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O que só existe aqui · Suzano

Suzano já foi a maior produtora de morango do Brasil — e o acervo ainda mostra a marca disso

A cidade teve Festa do Morango e Festa das Flores desde os anos 1950. Hoje é a única das vinte cidades do guia em que "mercados e alimentos" aparece em segundo lugar. Cem anos de agricultura ainda dão para medir.

· 7 min de leitura

Vista de Suzano

Quem passa por Suzano hoje vê galpão logístico, indústria e um centro urbano movimentado.

É difícil imaginar que esta cidade já foi, no país inteiro, a número um em morango.

Mas foi. E a marca daquilo ainda pode ser medida — não em memória de morador, mas em contagem de portas abertas.

O título

Suzano chegou a ser a maior produtora de morangos do Brasil.

O trabalho agrícola teve papel fundamental no crescimento econômico local, com destaque para o cultivo de hortaliças e morangos.

E a cidade celebrava isso publicamente: teve Festa do Morango e Festa das Flores, com registros de participação desde a década de 1950.

Setenta e cinco anos atrás, o calendário oficial de Suzano girava em torno de uma fruta e de flores.

O que se plantava aqui

A lista de produtos do distrito, quando já contava com os primeiros imigrantes japoneses, é longa e revela uma agricultura diversificada — não monocultura:

milho, feijão, cana, mandioca, batata, tomate, rabanete, repolho, alface, couve, chicória e escarola.

Repare na composição. Rabanete, chicória, escarola: são hortaliças de ciclo curto, alto valor e mercado urbano. Não é lavoura de exportação — é comida para vender na cidade grande ao lado.

Essa é a assinatura do Cinturão Verde: produzir o que São Paulo come, perto o suficiente para chegar fresco.

Quem trouxe isso

As cidades do Alto Tietê receberam forte influência nipônica a partir do século XX, e é por causa dela que a região ficou conhecida como Cinturão Verde.

Os primeiros japoneses a se instalarem em Suzano foram Kisaku Haguihara e Noriyuki Oshima, e dedicaram-se à agricultura.

Hoje a cidade tem cerca de 16 mil descendentes de japoneses — e já teve quatro prefeitos nipo-descendentes, um número que fala de integração real e não de folclore de festival.

A história de como a cidade ganhou o nome de um engenheiro de ferrovia está no artigo sobre a origem do nome de Suzano.

O que o Cinturão Verde entrega hoje

O Alto Tietê integra o Cinturão Verde do estado de São Paulo, responsável pelo abastecimento da capital e de várias outras regiões do Brasil.

A região lidera a produção nacional de frutas — com destaque para caqui e nêspera — além de cogumelos e flores, especialmente orquídeas.

Boa parte dessas lideranças hoje está com Mogi das Cruzes, a vizinha, que produz 80% das orquídeas do país e entre 40% e 50% do caqui. É o assunto do artigo sobre as orquídeas de Mogi.

Suzano ficou com outra parte da cadeia — e é aí que o dado do acervo entra.

O número que prova que a agricultura não sumiu

Este guia mapeia 11.679 estabelecimentos em Suzano, dos quais 10.989 têm telefone, distribuídos por 360 bairros.

E o perfil das categorias tem uma singularidade absoluta:

  • Serviços e profissionais — 1.688
  • Mercados e alimentos — 1.155
  • Bares e restaurantes — 1.148
  • Beleza e bem-estar — 957

Suzano é a única das vinte cidades do guia em que "Mercados e alimentos" aparece em segundo lugar.

Em todas as outras dezenove, o segundo posto é de bares e restaurantes ou de beleza. Aqui não.

E a diferença para o terceiro é apertada — sete estabelecimentos — mas a posição é dela.

Por que isso importa

Vender comida e servir comida são negócios diferentes.

"Bares e restaurantes" é consumo no local: lanchonete, pizzaria, bar. "Mercados e alimentos" é o outro lado: quitanda, hortifrúti, mercearia, empório, distribuidora, açougue, sacolão.

Uma cidade que produz comida também comercializa comida numa proporção diferente do resto da região. O produtor precisa de quem compre no atacado; o morador se acostuma a comprar do hortifrúti da esquina em vez do supermercado grande.

