Origem do nome · Cotia
Cotia pode não ter nome de bicho — e sediou a maior cooperativa agrícola da América Latina, que faliu com R$ 1,5 bilhão
Oitenta e três produtores de batata fundaram uma cooperativa em 1927. Sessenta anos depois ela faturava US$ 760 milhões por ano e operava em 15 estados. Em 1994, acabou de uma vez.
Cotia é uma das cidades mais visitadas da Grande São Paulo — pela Granja Viana, pela Raposo, pelos restaurantes de estrada, pelos condomínios.
E carrega um nome que quase todo mundo atribui a um bicho pequeno, com cara de coelho sem orelha — mas que talvez signifique outra coisa.
Carrega também a história econômica mais impressionante e mais melancólica de toda a região: a de uma cooperativa fundada por 83 agricultores que virou a maior da América Latina e desapareceu num único dia.
A cutia — ou o ponto de encontro
A versão mais lembrada aponta para os mamíferos roedores chamados kutis — as cutias —, considerados animais de estimação pelos indígenas. Há uma variante que associa o nome à sinuosidade dos caminhos, que lembrariam o trajeto torto do bicho.
Mas existe uma leitura completamente diferente, e ela consta em registros mais cuidadosos: o nome viria de "koty", que no idioma m'byá (guarani) significa "ponto de encontro".
E essa versão tem a seu favor algo que a do roedor não tem: ela combina exatamente com o que o lugar era.
Cotia nasceu como pouso de tropeiros — o ponto onde as tropas paravam para dormir, dar água aos animais e trocar notícia da estrada adiante. Um ponto de encontro, literalmente.
As grafias antigas registram a hesitação: Coty, Cuty, Cutia, Acutia, Acotia. Só depois da elevação a município, em 1906, fixou-se "Cotia" com "o".
Duas etimologias — e a mais interessante talvez não seja a do bicho.
Antes de ser cidade, era um pouso
A história de Cotia começa no início do século XVIII, quando a região servia de refúgio a viajantes que iam explorar o interior de São Paulo e a região Sul.
O município teve origem como pouso de tropeiros e dos animais de carga que transportavam mantimentos.
Vale entender o que era um pouso: não era hotel nem restaurante. Era o lugar onde as tropas paravam para dormir, dar água aos animais e trocar informação sobre a estrada adiante.
Cotia nasceu como parada. E, de certo modo, continua sendo — quem vai para o interior por aqui ainda encontra o último lugar bom de parar antes da estrada de verdade.
As datas
- 2 de abril de 1856 — elevada à categoria de Vila
- 19 de dezembro de 1906 — elevada à condição de cidade, com a denominação de Cotia
Cinquenta anos entre uma coisa e outra.
E um detalhe pouco lembrado: Carapicuíba foi anexada a Cotia em 1948, por apenas um ano, antes de virar distrito de Barueri. Quase ninguém em qualquer das duas cidades sabe disso.
1913: chegam os japoneses
Em 1913, a cidade começou a receber os primeiros imigrantes japoneses.
Eles trouxeram algo que a região não tinha: técnica agrícola.
Não era só trabalhar a terra. Era saber rotacionar cultura, tratar solo, selecionar semente, organizar a produção. Os registros falam de uma verdadeira evolução técnico-rural.
E dessa evolução saiu uma das instituições mais importantes da história econômica de São Paulo.
Dezembro de 1927: 83 produtores de batata
A Cooperativa Agrícola de Cotia foi fundada em dezembro de 1927 — não 1928, como circula com frequência — por imigrantes japoneses.
O nome original diz tudo sobre a modéstia do começo:
Sociedade Cooperativa de Responsabilidade Limitada de Produtores de Batata em Cotia
Eram 83 agricultores.
Oitenta e três pessoas que plantavam batata e decidiram comprar junto e vender junto.
O que ela virou
Sessenta anos depois, em 1987, a CAC:
- operava em 15 estados
- tinha dez cooperativas ligadas à central
- mantinha 90 armazéns regionais
- reunia 15 mil cooperados
- faturava US$ 760 milhões por ano
Comercializava batata, frutas, ovos, grãos, aves, hortaliças, chá, algodão e leguminosas.
Era a maior cooperativa agrícola da América Latina.
Repita o começo: 83 produtores de batata, num bairro rural de Cotia, em 1927.
30 de setembro de 1994: o fim
E então acabou.
As cooperativas contraíram um grande volume de dívidas no fim dos anos 1980, por causa da crise agrícola e do cenário econômico.
A Cooperativa Agrícola Sul-Brasil encerrou as atividades em 30 de março de 1994. A Cooperativa Agrícola de Cotia encerrou em 30 de setembro do mesmo ano.
A liquidação judicial se deu com uma dívida acumulada de aproximadamente R$ 1,5 bilhão à época.
O impacto na comunidade nipo-brasileira foi descrito como um choque. Sessenta e sete anos de construção coletiva desapareceram em meses.
Quatro anos depois do fechamento, os arquivos da cooperativa foram doados ao Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil, na Liberdade.
É onde está a memória dela hoje: numa sala de museu, a 30 km de onde tudo começou.
