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O bairro · Barueri

Em Barueri existe um bairro onde quase todas as ruas têm nome de mulher — conferimos uma a uma

Parque dos Camargos tem Aline, Amélia, Ana, Andrea, Áurea, Carolina, Célia, Cilene, Denise, Dirce, Dora... Fomos ao cadastro de logradouros e checamos 40 nomes. Trinta e nove são femininos.

· 8 min de leitura

Vista de Barueri

Existe um bairro em Barueri onde, se você abrir o mapa, vai ler quase só nomes de mulher.

Aline. Amélia. Ana. Andrea. Áurea. Carolina. Célia. Celina. Cilene. Cristiane. Denise. Dirce. Dora. Doralice. Elenice. Elizabeth. Emília. Gabriela. Gisele. Glória. Hebe. Iara. Irene. Juliana. Karina. Laura. Leila. Lenita. Lúcia. Luciana. Márcia. Maria. Marisa. Maysa.

É o Parque dos Camargos. E a explicação corrente é que o bairro foi formado exclusivamente por nomes femininos, numa homenagem feita no início do loteamento.

Nós fomos conferir.

O que checamos, e o que encontramos

A afirmação de "exclusivamente femininos" é forte demais para ser repetida sem verificação. Então abrimos o cadastro de logradouros do bairro e olhamos nome por nome.

O bairro tem 53 logradouros registrados, distribuídos em três páginas do cadastro.

Conferimos as duas primeiras — 40 nomes.

O resultado:

  • 39 são nomes femininos
  • 1 não é

A exceção é a Avenida João Vicente do Nascimento.

E há ainda duas praças que fogem do padrão de outro jeito, mas não do espírito: Praça das Margaridas e Praça das Rosas. Nomes de flor, não de pessoa.

Por que a exceção importa

Poderíamos ter omitido a Avenida João Vicente do Nascimento e escrito um título mais redondo: "o bairro onde TODAS as ruas têm nome de mulher".

Mas seria falso, e o padrão da exceção é justamente o que torna a história mais interessante.

Repare: as ruas são femininas. A avenida não é.

Isso sugere um mecanismo bem conhecido em loteamento: as vias internas recebem nomes na planta original, escolhidos de uma vez, muitas vezes por uma pessoa só e seguindo um tema. A via principal costuma ser nomeada depois — por lei municipal, homenageando alguém que a cidade quis reconhecer.

Ou seja: o tema feminino provavelmente é do loteador, e a exceção masculina é da prefeitura.

Não temos documento que prove isso. Mas é o padrão que se repete na Grande São Paulo, e ele explica o dado que encontramos.

Trinta e quatro mulheres num mapa

Vale insistir no que esses nomes são.

A maioria é prenome simples: Aline, Dora, Hebe, Iara, Leila. Não são personalidades históricas nem figuras públicas. São nomes de mulheres comuns.

E dois deles têm sobrenome, o que muda tudo: Rua Antonia Duarte de Souza e Rua Cecilia Teodoro dos Santos. Nome completo é sinal de homenagem a uma pessoa específica — alguém que existiu, com identidade civil.

Quem eram Antonia Duarte de Souza e Cecilia Teodoro dos Santos? Não sabemos. Não há registro acessível.

Mas o mapa de Barueri guarda o nome delas em placa de esquina, e alguém, em algum momento, achou que deviam ser lembradas.

Como se nomeia rua no Brasil

Vale explicar o mecanismo, porque ele é o que torna este bairro incomum.

Numa cidade brasileira, nome de rua vem de dois lugares.

Na planta do loteamento. Quando o empreendedor registra o parcelamento em cartório, precisa identificar cada via. Nesse momento, uma única pessoa batiza dezenas de ruas de uma vez — e é por isso que loteamento costuma ter tema: nomes de estado, de flor, de pedra preciosa, de país, de santo.

Por lei municipal. Depois, a câmara aprova denominações e alterações, quase sempre homenageando moradores falecidos, autoridades ou figuras locais. É um pedido de vereador, votado em plenário.

O primeiro mecanismo produz conjuntos coerentes. O segundo produz exceções.

E é exatamente o que se vê no Parque dos Camargos: dezenas de prenomes femininos em bloco — assinatura do primeiro mecanismo — e uma avenida com nome completo masculino, assinatura do segundo.

Também explica as duas ruas com nome completo de mulher, Antonia Duarte de Souza e Cecilia Teodoro dos Santos: nome inteiro é padrão de homenagem por lei, não de tema de planta.

O bairro é, nesse sentido, um documento legível. Dá para ver onde acaba a decisão do loteador e onde começa a da cidade — sem precisar abrir um único processo.

