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O que só existe aqui · São Bernardo do Campo

O filme que São Bernardo mandou para Cannes — e a conta que quebrou o estúdio um ano depois

"O Cangaceiro" foi o primeiro filme brasileiro premiado em Cannes, bateu recorde de bilheteria e não salvou quem o produziu. A Vera Cruz faliu por um motivo que não estava no roteiro.

· 7 min de leitura

Vista de São Bernardo do Campo

Em 1953, um filme rodado em São Bernardo do Campo subiu ao palco do Festival de Cannes e voltou com dois prêmios.

Foi o primeiro filme brasileiro premiado em Cannes.

Bateu recorde de bilheteria no país. Estreou em 24 cinemas ao mesmo tempo. Levou 800 mil pessoas às salas.

E, um ano depois, o estúdio que o produziu estava falido.

A história de como isso aconteceu é a melhor lição de economia do cinema brasileiro — e aconteceu num galpão do ABC.

Um engenheiro italiano com sonho de Hollywood

A Companhia Cinematográfica Vera Cruz foi criada pelo engenheiro italiano Franco Zampari, em 1949.

A ambição era explícita: montar em São Bernardo do Campo o maior parque cinematográfico da América do Sul.

E montou. Eram dois galpões enormes, com equipamento importado e técnicos estrangeiros contratados para ensinar o ofício.

O raciocínio da época tinha lógica industrial: se dá para montar automóvel no ABC, dá para montar filme. A cidade estava recebendo Volkswagen, Ford e Mercedes. Por que não um estúdio?

O parque funcionou por quatro anos e produziu 18 longas-metragens.

1953: O Cangaceiro

O filme que mudou tudo foi "O Cangaceiro", dirigido por Lima Barreto, inspirado na vida de Lampião.

Os números da estreia são impressionantes até hoje:

  • estreou em 24 cinemas simultaneamente
  • registrou 800 mil espectadores
  • foi recorde de bilheteria no Brasil até aquele momento

E então veio Cannes.

O filme ganhou o prêmio de Melhor Filme de Aventura e o de Melhor Trilha Sonora.

Foi a primeira vez que um filme brasileiro foi premiado no festival. Antes de Glauber Rocha, antes do Cinema Novo, antes de tudo que se costuma contar sobre cinema brasileiro no exterior — houve um filme feito num galpão de São Bernardo.

O diretor que o estúdio não queria

Há um detalhe que torna o triunfo de 1953 ainda mais improvável: o estúdio relutou em fazer o filme.

Lima Barreto rodou "O Cangaceiro" em 1952, depois de resistência da própria Vera Cruz.

O maior sucesso da companhia — o único que chegou a Cannes, o que bateu recorde de bilheteria, o que abriu o mercado internacional — foi um projeto que a direção não queria bancar.

Quem era Lima Barreto

Ele foi um dos maiores cineastas brasileiros do século XX, e chegou lá como autodidata.

Começou a carreira nos anos 1940, fazendo curtas-metragens variados. Entrou na Vera Cruz a convite do diretor Alberto Cavalcanti — o brasileiro que fizera carreira no cinema britânico e voltara para comandar artisticamente o estúdio.

Na companhia, Lima Barreto dirigiu "Painel", o primeiro curta-documentário nacional sobre artes plásticas, que também foi premiado.

E atuou como ator em filmes da casa, entre eles "Tico-Tico no Fubá".

Ou seja: um sujeito sem formação formal, que aprendeu fazendo curta, foi convidado por um cineasta de projeção internacional, dirigiu o documentário de arte pioneiro do país e depois convenceu — a contragosto — um estúdio a deixá-lo filmar cangaceiro.

O gênero que ele inventou

"O Cangaceiro" é classificado como um faroeste de aventura brasileiro.

E é reconhecido como o filme que fundou o que se convencionou chamar de "nordestern" — o western sertanejo, com o cangaço no lugar do velho oeste americano.

Um gênero inteiro do cinema brasileiro nasceu naquele galpão de São Bernardo, e continuaria rendendo filmes por décadas depois de o estúdio ter fechado.

E aí a conta não fechou

Aqui está a parte que quase ninguém conta, e que explica o desfecho.

A distribuidora norte-americana Columbia Pictures adquiriu os direitos do filme.

E é aí que a história vira: o dinheiro da bilheteria internacional não voltava para a companhia.

