O que só existe aqui · Suzano
Suzano já foi a maior produtora de morango do Brasil — e o acervo ainda mostra a marca disso
A cidade teve Festa do Morango e Festa das Flores desde os anos 1950. Hoje é a única das vinte cidades do guia em que "mercados e alimentos" aparece em segundo lugar. Cem anos de agricultura ainda dão para medir.
Quem passa por Suzano hoje vê galpão logístico, indústria e um centro urbano movimentado.
É difícil imaginar que esta cidade já foi, no país inteiro, a número um em morango.
Mas foi. E a marca daquilo ainda pode ser medida — não em memória de morador, mas em contagem de portas abertas.
O título
Suzano chegou a ser a maior produtora de morangos do Brasil.
O trabalho agrícola teve papel fundamental no crescimento econômico local, com destaque para o cultivo de hortaliças e morangos.
E a cidade celebrava isso publicamente: teve Festa do Morango e Festa das Flores, com registros de participação desde a década de 1950.
Setenta e cinco anos atrás, o calendário oficial de Suzano girava em torno de uma fruta e de flores.
O que se plantava aqui
A lista de produtos do distrito, quando já contava com os primeiros imigrantes japoneses, é longa e revela uma agricultura diversificada — não monocultura:
milho, feijão, cana, mandioca, batata, tomate, rabanete, repolho, alface, couve, chicória e escarola.
Repare na composição. Rabanete, chicória, escarola: são hortaliças de ciclo curto, alto valor e mercado urbano. Não é lavoura de exportação — é comida para vender na cidade grande ao lado.
Essa é a assinatura do Cinturão Verde: produzir o que São Paulo come, perto o suficiente para chegar fresco.
Quem trouxe isso
As cidades do Alto Tietê receberam forte influência nipônica a partir do século XX, e é por causa dela que a região ficou conhecida como Cinturão Verde.
Os primeiros japoneses a se instalarem em Suzano foram Kisaku Haguihara e Noriyuki Oshima, e dedicaram-se à agricultura.
Hoje a cidade tem cerca de 16 mil descendentes de japoneses — e já teve quatro prefeitos nipo-descendentes, um número que fala de integração real e não de folclore de festival.
A história de como a cidade ganhou o nome de um engenheiro de ferrovia está no artigo sobre a origem do nome de Suzano.
O que o Cinturão Verde entrega hoje
O Alto Tietê integra o Cinturão Verde do estado de São Paulo, responsável pelo abastecimento da capital e de várias outras regiões do Brasil.
A região lidera a produção nacional de frutas — com destaque para caqui e nêspera — além de cogumelos e flores, especialmente orquídeas.
Boa parte dessas lideranças hoje está com Mogi das Cruzes, a vizinha, que produz 80% das orquídeas do país e entre 40% e 50% do caqui. É o assunto do artigo sobre as orquídeas de Mogi.
Suzano ficou com outra parte da cadeia — e é aí que o dado do acervo entra.
O número que prova que a agricultura não sumiu
Este guia mapeia 11.679 estabelecimentos em Suzano, dos quais 10.989 têm telefone, distribuídos por 360 bairros.
E o perfil das categorias tem uma singularidade absoluta:
- Serviços e profissionais — 1.688
- Mercados e alimentos — 1.155
- Bares e restaurantes — 1.148
- Beleza e bem-estar — 957
Suzano é a única das vinte cidades do guia em que "Mercados e alimentos" aparece em segundo lugar.
Em todas as outras dezenove, o segundo posto é de bares e restaurantes ou de beleza. Aqui não.
E a diferença para o terceiro é apertada — sete estabelecimentos — mas a posição é dela.
Por que isso importa
Vender comida e servir comida são negócios diferentes.
"Bares e restaurantes" é consumo no local: lanchonete, pizzaria, bar. "Mercados e alimentos" é o outro lado: quitanda, hortifrúti, mercearia, empório, distribuidora, açougue, sacolão.
Uma cidade que produz comida também comercializa comida numa proporção diferente do resto da região. O produtor precisa de quem compre no atacado; o morador se acostuma a comprar do hortifrúti da esquina em vez do supermercado grande.
