Como era antes · Suzano
Um mascate ucraniano comprou uma fábrica em Suzano em 1955 — e no ano seguinte deu o nome da cidade à empresa
Leon Feffer chegou ao Brasil em 1921 vendendo miudezas na rua. Em 1955 adquiriu a Indústria de Papel Euclides Damiani, em Suzano, para testar celulose de eucalipto. Em 1956 a razão social virou Companhia Suzano de Papel e Celulose.
O nome desta cidade fez uma viagem improvável.
Começou como sobrenome de um engenheiro ferroviário — Joaquim Augusto Suzano Brandão. Virou nome de estação em 1907. Virou nome de vila em 1908. Virou nome de cidade.
E em 1956 virou o nome de uma empresa que hoje é a maior produtora de celulose do planeta.
Tudo isso porque um imigrante ucraniano comprou, em 1955, uma fábrica de papel que existia ali.
O mascate
Leon Feffer chegou ao Brasil em 1921, vindo da Ucrânia.
Começou a vida em São Paulo como mascate — vendendo miudezas de porta em porta, pelas ruas.
Em 1924, registrou na Junta Comercial de São Paulo uma empresa voltada à comercialização de papel. É essa a data que a companhia considera sua fundação.
Repare no que ele estava fazendo: não fabricava nada. Comprava e revendia papel — o degrau seguinte do mascate, que é deixar de carregar a mercadoria nas costas e passar a movimentá-la.
Em 1929, o negócio subiu mais um degrau: passou a fabricar sacos de papel, sob o nome Leon Feffer e Cia. Ltda., com fábrica no bairro do Ipiranga, em São Paulo.
E em 1941 entrou em operação a primeira máquina de papel da empresa.
Vinte anos entre vender miudezas na rua e operar uma máquina de papel própria.
A aposta no eucalipto
Aqui está a decisão técnica que mudou tudo — e que explica por que a empresa acabou em Suzano.
Papel se faz de celulose, e a celulose do mundo inteiro vinha, naquela época, do pinho. Árvore de clima frio, crescimento lento, fibra longa.
O Brasil não tem clima de pinho na maior parte do território. Importar celulose era caro, e depender de importação numa guerra mundial era pior ainda.
Em 1939, Feffer decidiu construir uma fábrica e investir no desenvolvimento de alternativas à celulose de pinho — o que levou à celulose de eucalipto.
Oito anos depois, sob a liderança de Max Feffer, filho de Leon, começaram as pesquisas para fabricar papel de eucalipto no Brasil.
Era uma aposta de longo prazo e de resultado incerto. Eucalipto tem fibra curta, e a indústria mundial dizia que fibra curta não dava papel bom.
Deu. E hoje a celulose de eucalipto brasileira é referência mundial — justamente porque alguém decidiu, em 1939, que valia a pena tentar com a árvore que crescia aqui.
1955: a fábrica em Suzano
E então vem o momento que dá título ao artigo.
Em 1955, foi adquirida a Indústria de Papel Euclides Damiani, em Suzano, onde seria implantada uma unidade-piloto de produção de celulose de eucalipto.
Leia com atenção: unidade-piloto. Suzano não recebeu a fábrica principal. Recebeu o laboratório industrial — o lugar onde a aposta do eucalipto seria testada em escala real.
E funcionou. Em 1956, a empresa mudou a razão social para Companhia Suzano de Papel e Celulose.
Ou seja: a empresa adotou o nome da cidade onde deu certo.
Não foi homenagem, não foi marketing. Foi identificação: aquela unidade era a Suzano, e a Suzano virou a empresa.
A cadeia de nomes
Vale montar a corrente inteira, porque ela é rara.
Joaquim Augusto Suzano Brandão era engenheiro da Estrada de Ferro Central do Brasil, residente em Mogi das Cruzes. Uma comunidade que vivia da venda de carvão, lenha e madeira pediu a ele uma estação de alvenaria, no lugar da precária Parada Piedade.
Ele fez os estudos e autorizou a obra. Em 22 de dezembro de 1907, em ato público, a estação recebeu o nome dele. Em 11 de dezembro de 1908, a vila também passou a se chamar Suzano.
Contamos isso no artigo sobre a Vila Amorim e no artigo sobre a origem do nome.
Agora some o resto:
Sobrenome de engenheiro → nome de estação → nome de vila → nome de cidade → nome de empresa → uma das maiores produtoras de celulose do mundo.