Some-se a isso o método de produção. A Vera Cruz não poupava despesas com seus filmes — equipamento de primeira, elenco caro, tempo de estúdio longo, padrão técnico de Hollywood.

Gastar como Hollywood e receber como fornecedor de uma distribuidora estrangeira é uma equação que não fecha em nenhum lugar do mundo.

O resultado foi dívida irreversível, declaração de falência e o encerramento das atividades como produtora — em 1954, um ano depois do triunfo em Cannes.

O maior sucesso da companhia foi também o que a matou. Não por fracasso: por contrato.

O que aconteceu com os galpões

O prédio não sumiu. Em 1954 mudou de mãos e recebeu outras funções.

E teve um segundo ato que nenhum roteirista teria escrito.

Durante a ditadura militar, aqueles mesmos galpões sediaram dois acontecimentos decisivos:

  • "O show em maio", em 1979
  • O congresso de fundação da CUT, em 1983

Os dois estão inseridos no contexto das greves que sacudiram o ABC a partir de 1978 — as mesmas que levaram 150 mil pessoas ao Estádio de Vila Euclides no 1º de maio de 1980.

O espaço construído para o cinema industrial brasileiro virou espaço de organização operária.

Linha do tempo

  • 1949 — Franco Zampari funda a Vera Cruz e instala o maior parque cinematográfico da América do Sul em São Bernardo
  • 1949–1953 — quatro anos de operação, 18 longas produzidos
  • 1953 — estreia de "O Cangaceiro", de Lima Barreto: 24 cinemas, 800 mil espectadores
  • 1953 — Cannes: Melhor Filme de Aventura e Melhor Trilha Sonora, o primeiro prêmio brasileiro no festival
  • 1954 — falência; o estúdio muda de mãos
  • 1979 — "O show em maio" nos galpões
  • 1983 — congresso de fundação da CUT no mesmo local

Repare: da inauguração à falência foram cinco anos. Todo o episódio Vera Cruz cabe num mandato presidencial.

Por que isso importa para quem mora aqui

São Bernardo é conhecida como capital do automóvel. É verdade, e está contado no artigo sobre a história da cidade.

Mas a cidade também foi, por cinco anos, a capital do cinema brasileiro. E foi capital do móvel antes das duas coisas.

Três indústrias completamente diferentes, no mesmo território, em menos de um século. Poucas cidades no mundo têm currículo assim.

O que o acervo do guia mostra

Este guia mapeia 34.135 estabelecimentos em São Bernardo do Campo, dos quais 31.637 têm telefone, distribuídos por 543 bairros — o segundo maior número de bairros das vinte cidades.

E hoje o topo é de serviços e profissionais, com 6.082 estabelecimentos. Nem indústria, nem cinema.

É o retrato de uma cidade que trocou de vocação três vezes e, no fim, virou o que quase toda cidade grande brasileira vira: uma economia de serviço e atendimento.

Quem quiser encontrar essa cidade concreta pode ver o guia completo de São Bernardo do Campo, casa e utilidades — herança direta da era do móvel —, oficinas e serviços para veículos, indústria e produção e serviços e profissionais.

Comparando com as vizinhas

Com Santo André: as duas disputam a herança da vila de 1553. Santo André guarda o mistério da vila perdida; São Bernardo guarda as atas dela.

Com Diadema e Mauá: as três formam, com São Bernardo, o núcleo das greves de 1979.

O que ninguém explica

  • Por que a Vera Cruz aceitou aquele contrato com a Columbia? Era o único caminho para o mercado externo, ou houve alternativa recusada?
  • Onde estão as 18 películas? Parte se preservou, parte não. O inventário completo nunca foi publicado.
  • O que restou fisicamente dos galpões? O endereço é conhecido; o que sobrou da estrutura original, muito menos.

O que fica

Um engenheiro italiano olhou para uma cidade de fábrica de carro e decidiu que ali cabia um estúdio de cinema.

Por cinco anos, coube. Dezoito filmes saíram daqueles galpões, e um deles foi a Cannes e voltou premiado, num tempo em que ninguém esperava isso de um filme brasileiro.

O sucesso não bastou, porque o dinheiro ia para outro lugar.

E trinta anos depois, no mesmo galpão onde se filmava cangaceiro, nascia a maior central sindical do país.

Se alguém escrevesse esse roteiro, seria rejeitado por inverossímil.

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