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Origem do nome · Embu das Artes

A cobra que batizou Embu das Artes — e a história que quase ninguém conta direito

O nome da cidade vem de uma serpente, de um padre perdido no mato e de um índio encontrado morto. E a feira mais famosa do estado nasceu de uma mudança de endereço em 1969.

· 5 min de leitura

Vista de Embu das Artes

Pergunte a dez pessoas na fila do pastel da feira o que significa "Embu". Nove vão dizer que não sabem. A décima vai arriscar alguma coisa sobre índios, e vai estar meio certa.

A resposta é curta e um pouco assustadora: Embu vem de M'Boy, que em tupi-guarani quer dizer cobra grande.

Só que a parte boa não é a tradução. É o motivo.

O padre, o mato e a serpente

A versão que atravessou quatro séculos é assim.

O padre Belchior de Pontes subiu de Itanhaém rumo ao planalto. Em algum ponto da mata, se perdeu. Andou até não conseguir mais andar, e desmaiou.

Um índio o encontrou caído. Carregou o padre desfalecido até sua choça e cuidou dele até que se recuperasse.

Quando foram procurar o homem que salvara o jesuíta, encontraram-no morto — e envolvido por uma cobra enorme. M'Boy, na língua dele.

O nome ficou. Não como um aviso sobre bichos peçonhentos da região, mas como homenagem ao índio que salvou o padre. É uma história que tem tudo o que uma boa história de fundação precisa: floresta, gratidão, mistério e um final que ninguém explica.

Antes de ser Embu, era uma aldeia de jesuítas

A Aldeia de M'Boy foi fundada pelos padres da Companhia de Jesus em meados do século XVI — as datas variam entre 1554 e 1559, dependendo da fonte que você abrir.

Em 1624, aconteceu o que sela o destino do lugar: Fernão Dias e Catarina Camacho doaram suas terras aos jesuítas, com uma condição. Que ali se estabelecesse a devoção a Nossa Senhora do Rosário.

A condição foi cumprida, e é por isso que a igreja no alto do largo continua sendo o coração da cidade quatro séculos depois. Em meados do século XVIII, a aldeia tinha 261 índios registrados e já dava sinais de prosperidade.

Repare no número. Duzentas e sessenta e uma pessoas. Hoje a cidade passa de 250 mil habitantes — e a feira, num domingo bom, recebe mais gente do que a aldeia inteira tinha.

O "das Artes" é surpreendentemente recente

Aqui está a parte que surpreende quem mora na cidade: a vocação artística de Embu não é antiga. É de 1937.

Naquele ano, um santeiro local chamado Cássio M'Boy levou um trabalho seu à Exposição Internacional de Artes Técnicas, em Paris — e voltou com o primeiro grande prêmio.

Um santeiro de uma aldeia jesuíta no meio do mato paulista ganhando um prêmio internacional em Paris. Não existe nada mais improvável, e não existe nada que explique melhor o que a cidade viria a ser.

A feira nasceu de gente que foi expulsa de outro lugar

A Feira de Artes e Artesanato de Embu não foi planejada por prefeitura nenhuma.

Ela surgiu em 1969, articulada por Mestre Assis do Embu, que fez uma coisa simples e genial: convenceu os expositores da feira da Praça da República, em São Paulo, a virem para cá.

No fim daquela década, a cidade já tinha virado ponto de encontro de hippies, que expunham artesanato nos fins de semana. Virou "Feira Hippie". Depois, só Feira de Embu das Artes.

Hoje são cerca de 500 expositores e entre 30 e 40 mil visitantes por fim de semana. Em 2021, ela foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado de São Paulo.

Uma feira que começou com gente sem lugar para vender virou patrimônio do estado. Leva mais de cinquenta anos para uma coisa dessas acontecer, e ela aconteceu aqui.

Três coisas que dão uma boa discussão de mesa de bar

1. O nome tem duas leituras. Alguns pesquisadores associam "Embu" a uma planta nativa, e não à cobra. As duas versões convivem há décadas, e ninguém venceu a discussão.

2. Embu e Embu-Guaçu são parentes. "Guaçu" quer dizer grande. A cidade vizinha é, literalmente, a "cobra grande grande". Faz sentido quando se olha o traçado dos rios da região no mapa.

3. A cidade não se chamou "das Artes" desde sempre. O complemento foi incorporado depois, quando a fama da feira já era maior que a do município.

O Embu que não sai no folheto de turismo

O turista chega no sábado, anda pelo largo, come um pastel de queijo com goiabada e volta.

Quem mora aqui sabe que a cidade tem outra vida — a que abre na segunda de manhã. A serralheria que faz o portão, a padaria que abre às cinco, o mecânico que conhece o barulho do seu carro, a clínica do bairro, o pet shop que aceita atender de última hora.

Essa Embu não cabe no roteiro de fim de semana, mas é ela que resolve a vida de quem mora aqui de verdade.

É exatamente isso que este guia organiza: o comércio real da cidade, com endereço, telefone e mapa — o guia completo de Embu das Artes, os bares e restaurantes, quem trabalha com construção e reforma e os serviços e profissionais da cidade.

Sem cadastro, sem aplicativo para baixar, sem nota inventada por robô.

O que fica

Uma cobra. Um padre perdido. Um índio que salvou alguém e morreu sem que ninguém soubesse explicar como. Um santeiro que ganhou Paris. Um punhado de artesãos expulsos de uma praça na capital.

Nenhuma cidade se planeja assim. Embu das Artes foi acontecendo — e é por isso que ela é diferente de tudo que existe num raio de cinquenta quilômetros.

Da próxima vez que subir o largo num domingo de sol, olhe para a igreja no alto. Ela está ali porque um casal, em 1624, fez uma exigência antes de doar as próprias terras.

Deu certo.

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