Cem anos de agricultura nipo-brasileira deixaram uma marca que ainda dá para medir, estabelecimento por estabelecimento, em 2026.

Não é nostalgia. É contagem.

Quem quiser ver essa cidade pode acessar o guia completo de Suzano, mercados e alimentos — a categoria que define o município —, pet e agropecuária, onde o produtor compra insumo, indústria e produção e serviços e profissionais.

A empresa que leva o nome da cidade

Existe uma coincidência que confunde muita gente e vale esclarecer aqui.

A Suzano S.A. — hoje a maior empresa de papel e celulose da América Latina e uma das maiores produtoras do setor no mundo — foi fundada em 1924 por Leon Feffer, um imigrante ucraniano.

Ele começou vendendo papel e, anos depois, vendeu a casa, o caminhão e as joias da esposa para montar a própria fábrica.

A empresa carrega o nome da cidade e tem história ligada a ela, mas são entidades distintas: o município já se chamava Suzano desde 1908, dezesseis anos antes de a companhia existir.

De todo modo, é um fato pouco conhecido — o nome de uma antiga parada de embarque de lenha no Alto Tietê acabou impresso em produtos vendidos no mundo inteiro.

Duas histórias de imigrante, no mesmo município: uma que veio do Japão plantar morango, outra que veio da Ucrânia vender papel.

Linha do tempo

  • 1873 — começa a ligação ferroviária Rio–São Paulo
  • 06/11/1875 — inaugurado o trecho São Paulo–Mogi das Cruzes
  • 22/12/1907 — a estação é rebatizada de Suzano
  • 11/12/1908 — a vila passa a se chamar Suzano
  • século XX — chegam Kisaku Haguihara e Noriyuki Oshima; consolida-se o Cinturão Verde
  • década de 1950 — Festa do Morango e Festa das Flores no calendário da cidade
  • hoje — 16 mil descendentes de japoneses; única cidade do guia com mercados em 2º lugar

A transição que ainda está acontecendo

Suzano vive hoje a transição típica do Alto Tietê: parte da área rural virou urbana, parte virou indústria, e o que restou de sítio produtivo convive com galpão e condomínio.

São 360 bairros — muitos deles longe do centro, alguns ainda rurais.

Essa é a tensão real da cidade, e ela não tem solução simples: o mesmo terreno que produz hortaliça vale mais como galpão logístico, porque está a poucos quilômetros de uma rodovia e de uma metrópole de 12 milhões de pessoas.

Comparando com as vizinhas

Com Mogi das Cruzes: as duas são o núcleo do Cinturão Verde. Mogi lidera em caqui, orquídea e nêspera; Suzano liderou em morango. Mesma imigração, produtos diferentes, destinos diferentes.

Com Itaquaquecetuba: vizinhas, cortadas pela mesma ferrovia, com trajetórias opostas. Itaquá foi inteira para a indústria — tem cerca de 760 fábricas; Suzano manteve um pé na produção agrícola.

Com Ibiúna: as duas produzem hortaliça para a metrópole, em pontas opostas da região. Ibiúna responde por 25% da alface do estado.

Com Miracatu: as duas devem sua economia à agricultura japonesa. Mas a colonização do Vale do Ribeira, de 1913, é anterior.

O que ninguém explica

  • Quando Suzano perdeu a liderança nacional do morango? O título é sempre citado no passado, e nunca com data de fim.
  • A Festa do Morango ainda existe? Registros dos anos 1950 são fáceis de achar; o encerramento, não.
  • Quanto de área rural produtiva restou? A transição para galpão é visível, mas não há número público consolidado.

O que fica

Uma parada de trem construída para embarcar lenha virou vila, e a vila ganhou o nome do engenheiro que terminou a estação.

Depois vieram duas correntes de gente de muito longe — do arquipélago japonês e do sertão nordestino — e transformaram aquele chão em roça de hortaliça e morango, a ponto de a cidade liderar o Brasil na fruta e ter uma festa anual em homenagem a ela.

Hoje o morango não é mais o assunto. Mas em Suzano ainda se vende comida antes de se servir comida — e é a única cidade da região onde isso acontece.

A agricultura saiu do calendário e ficou na contagem.

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