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O bairro · Taboão da Serra

A rua mais comercial da Cidade Intercap se chama Avenida São Paulo — e isso explica Taboão inteira

O bairro é cortado pela Régis Bittencourt e tem 251 comércios. O maior eixo deles leva o nome da capital, e a segunda categoria do bairro é oficina de carro. Nenhuma das duas coisas é coincidência.

· 7 min de leitura

Vista de Taboão da Serra

Em Taboão da Serra existe um bairro cuja avenida principal não leva nome de morador, de santo nem de vereador.

Leva o nome da cidade vizinha.

É a Avenida São Paulo, na Cidade Intercap — e ela concentra mais comércio que qualquer outra rua do bairro.

Para uma cidade que vive colada na capital, é difícil imaginar uma placa mais honesta.

O que o acervo do guia mostra sobre a Cidade Intercap

Comecemos pelo que só a contagem revela.

Este guia mapeia 251 estabelecimentos na Cidade Intercap, dos quais 244 têm telefone.

É o terceiro bairro de Taboão da Serra em número de comércios, entre os 254 bairros que a cidade tem no acervo — atrás apenas do Parque Pinheiros e do Jardim Maria Rosa.

O perfil:

  • Serviços e profissionais — 52
  • Oficinas e serviços para veículos — 30
  • Bares e restaurantes — 30
  • Mercados e alimentos — 28
  • Construção e reforma — 24
  • Beleza e bem-estar — 17

Repare no segundo lugar. Veículos empatado com alimentação, à frente de mercados.

Isso não é o perfil de um bairro residencial comum. Em bairro de moradia, mercado costuma vir na frente e oficina aparece lá embaixo — foi o que vimos no Jardim Zaira, em Mauá, e na Cidade Ariston, em Carapicuíba.

E não é o perfil da própria cidade. Em Taboão da Serra inteira, entre 11.598 estabelecimentos, veículos aparece só em sexto lugar, atrás de serviços, alimentação, beleza, "outros" e mercados.

Ou seja: a Cidade Intercap tem proporcionalmente muito mais oficina que o resto de Taboão.

Há uma explicação, e ela está no traçado.

A rodovia que corta o bairro

A Rodovia Régis Bittencourt passa pela Cidade Intercap. Não perto: dentro. Há estabelecimentos cadastrados com endereço na própria rodovia, dentro do perímetro do bairro.

A Régis é a BR-116 no trecho que liga São Paulo a Curitiba — uma das rodovias mais movimentadas do país, com caminhão pesado passando o dia inteiro.

Um bairro atravessado por isso não se comporta como bairro residencial qualquer. Ele ganha borracharia, auto elétrica, funilaria, mecânica, autopeças, lava-rápido.

A oficina não está ali para o morador. Está ali para quem passa.

E é por isso que uma categoria que é sexta na cidade sobe para segunda no bairro.

As ruas do bairro, uma a uma

Fomos ao cadastro de logradouros, como fizemos no Parque dos Camargos, em Barueri.

A Cidade Intercap tem 34 vias distintas no acervo: 27 ruas, 5 avenidas e 2 registros da rodovia.

As que concentram mais comércio:

  • Avenida São Paulo — 75 estabelecimentos
  • Avenida Felício Barutti — 37
  • Rua Iracema Senna Cerqueira dos Santos — 29
  • Rua Maria Bento de Lemos — 14
  • Rua Antonio Maciel de Oliveira — 13
  • Avenida Intercap — 9

Duas coisas chamam atenção.

A primeira é a concentração brutal: a Avenida São Paulo sozinha responde por 30% de todo o comércio do bairro. É um eixo, não uma malha. O bairro tem uma espinha e o resto pendura nela.

A segunda é que o bairro guarda o próprio nome numa avenida — a Avenida Intercap. É o padrão clássico de loteamento: o empreendedor batiza o conjunto e reserva uma via com o nome da marca.

E o que quer dizer "Intercap"?

Aqui somos obrigados a fazer o que esta série passou a fazer sempre que a resposta não existe.

Não encontramos explicação documentada para a origem do nome "Intercap".

O formato entrega o mecanismo: "Cidade" seguido de um nome que não é de pessoa nem de lugar é a fórmula do loteamento paulista do século XX. "Intercap" tem cara de nome de empresa — abreviação de razão social, do tipo que se registrava em cartório junto com a planta.

