Origem do nome · Osasco
Osasco tem nome de saudade — e foi palco do último levante operário antes do AI-5
Antonio Agù recusou eternizar o próprio sobrenome e batizou a cidade com o nome do vilarejo italiano que deixou aos 13 anos. Oitenta anos depois, uma greve começada na Cobrasma entrou para a história do Brasil.
A maior parte das cidades brasileiras tem nome de santo, de índio ou de político.
Osasco tem nome de saudade.
E existe uma cena, em 1895, que explica isso melhor do que qualquer aula de história — além de outra, em 1968, que explica por que esta cidade aparece nos livros de história do Brasil.
A oferta que ele recusou
Os dirigentes da Estrada de Ferro Sorocabana queriam batizar a nova estação com o nome do principal empreendedor da região: o homem que comprara a olaria do quilômetro 16 e transformara aquele pedaço de mato num lugar com gente, trabalho e movimento.
O nome dele era Antonio Giuseppe Agù.
Ele agradeceu e disse que não.
Pediu que a homenagem não fosse para ele, e sim para a cidade onde nascera, na região do Piemonte, na Itália.
Osasco.
Quem era Antonio Agù
Nasceu em 25 de outubro de 1845, no povoado italiano de Osasco.
Chegou ao Brasil em 1858. Tinha treze anos.
Trabalhou numa ferrovia. Trabalhou num engenho no interior paulista. Em 1872, mudou-se para a cidade de São Paulo atrás de negócio próprio.
E então comprou uma olaria no quilômetro 16 da Estrada de Ferro Sorocabana — exatamente onde hoje funciona a Estação Osasco.
De lá em diante, a região não parou mais de crescer. Comerciantes conhecidos e indústrias importantes foram se instalando em volta do forno de tijolo.
Pense na trajetória: um menino de treze anos desembarca sozinho num país que não é o dele, trabalha em ferrovia e em engenho, junta dinheiro, compra uma olaria — e o lugar em volta dessa olaria vira uma das maiores cidades do estado.
Por que a recusa é mais do que modéstia
É fácil ler aquela cena de 1895 como educação.
É mais que isso. Agù tinha 50 anos. Tinha saído de Osasco aos 13, e nunca mais morara lá.
Quando surgiu a chance de escrever algo permanente no mapa, ele não escreveu o próprio nome. Escreveu o nome de casa.
Existe uma cidade inteira no Brasil, com mais de 700 mil pessoas, chamada assim porque um imigrante sentia falta de um vilarejo do Piemonte que provavelmente nunca mais veria.
A emancipação foi uma briga de dez anos
Osasco levou uma década para conseguir se separar de São Paulo.
As primeiras manifestações pela emancipação começaram em 1952. O movimento enfrentou resistência, contraposições e empecilhos — e um plebiscito que os registros da época descrevem como conturbado.
Só em 19 de fevereiro de 1962 veio a emancipação político-administrativa.
Dez anos de campanha para uma cidade que hoje tem estrutura e PIB de sobra para se sustentar sozinha.
E o primeiro prefeito foi Hirant Sanazar, filho de imigrantes armênios.
Repare no conjunto: uma cidade batizada por um italiano, emancipada depois de dez anos de briga, e governada primeiro por um descendente de armênios. Osasco é, desde a certidão de nascimento, uma cidade feita por gente que veio de longe.
16 de julho de 1968: a sirene extra
Seis anos depois da emancipação, Osasco entrou na história do Brasil.
Desde 1959, a cidade havia se tornado um centro importante da indústria metalúrgica paulista, com fábricas como Cobrasma, Eternit, Osram, Cimaf e Braseixos.
Os trabalhadores sofriam o arrocho salarial imposto pelo regime militar — uma redução de cerca de 30% nos salários.
Na manhã de 16 de julho de 1968, às nove horas, a sirene extra da Cobrasma tocou. Não era o fim do turno. Era o sinal combinado para a ocupação da fábrica.
A Cobrasma tinha 3 mil trabalhadores. A greve começou ali e se espalhou rapidamente para outras fábricas da cidade.
Por que aquilo importou
A greve de Osasco e a de Contagem, em Minas Gerais, foram os dois momentos de ação operária no Brasil em 1968.
Aconteceram sob ditadura, quando greve era proibida. E foram o motor do renascimento do sindicalismo brasileiro.
A organização vinha de longe: entre 1962 e 1968, as duas instâncias que sustentaram o movimento foram a comissão de fábrica da Cobrasma e o sindicato dos metalúrgicos.