Cem anos de agricultura nipo-brasileira deixaram uma marca que ainda dá para medir, estabelecimento por estabelecimento, em 2026.
Não é nostalgia. É contagem.
Quem quiser ver essa cidade pode acessar o guia completo de Suzano, mercados e alimentos — a categoria que define o município —, pet e agropecuária, onde o produtor compra insumo, indústria e produção e serviços e profissionais.
A empresa que leva o nome da cidade
Existe uma coincidência que confunde muita gente e vale esclarecer aqui.
A Suzano S.A. — hoje a maior empresa de papel e celulose da América Latina e uma das maiores produtoras do setor no mundo — foi fundada em 1924 por Leon Feffer, um imigrante ucraniano.
Ele começou vendendo papel e, anos depois, vendeu a casa, o caminhão e as joias da esposa para montar a própria fábrica.
A empresa carrega o nome da cidade e tem história ligada a ela, mas são entidades distintas: o município já se chamava Suzano desde 1908, dezesseis anos antes de a companhia existir.
De todo modo, é um fato pouco conhecido — o nome de uma antiga parada de embarque de lenha no Alto Tietê acabou impresso em produtos vendidos no mundo inteiro.
Duas histórias de imigrante, no mesmo município: uma que veio do Japão plantar morango, outra que veio da Ucrânia vender papel.
Linha do tempo
- 1873 — começa a ligação ferroviária Rio–São Paulo
- 06/11/1875 — inaugurado o trecho São Paulo–Mogi das Cruzes
- 22/12/1907 — a estação é rebatizada de Suzano
- 11/12/1908 — a vila passa a se chamar Suzano
- século XX — chegam Kisaku Haguihara e Noriyuki Oshima; consolida-se o Cinturão Verde
- década de 1950 — Festa do Morango e Festa das Flores no calendário da cidade
- hoje — 16 mil descendentes de japoneses; única cidade do guia com mercados em 2º lugar
A transição que ainda está acontecendo
Suzano vive hoje a transição típica do Alto Tietê: parte da área rural virou urbana, parte virou indústria, e o que restou de sítio produtivo convive com galpão e condomínio.
São 360 bairros — muitos deles longe do centro, alguns ainda rurais.
Essa é a tensão real da cidade, e ela não tem solução simples: o mesmo terreno que produz hortaliça vale mais como galpão logístico, porque está a poucos quilômetros de uma rodovia e de uma metrópole de 12 milhões de pessoas.
Comparando com as vizinhas
Com Mogi das Cruzes: as duas são o núcleo do Cinturão Verde. Mogi lidera em caqui, orquídea e nêspera; Suzano liderou em morango. Mesma imigração, produtos diferentes, destinos diferentes.
Com Itaquaquecetuba: vizinhas, cortadas pela mesma ferrovia, com trajetórias opostas. Itaquá foi inteira para a indústria — tem cerca de 760 fábricas; Suzano manteve um pé na produção agrícola.
Com Ibiúna: as duas produzem hortaliça para a metrópole, em pontas opostas da região. Ibiúna responde por 25% da alface do estado.
Com Miracatu: as duas devem sua economia à agricultura japonesa. Mas a colonização do Vale do Ribeira, de 1913, é anterior.
O que ninguém explica
- Quando Suzano perdeu a liderança nacional do morango? O título é sempre citado no passado, e nunca com data de fim.
- A Festa do Morango ainda existe? Registros dos anos 1950 são fáceis de achar; o encerramento, não.
- Quanto de área rural produtiva restou? A transição para galpão é visível, mas não há número público consolidado.
O que fica
Uma parada de trem construída para embarcar lenha virou vila, e a vila ganhou o nome do engenheiro que terminou a estação.
Depois vieram duas correntes de gente de muito longe — do arquipélago japonês e do sertão nordestino — e transformaram aquele chão em roça de hortaliça e morango, a ponto de a cidade liderar o Brasil na fruta e ter uma festa anual em homenagem a ela.
Hoje o morango não é mais o assunto. Mas em Suzano ainda se vende comida antes de se servir comida — e é a única cidade da região onde isso acontece.
A agricultura saiu do calendário e ficou na contagem.
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