E o "Camargos"?

Aqui somos obrigados a repetir o que já dissemos sobre outro bairro desta série.

Não encontramos explicação documentada para a origem do nome "Parque dos Camargos".

O padrão sugere loteamento — "Parque" seguido de um sobrenome é a fórmula clássica do mercado imobiliário paulista do século XX, e "Camargos" tem forma de nome de família proprietária.

Mas isso é inferência, não fato. Quem foram os Camargos, quando o loteamento foi aberto e quem o promoveu não constam em fonte que possamos verificar.

É a mesma lacuna da Cidade Ariston, em Carapicuíba, e pelo mesmo motivo: loteamento gera planta de cartório, não gera história escrita.

O bairro que existia antes de Alphaville

O Parque dos Camargos importa por uma razão que vai além das ruas.

Barueri é conhecida hoje pelo polo empresarial de Alphaville e Tamboré — o quinto maior PIB do estado, 81,9% do produto vindo de serviços, com alíquota de ISS de 2%, a menor de São Paulo.

Mas Alphaville é de 1973. E o projeto residencial original, aliás, foi vetado pelo prefeito — o que existe hoje é o plano B, como conta o artigo sobre o veto.

O Parque dos Camargos é da Barueri anterior a isso. É o bairro de rua residencial, comércio de esquina e casa de morador — a cidade que existia quando ninguém imaginava torre de vidro.

Fica perto de Votupoca, Parque Viana e Jardim Paulista, no tecido urbano que se formou décadas antes do parque empresarial.

O que o acervo do guia mostra sobre o Parque dos Camargos

Este guia mapeia 445 estabelecimentos no Parque dos Camargos, dos quais 420 têm telefone.

É o terceiro bairro de Barueri em número de comércios, entre os 336 bairros que a cidade tem no acervo.

O perfil:

  • Serviços e profissionais — 66
  • Bares e restaurantes — 63
  • Mercados e alimentos — 60
  • Veículos — 46

Repare como as quatro categorias estão muito próximas — 20 estabelecimentos separam a primeira da quarta.

Isso é o retrato de um bairro equilibrado de moradia: nenhum setor domina, e todos atendem o morador. Mercado para comprar, bar para comer, oficina para consertar, prestador para resolver.

E é o oposto exato do que se vê no conjunto da cidade. Barueri inteira tem a maior desproporção do guia entre a primeira e a segunda categoria — serviços com quase o dobro da seguinte, efeito direto da alíquota de 2% e do polo corporativo.

A cidade é feita de serviço corporativo. O bairro é feito de vida cotidiana.

Os dois números vêm do mesmo município e contam histórias diferentes.

Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Barueri, oficinas e serviços para veículos, mercados e alimentos, bares e restaurantes e serviços e profissionais.

Comparando com os vizinhos

Com a Cidade Ariston, em Carapicuíba: os dois têm nome sem origem documentada. Mas o Parque dos Camargos tem, no traçado das ruas, um registro que nenhum cartório guardou — a decisão de alguém de homenagear dezenas de mulheres.

Com Alphaville, na mesma cidade: um bairro batizado com nome de filme francês de ficção científica; outro batizado com dezenas de prenomes femininos. Barueri tem os dois extremos da toponímia paulista dentro do mesmo município.

Com Rudge Ramos, em São Bernardo: lá, o nome popular ("Bairro dos Meninos") foi substituído pelo nome de um jurista. Aqui, os nomes de mulheres comuns resistiram nas placas.

O que ninguém explica

  • Quem foram Antonia Duarte de Souza e Cecilia Teodoro dos Santos? As duas únicas com nome completo, e nada sobre elas.
  • Quem escolheu os nomes, e por quê? A homenagem é atribuída ao início do loteamento, sem autoria.
  • Quem foram os Camargos? A pergunta que dá nome ao bairro segue sem resposta.
  • E as 13 ruas que não conferimos? Ficaram nas páginas seguintes do cadastro. Se alguém checar, agradecemos a correção.

O que fica

Alguém, ao desenhar um loteamento em Barueri, decidiu que as ruas se chamariam Aline, Dora, Hebe, Iara, Maysa — e mais três dezenas de mulheres.

Não sabemos quem foi essa pessoa nem por que fez isso.

Sabemos que a decisão sobreviveu: está em 39 dos 40 logradouros que conferimos, em placa de esquina, em conta de luz, em endereço de entrega e na boca de quem mora ali.

Numa região onde bairro costuma levar nome de proprietário, de santo ou de filme francês, existe um em que quase tudo tem nome de mulher.

E a única exceção que encontramos é justamente a avenida principal.

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