O desfecho foi duro. A greve durou três dias e terminou sem conquistas. Cerca de 400 trabalhadores foram presos e levados ao DOPS. Zequinha Barreto, um dos líderes, ficou preso e sofreu tortura por cerca de 98 dias.
Foi o último levante sindical antes do AI-5, decretado em dezembro daquele ano.
Depois de Osasco, o país entrou nos Anos de Chumbo.
Linha do tempo
- 1845 — Antonio Agù nasce em Osasco, no Piemonte
- 1858 — chega ao Brasil, aos 13 anos
- 1872 — muda-se para São Paulo
- 1895 — a estação do km 16 é batizada de Osasco, a pedido dele
- 1952 — começam as manifestações pela emancipação
- 1959 — a cidade consolida-se como polo metalúrgico
- 19/02/1962 — emancipação político-administrativa
- 16/07/1968 — a greve da Cobrasma
- dezembro/1968 — AI-5
Três Osascos numa cidade só
Existe a Osasco da olaria e da ferrovia — a que nasceu em volta de um forno de tijolo e de uma estação.
Existe a Osasco operária, das metalúrgicas, das comissões de fábrica e da greve de 68.
E existe a Osasco de hoje, que é sobretudo comércio e serviço. A transição da segunda para a terceira é a história econômica da cidade nos últimos cinquenta anos, e ela está visível nos dados.
O que o acervo do guia mostra sobre Osasco
Este guia mapeia 29.163 estabelecimentos em Osasco, dos quais 26.751 têm telefone, distribuídos por 372 bairros.
O perfil:
- Serviços e profissionais — 4.680
- Bares e restaurantes — 3.271
- Beleza e bem-estar — 2.776
- Outros — 2.635
Note o que não aparece no topo: indústria.
A cidade que parou por três dias em 1968 por causa de uma greve metalúrgica é hoje, na contagem do que existe, uma cidade de serviço e comércio de rua. As fábricas que deram nome à história de Osasco não são mais o que emprega a maioria.
É uma transformação de sessenta anos, e ela cabe numa tabela de quatro linhas.
Osasco comparada com a vizinhança
Osasco faz divisa com Carapicuíba e Barueri, e o trio conta uma história econômica interessante.
Barueri virou polo corporativo de alto valor. Osasco virou centro comercial e de serviços de uma região inteira. Carapicuíba virou, sobretudo, cidade-dormitório — resultado direto da construção maciça de moradia popular a partir do fim dos anos 60.
Três cidades vizinhas, três destinos econômicos completamente diferentes, tudo decidido em poucas décadas.
O que ninguém explica
- Agù voltou alguma vez à Osasco italiana? Não há registro claro. O homem que espalhou o nome do próprio vilarejo por um país inteiro pode nunca ter revisto o lugar.
- Por que o plebiscito de 1962 foi tão conturbado? As fontes registram o adjetivo, mas raramente o detalhe.
- Onde estão os arquivos da comissão de fábrica da Cobrasma? Seis anos de organização operária clandestina, documentados por quem?
Uma cidade densa demais para conhecer inteira
Osasco tem mais de 700 mil habitantes num território pequeno. É densa, movimentada, coberta de comércio de rua.
O efeito prático é conhecido de quem mora aqui: você conhece o seu bairro e mais nada. Precisa de um serviço específico e não faz ideia de onde procurar fora do seu quadrado.
Este guia existe para isso. São os 29 mil estabelecimentos da cidade organizados por categoria, por bairro e por distância de onde você está.
Dá para ver o guia completo de Osasco, procurar serviços e profissionais — a maior categoria da cidade —, achar saúde perto de casa, olhar oficinas e serviços para veículos, moda e vestuário ou construção e reforma.
Endereço, telefone e mapa. Sem cadastro, sem nota inventada.
O que fica
Em 1895, no quilômetro 16 de uma ferrovia, um homem de 50 anos recusou a chance de ser eterno e preferiu escrever no mapa do Brasil o nome de um lugar do outro lado do oceano.
Setenta e três anos depois, às nove da manhã de um dia de julho, uma sirene tocou fora de hora na mesma cidade — e três mil pessoas pararam de trabalhar ao mesmo tempo, sob uma ditadura, sabendo o que arriscavam.
Toda vez que alguém diz "eu sou de Osasco", está repetindo, sem saber, a saudade de Antonio Agù.
E está pisando no chão onde o movimento operário brasileiro se recusou a ficar quieto pela última vez antes de o país fechar de vez.
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