E há uma ironia bonita nisso. A comunidade que pediu a estação vivia de vender lenha e madeira. Meio século depois, a cidade que ganhou o nome do engenheiro emprestou esse nome a uma empresa que vive de plantar árvore para fazer papel.
A mesma matéria-prima, do começo ao fim.
O que Suzano virou
Este guia mapeia 14.980 estabelecimentos em Suzano.
O perfil:
- Serviços e profissionais — 2.654
- Mercados e alimentos — 1.744
- Bares e restaurantes — 1.380
- Construção e reforma — 1.297
- Saúde — 1.147
- Oficinas e serviços para veículos — 1.089
E 385 estabelecimentos de indústria e atacado, ou 2,6% do total.
Aqui vale uma observação honesta, e ela é contraintuitiva.
Suzano é a cidade que deu nome a uma das maiores empresas industriais do país — e tem uma proporção industrial abaixo da de Itaquaquecetuba (5,5%), Diadema (6,8%) e Mauá (3,9%).
O motivo é simples e vale explicitar: indústria de celulose é intensiva em capital, não em número de estabelecimentos. Uma unidade gigantesca conta como um endereço. Já um parque de autopeças, como o de Diadema, conta como centenas.
Contar portas abertas mede uma coisa; medir capital instalado mede outra. Este guia conta portas — e é bom que quem lê saiba disso.
O que os números de Suzano mostram, sim, é mercados em segundo lugar com 1.744, a assinatura clássica de cidade onde se mora, e saúde em quinto com 1.147, típico de cidade-polo que atende a vizinhança.
Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Suzano, indústria e atacado, mercados e alimentos, saúde e construção e reforma.
Linha do tempo
- 1921 — Leon Feffer chega ao Brasil, vindo da Ucrânia, e começa como mascate em São Paulo
- 1924 — registra na Junta Comercial de São Paulo uma empresa de comercialização de papel
- 1929 — passa a fabricar sacos de papel, como Leon Feffer e Cia. Ltda., no Ipiranga
- 1939 — decide construir fábrica e investir em alternativas à celulose de pinho
- 1941 — entra em operação a primeira máquina de papel
- anos seguintes — sob Max Feffer, começam as pesquisas com eucalipto
- 1955 — aquisição da Indústria de Papel Euclides Damiani, em Suzano, para a unidade-piloto de celulose de eucalipto
- 1956 — a razão social passa a Companhia Suzano de Papel e Celulose
Comparando com os vizinhos
Com Mogi das Cruzes: Suzano saiu de Mogi. Mogi trocou de lavoura quatro vezes e nunca industrializou; Suzano recebeu uma unidade-piloto que virou empresa global.
Com Mauá: as duas trocaram de matéria-prima no mesmo período. Mauá saiu do barro branco para o petróleo em 1954; Suzano recebeu a celulose de eucalipto em 1955.
Com Itaquaquecetuba: vizinhas, com histórias industriais opostas. Itaquá tem 5,5% de indústria em número de estabelecimentos; Suzano tem 2,6% — e uma empresa que vale mais que tudo o que há em Itaquá.
O que ninguém explica
- Quem foi Euclides Damiani? A fábrica que ele montou em Suzano virou a semente de uma empresa global, e não há registro sobre ele.
- Por que Suzano, e não outro município? A escolha do local da unidade-piloto não aparece justificada em fonte acessível.
- Como era a fábrica quando foi comprada? Nenhuma descrição do que existia ali em 1955.
O que fica
Em 1921, um rapaz saiu da Ucrânia e desembarcou no Brasil sem nada. Começou vendendo miudezas nas ruas de São Paulo.
Em 1924 registrou uma firma para comprar e revender papel. Em 1929 começou a fabricar sacos. Em 1941 ligou a primeira máquina.
Em 1939, contra o consenso da indústria mundial, decidiu apostar que dava para fazer celulose da árvore que crescia rápido no Brasil, e não da que crescia devagar no hemisfério norte.
Em 1955, para testar isso em escala real, comprou uma fábrica de papel numa cidade do Alto Tietê que levava o sobrenome de um engenheiro ferroviário.
No ano seguinte, colocou o nome daquela cidade na razão social da empresa.
Hoje, quem lê "Suzano" numa embalagem, num relatório de bolsa ou num noticiário sobre celulose está lendo, sem saber, o sobrenome de um engenheiro que aceitou construir uma estação de alvenaria para um povoado que vivia de vender lenha.
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