O que só existe aqui · São Bernardo do Campo
O filme que São Bernardo mandou para Cannes — e a conta que quebrou o estúdio um ano depois
"O Cangaceiro" foi o primeiro filme brasileiro premiado em Cannes, bateu recorde de bilheteria e não salvou quem o produziu. A Vera Cruz faliu por um motivo que não estava no roteiro.
Em 1953, um filme rodado em São Bernardo do Campo subiu ao palco do Festival de Cannes e voltou com dois prêmios.
Foi o primeiro filme brasileiro premiado em Cannes.
Bateu recorde de bilheteria no país. Estreou em 24 cinemas ao mesmo tempo. Levou 800 mil pessoas às salas.
E, um ano depois, o estúdio que o produziu estava falido.
A história de como isso aconteceu é a melhor lição de economia do cinema brasileiro — e aconteceu num galpão do ABC.
Um engenheiro italiano com sonho de Hollywood
A Companhia Cinematográfica Vera Cruz foi criada pelo engenheiro italiano Franco Zampari, em 1949.
A ambição era explícita: montar em São Bernardo do Campo o maior parque cinematográfico da América do Sul.
E montou. Eram dois galpões enormes, com equipamento importado e técnicos estrangeiros contratados para ensinar o ofício.
O raciocínio da época tinha lógica industrial: se dá para montar automóvel no ABC, dá para montar filme. A cidade estava recebendo Volkswagen, Ford e Mercedes. Por que não um estúdio?
O parque funcionou por quatro anos e produziu 18 longas-metragens.
1953: O Cangaceiro
O filme que mudou tudo foi "O Cangaceiro", dirigido por Lima Barreto, inspirado na vida de Lampião.
Os números da estreia são impressionantes até hoje:
- estreou em 24 cinemas simultaneamente
- registrou 800 mil espectadores
- foi recorde de bilheteria no Brasil até aquele momento
E então veio Cannes.
O filme ganhou o prêmio de Melhor Filme de Aventura e o de Melhor Trilha Sonora.
Foi a primeira vez que um filme brasileiro foi premiado no festival. Antes de Glauber Rocha, antes do Cinema Novo, antes de tudo que se costuma contar sobre cinema brasileiro no exterior — houve um filme feito num galpão de São Bernardo.
O diretor que o estúdio não queria
Há um detalhe que torna o triunfo de 1953 ainda mais improvável: o estúdio relutou em fazer o filme.
Lima Barreto rodou "O Cangaceiro" em 1952, depois de resistência da própria Vera Cruz.
O maior sucesso da companhia — o único que chegou a Cannes, o que bateu recorde de bilheteria, o que abriu o mercado internacional — foi um projeto que a direção não queria bancar.
Quem era Lima Barreto
Ele foi um dos maiores cineastas brasileiros do século XX, e chegou lá como autodidata.
Começou a carreira nos anos 1940, fazendo curtas-metragens variados. Entrou na Vera Cruz a convite do diretor Alberto Cavalcanti — o brasileiro que fizera carreira no cinema britânico e voltara para comandar artisticamente o estúdio.
Na companhia, Lima Barreto dirigiu "Painel", o primeiro curta-documentário nacional sobre artes plásticas, que também foi premiado.
E atuou como ator em filmes da casa, entre eles "Tico-Tico no Fubá".
Ou seja: um sujeito sem formação formal, que aprendeu fazendo curta, foi convidado por um cineasta de projeção internacional, dirigiu o documentário de arte pioneiro do país e depois convenceu — a contragosto — um estúdio a deixá-lo filmar cangaceiro.
O gênero que ele inventou
"O Cangaceiro" é classificado como um faroeste de aventura brasileiro.
E é reconhecido como o filme que fundou o que se convencionou chamar de "nordestern" — o western sertanejo, com o cangaço no lugar do velho oeste americano.
Um gênero inteiro do cinema brasileiro nasceu naquele galpão de São Bernardo, e continuaria rendendo filmes por décadas depois de o estúdio ter fechado.
E aí a conta não fechou
Aqui está a parte que quase ninguém conta, e que explica o desfecho.
A distribuidora norte-americana Columbia Pictures adquiriu os direitos do filme.
E é aí que a história vira: o dinheiro da bilheteria internacional não voltava para a companhia.