Linha do tempo
- século XVIII — a região é pouso de tropeiros
- 02/04/1856 — elevada a Vila
- 19/12/1906 — elevada a cidade
- 1913 — chegam os primeiros imigrantes japoneses
- dezembro/1927 — fundação da cooperativa, com 83 produtores de batata
- 1948 — Carapicuíba é anexada a Cotia, por um ano
- 1987 — auge: 15 estados, 15 mil cooperados, US$ 760 milhões
- 30/09/1994 — encerramento das atividades
- 1998 — arquivos doados ao Museu da Imigração Japonesa
O que o acervo do guia mostra sobre Cotia
Este guia mapeia 12.899 estabelecimentos em Cotia, dos quais 11.876 têm telefone, distribuídos por 432 bairros.
Pare nesse último número.
432 bairros para 12.899 estabelecimentos. É a maior dispersão relativa de todas as vinte cidades do guia — mais bairros que Guarulhos tem por ficha, mais que São Bernardo, mais que qualquer outra.
Traduzindo: Cotia não é uma cidade. São várias, coladas, com quilômetros de estrada entre elas.
O perfil:
- Serviços e profissionais — 2.155
- Outros — 1.199
- Bares e restaurantes — 1.164
- Beleza e bem-estar — 1.074
A liderança folgada de serviços, num município tão espalhado, indica uma economia que se reorganizou completamente: a Cotia agrícola da cooperativa deu lugar a uma Cotia de prestador de serviço, comércio de estrada e atendimento a condomínio.
O dado não opina. Só mostra o que restou.
As muitas Cotias
O centro histórico, com a matriz e o comércio antigo.
A Granja Viana, que funciona quase como uma cidade própria — e que, aliás, não cabe num município só: ela se espalha para além da divisa.
Os bairros rurais, com sítio, chácara e produção.
Os condomínios, com uma economia de serviços inteira girando em volta.
Quatro cidades em uma, e é por isso que os 432 bairros existem.
Cotia comparada com a vizinhança
Com Carapicuíba: foram o mesmo município por um ano, em 1948. Hoje Carapicuíba tem 294 bairros num território muito menor.
Com Ibiúna: as duas são cidades de forte tradição agrícola no oeste da região metropolitana, as duas receberam imigração japonesa, e as duas hoje vivem também de turismo de fim de semana.
Com Mogi das Cruzes e Suzano: o mesmo fenômeno em outra ponta do mapa. A imigração japonesa que criou o Cinturão Verde no leste criou, no oeste, a maior cooperativa agrícola do continente.
Com Barueri: vizinhas, e com destinos econômicos opostos — Barueri concentrou serviços de alto valor em pouco território; Cotia espalhou-se por muito território sem concentrar nada.
O que ninguém explica
- Cutia ou caminho torto? As duas versões do nome convivem há décadas e ninguém venceu a discussão.
- Por que a cooperativa não sobreviveu? Há explicações econômicas — dívida, crise agrícola, câmbio —, mas nenhuma fecha sozinha a conta de por que a maior da América Latina não conseguiu se reestruturar.
- O que existe hoje no Moinho Velho, onde tudo começou? O berço da CAC raramente é apontado no mapa da cidade.
O comércio das muitas Cotias
Este guia junta as quatro cidades num lugar só: o guia completo de Cotia, serviços e profissionais, bares e restaurantes, mercados e alimentos, pet e agropecuária — a herança rural ainda visível — e saúde.
Endereço, telefone e mapa de cada estabelecimento. Sem cadastro e sem nota inventada.
O que fica
Um bicho pequeno que andava torto pelo mato — ou, quem sabe, a palavra guarani para "ponto de encontro" — deu nome a um lugar de passagem.
O lugar de passagem virou pouso, o pouso virou vila, a vila virou cidade.
Em 1927, oitenta e três produtores de batata decidiram se juntar. Sessenta anos depois eram quinze mil, em quinze estados, faturando três quartos de bilhão de dólares por ano.
Em 30 de setembro de 1994, acabou.
Da maior cooperativa agrícola da América Latina sobraram os arquivos, doados a um museu na Liberdade — e o nome de um roedor tímido no mapa de São Paulo.
Leia também
Todos os artigos-
O que a cidade come · Barueri
Barueri tem 37 mil comércios e a menor densidade de padaria, açougue e pizzaria do guia — as três ao mesmo tempo
É o segundo maior acervo entre as vinte cidades e fica em último lugar nos três indicadores de comércio de bairro. Não é falta de comida: é que o que está registrado em Barueri não é loja de rua, é empresa.
-
O que a cidade come · Carapicuíba
Carapicuíba tem mais loja de bebida que padaria — 143 contra 62, a maior densidade de adega do guia
São 10,1 comércios de bebida por mil estabelecimentos, à frente de todas as vinte cidades e quase três vezes a taxa de Santo André. E em nenhuma outra cidade a adega supera a padaria por essa margem.
-
O que a cidade come · Diadema
Diadema tem a maior densidade de fornecedor de marmita do guia — e é a cidade mais industrial dele
São 120 empresas de fornecimento de alimentos preparados em 17.503 estabelecimentos, 6,9 por mil, a maior taxa entre as vinte. Não é coincidência: é o comércio que nasce onde a fábrica trabalha em turno.