Origem do nome · Embu das Artes
A igreja de Embu foi tombada em 1938, no ano seguinte à criação do IPHAN — e o nome da cidade tem três versões
A igreja do largo está entre os primeiros bens tombados pelo IPHAN em São Paulo, em outubro de 1938. E a origem do nome da cidade tem três leituras diferentes, todas defendidas por gente séria.
Pergunte a dez pessoas na fila do pastel da feira o que significa "Embu". Nove vão dizer que não sabem. A décima vai arriscar alguma coisa sobre índios, e vai estar meio certa — só que provavelmente pela metade errada.
Porque existem três versões para o nome. E todas têm defensores sérios.
E a igreja no alto do largo, por onde milhares de pessoas passam todo domingo sem olhar duas vezes, foi tombada pelo IPHAN em outubro de 1938 — no ano seguinte à criação do instituto, e entre os primeiros bens protegidos no estado.
Versão 1: cobra grande
A leitura mais repetida é que Embu vem de M'Boy, que em tupi-guarani quer dizer cobra grande.
E a história por trás dela é a melhor de todas.
O padre Belchior de Pontes subiu de Itanhaém rumo ao planalto. Em algum ponto da mata, se perdeu. Andou até não conseguir mais andar, e desmaiou.
Um índio o encontrou caído. Carregou o padre desfalecido até sua choça e cuidou dele até que se recuperasse.
Quando foram procurar o homem que salvara o jesuíta, encontraram-no morto — e envolvido por uma cobra enorme. M'Boy, na língua dele.
O nome ficou. Não como aviso sobre bichos peçonhentos, mas como homenagem ao índio que salvou o padre.
É uma história que tem tudo que uma boa fundação precisa: floresta, gratidão, mistério e um final que ninguém explica.
Versão 2: rio das cobras
A segunda leitura muda uma palavra e muda tudo.
Segundo ela, "Embu" é corruptela de Mboy, do tupi antigo, formado por mboîa (cobra) e 'y (rio) — ou seja, "rio das cobras".
Repare que é exatamente a mesma construção de Mogi das Cruzes, do outro lado da região metropolitana. Duas cidades, dois rios, as mesmas cobras, a mesma etimologia.
Versão 3: a planta
E há ainda uma terceira leitura, que abandona a serpente: alguns pesquisadores associam "Embu" a uma planta nativa da região.
Nesse caso, "Embu-Guaçu", a cidade vizinha, seria simplesmente "o embu grande" — e não "a cobra grande grande", como a primeira versão sugeriria.
Três versões, décadas de convivência, nenhuma vencedora. E é justamente essa divergência que torna o assunto interessante: quem afirma com certeza qual é a correta está inventando.
A aldeia de jesuítas
A Aldeia de M'Boy foi fundada pelos padres da Companhia de Jesus em meados do século XVI — as datas variam entre 1554 e 1559, dependendo da fonte.
Em 1624, aconteceu o que selou o destino do lugar: Fernão Dias Paes Leme e Catarina Camacho doaram suas terras aos jesuítas do Colégio de São Paulo, com uma condição — que ali se estabelecesse a devoção a Nossa Senhora do Rosário.
A condição foi cumprida. Por volta de 1690, sob orientação do padre Belchior de Pontes — o mesmo da lenda —, ergueu-se a Igreja de Nossa Senhora do Rosário.
Em meados do século XVIII, a aldeia tinha 261 índios registrados e já dava sinais de prosperidade.
Duzentas e sessenta e uma pessoas. Hoje a cidade passa de 250 mil habitantes — e a feira, num domingo bom, recebe mais gente do que a aldeia inteira tinha.
1938: o tombamento federal
Aqui está o fato que devia estar numa placa no largo, e não está.
O conjunto arquitetônico formado pela Igreja de Nossa Senhora do Rosário e a residência anexa dos jesuítas — construído na virada do século XVII para o XVIII — foi tombado pelo IPHAN em 21 de outubro de 1938, no processo 180-T-38, com inscrição nos livros de Belas Artes e Histórico.
Parte das fontes o aponta como o primeiro bem tombado pelo IPHAN no estado de São Paulo. A ficha do próprio bem registra a data e os números de processo, mas não faz essa afirmação — então aqui ela fica como está: um dos primeiros tombamentos federais do estado, feito no ano seguinte à criação do instituto.
Foi restaurado pelo próprio instituto entre 1939 e 1941, e é protegido também pelo CONDEPHAAT desde 1974.
Hoje o conjunto abriga o Museu de Arte Sacra dos Jesuítas.
Milhares de pessoas passam por ali todo fim de semana atrás de móvel rústico e pastel. Poucas sabem que estão diante de um dos primeiros bens que o Brasil decidiu proteger por lei.
O "das Artes" é recente — e começou em Paris
Aqui está a parte que surpreende quem mora na cidade: a vocação artística de Embu não é antiga. É de 1937.
Naquele ano, um santeiro local chamado Cássio M'Boy levou um trabalho seu à Exposição Internacional de Artes e Técnicas, em Paris — e voltou com o primeiro grande prêmio.
Um santeiro de uma antiga aldeia jesuítica no meio do mato paulista ganhando prêmio internacional em Paris.
Não existe nada mais improvável, e não existe nada que explique melhor o que a cidade viria a ser.
A feira nasceu de gente que foi expulsa de outro lugar
A Feira de Artes e Artesanato de Embu não foi planejada por prefeitura nenhuma.