Some-se a isso o método de produção. A Vera Cruz não poupava despesas com seus filmes — equipamento de primeira, elenco caro, tempo de estúdio longo, padrão técnico de Hollywood.
Gastar como Hollywood e receber como fornecedor de uma distribuidora estrangeira é uma equação que não fecha em nenhum lugar do mundo.
O resultado foi dívida irreversível, declaração de falência e o encerramento das atividades como produtora — em 1954, um ano depois do triunfo em Cannes.
O maior sucesso da companhia foi também o que a matou. Não por fracasso: por contrato.
O que aconteceu com os galpões
O prédio não sumiu. Em 1954 mudou de mãos e recebeu outras funções.
E teve um segundo ato que nenhum roteirista teria escrito.
Durante a ditadura militar, aqueles mesmos galpões sediaram dois acontecimentos decisivos:
- "O show em maio", em 1979
- O congresso de fundação da CUT, em 1983
Os dois estão inseridos no contexto das greves que sacudiram o ABC a partir de 1978 — as mesmas que levaram 150 mil pessoas ao Estádio de Vila Euclides no 1º de maio de 1980.
O espaço construído para o cinema industrial brasileiro virou espaço de organização operária.
Linha do tempo
- 1949 — Franco Zampari funda a Vera Cruz e instala o maior parque cinematográfico da América do Sul em São Bernardo
- 1949–1953 — quatro anos de operação, 18 longas produzidos
- 1953 — estreia de "O Cangaceiro", de Lima Barreto: 24 cinemas, 800 mil espectadores
- 1953 — Cannes: Melhor Filme de Aventura e Melhor Trilha Sonora, o primeiro prêmio brasileiro no festival
- 1954 — falência; o estúdio muda de mãos
- 1979 — "O show em maio" nos galpões
- 1983 — congresso de fundação da CUT no mesmo local
Repare: da inauguração à falência foram cinco anos. Todo o episódio Vera Cruz cabe num mandato presidencial.
Por que isso importa para quem mora aqui
São Bernardo é conhecida como capital do automóvel. É verdade, e está contado no artigo sobre a história da cidade.
Mas a cidade também foi, por cinco anos, a capital do cinema brasileiro. E foi capital do móvel antes das duas coisas.
Três indústrias completamente diferentes, no mesmo território, em menos de um século. Poucas cidades no mundo têm currículo assim.
O que o acervo do guia mostra
Este guia mapeia 34.135 estabelecimentos em São Bernardo do Campo, dos quais 31.637 têm telefone, distribuídos por 543 bairros — o segundo maior número de bairros das vinte cidades.
E hoje o topo é de serviços e profissionais, com 6.082 estabelecimentos. Nem indústria, nem cinema.
É o retrato de uma cidade que trocou de vocação três vezes e, no fim, virou o que quase toda cidade grande brasileira vira: uma economia de serviço e atendimento.
Quem quiser encontrar essa cidade concreta pode ver o guia completo de São Bernardo do Campo, casa e utilidades — herança direta da era do móvel —, oficinas e serviços para veículos, indústria e produção e serviços e profissionais.
Comparando com as vizinhas
Com Santo André: as duas disputam a herança da vila de 1553. Santo André guarda o mistério da vila perdida; São Bernardo guarda as atas dela.
Com Diadema e Mauá: as três formam, com São Bernardo, o núcleo das greves de 1979.
O que ninguém explica
- Por que a Vera Cruz aceitou aquele contrato com a Columbia? Era o único caminho para o mercado externo, ou houve alternativa recusada?
- Onde estão as 18 películas? Parte se preservou, parte não. O inventário completo nunca foi publicado.
- O que restou fisicamente dos galpões? O endereço é conhecido; o que sobrou da estrutura original, muito menos.
O que fica
Um engenheiro italiano olhou para uma cidade de fábrica de carro e decidiu que ali cabia um estúdio de cinema.
Por cinco anos, coube. Dezoito filmes saíram daqueles galpões, e um deles foi a Cannes e voltou premiado, num tempo em que ninguém esperava isso de um filme brasileiro.
O sucesso não bastou, porque o dinheiro ia para outro lugar.
E trinta anos depois, no mesmo galpão onde se filmava cangaceiro, nascia a maior central sindical do país.
Se alguém escrevesse esse roteiro, seria rejeitado por inverossímil.
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