Mas isso é leitura de padrão, não é fato. Quem era a Intercap, quando o loteamento foi aberto e quem o promoveu não constam em nenhuma fonte que possamos verificar.

É a mesma lacuna da Cidade Ariston, em Carapicuíba, e do Parque dos Camargos, em Barueri. E o motivo é sempre o mesmo: loteamento gera planta de cartório, não gera história escrita.

O bairro tem 251 comércios e não tem certidão de nascimento pública.

O bairro na cidade mais densa do estado

Vale o contexto, porque ele muda a escala do que estamos falando.

Taboão da Serra é o município mais densamente povoado do estado de São Paulo — cerca de 13,4 mil habitantes por quilômetro quadrado, num território de apenas 20 km².

É uma cidade que quase não tem vazio. Cada pedaço já é bairro, e cada bairro já é adensado.

Ela se emancipou de Itapecerica da Serra em 1959 — e é hoje bem maior, em população e em comércio, que a cidade da qual saiu. Itapecerica tem 5.315 estabelecimentos no acervo; Taboão tem 11.598, mais que o dobro.

Nesse contexto, ser o terceiro bairro de Taboão significa estar entre os pontos comerciais mais adensados de uma cidade que já é a mais adensada do estado.

A avenida com nome da capital

Voltemos ao começo, porque é o ponto do texto.

Bairro nenhum batiza sua avenida principal com o nome da cidade vizinha por acaso.

A Avenida São Paulo é assim porque, em Taboão, São Paulo não é a cidade vizinha — é o destino diário. Taboão da Serra é atravessada pela Régis Bittencourt e faz divisa com a zona sul e a zona oeste da capital. Boa parte de quem mora ali trabalha lá.

A placa está dizendo: é por aqui que se vai.

E o comércio se organiza em cima dessa lógica. Setenta e cinco estabelecimentos numa avenida só, num bairro que tem 34 vias, é gente instalada no caminho de quem sai e de quem volta.

Comparando com os vizinhos

Com Potuverá, em Itapecerica da Serra: os dois bairros são cortados pela mesma Régis Bittencourt — e não poderiam ser mais diferentes. Um é urbano e adensado, com 251 comércios em bairro de loteamento; o outro é rural, com estradas de terra que levam nome de família. Mesma rodovia, dois mundos.

Com o Parque dos Camargos, em Barueri: os dois têm nome sem origem documentada, e nos dois o cadastro de ruas contou mais história que qualquer fonte escrita.

Com o Jardim Santo Eduardo, em Embu das Artes: os dois bairros têm como espinha uma via que aponta para São Paulo. Lá é a Estrada Itapecerica–Campo Limpo; aqui é uma avenida que leva o nome da capital sem rodeio.

Linha do tempo

  • 1959 — Taboão da Serra se emancipa de Itapecerica da Serra
  • século XX — abertura do loteamento Cidade Intercap, sem data documentada
  • hoje — 3º bairro de Taboão em número de comércios, com 251 estabelecimentos

Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Taboão da Serra, oficinas e serviços para veículos, serviços e profissionais, bares e restaurantes e mercados e alimentos.

O que ninguém explica

  • Quem foi, ou o que foi, a Intercap? O nome está numa avenida e em 251 endereços comerciais, e não está em nenhum registro público acessível.
  • Quando o loteamento foi aberto? Não há data documentada.
  • Quem foram Felício Barutti, Iracema Senna Cerqueira dos Santos e Maria Bento de Lemos? Três nomes completos em placas de esquina, o padrão de homenagem por lei municipal — e nenhuma informação sobre eles.

O que fica

Num pedaço de vinte quilômetros quadrados que abriga mais gente por metro que qualquer outro município do estado, alguém abriu um loteamento e deu a ele o nome de uma empresa que ninguém mais identifica.

O loteamento virou o terceiro maior centro comercial da cidade.

A rodovia que o corta encheu o bairro de oficina — a ponto de veículos, sexta categoria em Taboão inteira, virar segunda ali dentro.

E a avenida onde se concentra um terço de todo o comércio do bairro chama-se São Paulo.

Numa cidade que existe, em boa medida, por causa da capital vizinha, é o nome mais sincero que uma placa poderia ter.

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