Compare com as filhas. Taboão da Serra, que se emancipou em 1959, tem hoje 11.609 estabelecimentos — mais que o dobro da cidade-mãe. Embu das Artes tem 8.071, também bem mais.
A mãe é hoje a terceira em tamanho entre as próprias filhas.
Isso não é decadência. É geografia e legislação: boa parte do território que restou a Itapecerica é área de manancial, com restrição de ocupação, porque é dali que sai parte da água da Guarapiranga. A cidade não pode adensar como Taboão adensou.
Ela abriu mão do crescimento para que a região tivesse água. É um papel ingrato e pouco reconhecido.
Itapecerica comparada com as filhas
Taboão da Serra: a primeira a sair, em 1959. Levou o sobrenome e virou a mais densa do estado.
Embu das Artes: dividiu com a mãe o mesmo padre — Belchior de Pontes atendia as duas aldeias — e virou a mais famosa das cinco.
Embu-Guaçu: saiu em 1964 e ficou, como a mãe, presa às regras de manancial.
Juquitiba: saiu no mesmo ano e foi para o turismo de aventura.
São Lourenço da Serra: a última, em 1992, e a única que precisou vencer um veto para existir.
Cinco filhas, cinco destinos. E a mãe segurando a água de todas.
O que ninguém explica
- Quantas construções há em cima da pedra? O marco fundador da cidade está debaixo de casas, e ninguém mapeou quantas.
- O que aconteceu com a colônia alemã de 1827? Ela consta nos registros e some depois. Onde foram parar aquelas famílias?
- Por que "quatro" e não "cinco"? A maioria dos textos sobre Itapecerica esquece uma das emancipações — geralmente Embu das Artes. Vale conferir sempre.
A cidade de hoje
Itapecerica da Serra tem mais de 170 mil habitantes, território extenso e bairros distantes uns dos outros — muitos em área de manancial, com regras próprias de ocupação.
Achar um serviço específico fora do seu bairro é genuinamente difícil.
Este guia resolve isso: o guia completo de Itapecerica da Serra, serviços e profissionais, saúde, construção e reforma, mercados e alimentos e bares e restaurantes.
Endereço, telefone e mapa de cada estabelecimento. Sem cadastro.
O que fica
Alguém escorregou numa pedra e gritou.
O grito virou o nome de um aldeamento. O aldeamento virou capela. A capela virou vila. A vila virou município.
E o município virou mãe de cinco cidades, cedendo território até virar menor que duas das próprias filhas — e ficando com a parte que não pode ser construída, porque é de onde vem a água.
A pedra continua ali, na Rua Henrique Soter Fernandes, com casas em cima.
É o marco fundador mais discreto da Grande São Paulo — e provavelmente o único que virou alicerce de garagem.
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