Ela surgiu em 1969, articulada por Mestre Assis do Embu, que fez algo simples e genial: convenceu os expositores da feira da Praça da República, em São Paulo, a virem para cá.
No fim daquela década, a cidade já tinha virado ponto de encontro de hippies, que expunham artesanato nos fins de semana. Virou "Feira Hippie". Depois, só Feira de Embu das Artes.
Hoje são cerca de 500 expositores e entre 30 e 40 mil visitantes por fim de semana. Em 2021, ela foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado de São Paulo.
Uma feira que começou com gente sem lugar para vender virou patrimônio do estado. Leva mais de cinquenta anos para uma coisa dessas acontecer, e aconteceu aqui.
Linha do tempo
- 1554–1559 — fundação da Aldeia de M'Boy pelos jesuítas
- 1624 — doação das terras por Fernão Dias Paes Leme e Catarina Camacho
- c. 1690 — construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, sob Belchior de Pontes
- meados do século XVIII — a aldeia tem 261 índios registrados
- 1937 — Cássio M'Boy ganha o grande prêmio em Paris
- 21/10/1938 — tombamento pelo IPHAN, processo 180-T-38
- 1939–1941 — restauração pelo IPHAN
- 1969 — nasce a Feira de Artes e Artesanato
- 1974 — tombamento pelo CONDEPHAAT
- 2021 — a Feira vira Patrimônio Cultural Imaterial do estado
O que o acervo do guia mostra sobre Embu das Artes
Este guia mapeia 8.071 estabelecimentos em Embu das Artes, dos quais 7.400 têm telefone, distribuídos por 246 bairros.
O perfil:
- Serviços e profissionais — 1.016
- Bares e restaurantes — 981
- Beleza e bem-estar — 781
- Mercados e alimentos — 755
O dado que mais surpreende é o que não aparece: nenhuma categoria ligada a artesanato, arte ou turismo entre as quatro maiores.
Isso não diminui a feira — diz outra coisa, e é a coisa mais importante deste texto: a Embu que o turista vê no domingo não é a Embu que existe.
A cidade real é de serviço e comércio de bairro, com quase mil bares e restaurantes e quase oitocentos salões, atendendo 250 mil moradores que não vivem de vender escultura.
A feira é extraordinária. Mas ela é a exceção visível de uma cidade comum e trabalhadora, e os números mostram isso sem rodeio.
Embu comparada com a vizinhança
Com Embu-Guaçu: as duas dividem a mesma raiz de nome e a mesma discussão etimológica. Se "guaçu" é grande, uma é a versão maior da outra — em nome, não em tamanho: Embu das Artes tem quase quatro vezes mais estabelecimentos.
Com Itapecerica da Serra: Embu se emancipou de Itapecerica, como Taboão, Embu-Guaçu, Juquitiba e São Lourenço. E as duas cidades compartilham o mesmo padre fundador — Belchior de Pontes atendia as duas aldeias.
Com Taboão da Serra: vizinhas coladas, ambas filhas de Itapecerica, e com perfis comerciais quase idênticos na contagem do acervo.
Com Carapicuíba: as duas guardam patrimônio jesuítico de primeira grandeza. Carapicuíba tem a aldeia mais preservada do país; Embu tem um dos primeiros tombamentos federais do estado.
O que ninguém explica
- Cobra grande, rio das cobras ou planta? Três versões, nenhuma vencedora, e ninguém rastreou qual apareceu primeiro.
- Quem foi o índio que salvou Belchior de Pontes? A lenda o descreve, mas não o nomeia. Uma cidade inteira pode dever o nome a alguém cujo nome se perdeu.
- Embu foi mesmo o primeiro tombamento paulista do IPHAN? Parte das fontes afirma; a ficha do bem não. E, se foi, por que Embu, havendo candidatos mais óbvios na capital?
O Embu que não sai no folheto
O turista chega no sábado, anda pelo largo, come um pastel de queijo com goiabada e volta.
Quem mora aqui sabe que a cidade tem outra vida — a que abre na segunda de manhã. A serralheria que faz o portão, a padaria que abre às cinco, o mecânico que conhece o barulho do seu carro, a clínica do bairro, o pet shop que atende de última hora.
É exatamente essa Embu que este guia organiza: o guia completo de Embu das Artes, bares e restaurantes, serviços e profissionais, mercados e alimentos, beleza e bem-estar e construção e reforma.
Sem cadastro, sem aplicativo para baixar, sem nota inventada.
O que fica
Uma cobra — ou um rio, ou uma planta, dependendo de quem você perguntar.
Um padre perdido no mato e um índio que o salvou e morreu sem que ninguém explicasse como.
Um casal que, em 1624, exigiu uma devoção antes de doar as próprias terras.
Um santeiro que ganhou Paris em 1937.
Um dos primeiros bens tombados pelo IPHAN em São Paulo, em outubro de 1938.
E um punhado de artesãos expulsos de uma praça da capital, que em 1969 vieram para cá e criaram, sem querer, a feira que hoje é patrimônio do estado.
Nenhuma cidade se planeja assim. Embu das Artes foi acontecendo — e é por isso que ela é diferente de tudo num raio de cinquenta quilômetros.
Da próxima vez que subir o largo num domingo de sol, olhe para a igreja no alto. Ela está ali porque um casal, em 1624, fez uma exigência. E é a primeira da lista do patrimônio brasileiro em São Paulo.
Deu certo.
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