O que só existe aqui · Itapecerica da Serra
Itapecerica recebeu em 1827 uma colônia de alemães trazidos ao Brasil sob promessas falsas
D. Pedro I mandou um major recrutar soldados na Europa. Ele prometeu riquezas, altos cargos e terras próprias. Muitas promessas não foram cumpridas — e as famílias acabaram numa colônia agrícola no sudoeste paulista.
A imigração que se conta sobre a Grande São Paulo é italiana, japonesa e nordestina.
Quase ninguém sabe que houve uma colônia alemã em Itapecerica da Serra — e que ela foi instalada em 1827, quase um século antes de os japoneses chegarem à região.
Menos gente ainda sabe como aquelas famílias vieram parar aqui.
A história envolve um imperador, um major recrutador e um conjunto de promessas que não foram cumpridas.
O que D. Pedro I queria
O Império tinha um problema militar no sul.
Para resolvê-lo, D. Pedro I incumbiu o major Georg Anton Von Schaeffer de ir à Europa obter soldados que pudessem lutar nas guerras da região.
Era uma missão de recrutamento militar, e ela foi cumprida. Mas não só.
As promessas
Schaeffer não recrutou apenas soldados. Ele aliciou colonos.
E o que ofereceu, segundo os registros, foi um pacote específico:
- riquezas
- altos cargos
- terras próprias
Para um europeu do começo do século XIX — num continente saindo das guerras napoleônicas, com fome, desemprego e terra concentrada nas mãos de poucos — essa oferta era irresistível.
Famílias inteiras venderam o que tinham e atravessaram o Atlântico.
O que aconteceu de verdade
Os registros são diretos: muitas promessas não foram cumpridas.
Não houve riqueza. Não houve alto cargo.
E Itapecerica acabou recebendo famílias de soldados e de colonos alemães — pessoas que tinham vindo para uma coisa e foram destinadas a outra.
Em 1827, a pedido do governo imperial, esses imigrantes foram enviados ao então distrito de Itapecerica, que na época pertencia a Santo Amaro.
O Governo Imperial criou ali uma colônia para incentivar as atividades agrícolas da região.
Ou seja: gente recrutada para lutar e para enriquecer foi assentada para plantar, num distrito de mato no sudoeste paulista.
O homem que falava alemão
Havia um problema prático óbvio: os colonos não falavam português, e ninguém no governo local falava alemão.
A solução foi nomear Dr. Justiniano de Melo Franco como diretor da colônia — justamente porque ele falava alemão.
A função dele era ampla e revela como aquilo funcionava na prática:
- representar os imigrantes
- receber queixas e sugestões
- pagar-lhes o subsídio
- escolher, junto com o Governo, o local para a instalação definitiva da colônia
Repare no terceiro item. Havia subsídio — os colonos recebiam um pagamento enquanto a colônia não se sustentava. Era, na prática, um programa de assentamento com apoio estatal, no Brasil de 1827.
E repare no quarto: o local definitivo ainda seria escolhido. Aquelas famílias chegaram antes de haver decisão sobre onde exatamente ficariam.
E, apesar de tudo, deu certo
Este é o desfecho que surpreende.
Os registros indicam que o sucesso da colônia alemã, das lavouras e a facilidade de acesso atraíram outros povoadores para a região.
A consequência administrativa veio em cadeia:
- 1841 — é criada a freguesia do Imbu
- 1877 — Itapecerica é elevada a município, pela Lei Provincial nº 33, de 8 de maio
Ou seja: a colônia formada por gente trazida sob promessa falsa acabou sendo um dos motores que transformaram um distrito de Santo Amaro num município próprio.
Em 2017, a instalação da colônia completou 190 anos.
O que veio antes dos alemães
Vale situar a colônia numa linha mais longa, porque Itapecerica é bem mais antiga que 1827.
O povoamento começou com um aldeamento indígena sob a proteção de Nossa Senhora dos Prazeres, fundado pelos jesuítas em 1562, com o objetivo de defender o Colégio de São Paulo de Piratininga e facilitar a catequese.
No século XVII, o aldeamento cresceu com a chegada de índios trazidos de Carapicuíba pelo sertanista Afonso Sardinha — sobrenome que também aparece na descoberta do ouro de Guarulhos, no fim do século XVI. Eles ficaram sob orientação do padre Belchior de Pontes, que também atendia a aldeia de M'Boy, a futura Embu das Artes.
Em 1689, a capela já reunia mais de 900 pessoas.
Cento e trinta e oito anos depois disso é que chegaram os alemães.
Linha do tempo
- 1562 — fundação do aldeamento de Nossa Senhora dos Prazeres pelos jesuítas
- século XVII — Afonso Sardinha traz índios de Carapicuíba; Belchior de Pontes os orienta
- 1689 — a capela reúne mais de 900 pessoas
- 1827 — o Governo Imperial instala a colônia alemã no distrito de Itapecerica, então de Santo Amaro
- 1841 — criação da freguesia do Imbu
- 08/05/1877 — Itapecerica é elevada a município
- 1944 — acrescenta-se "da Serra" ao nome
- 1959, 1964, 1992 — emancipam-se Taboão, Embu-Guaçu, Juquitiba e São Lourenço
Uma cidade que virou mãe de cinco
Do território original de Itapecerica saíram cinco municípios: Taboão da Serra (1959), Embu-Guaçu (1964), Embu das Artes, Juquitiba (1964) e São Lourenço da Serra (1992).
Duas delas — Taboão e São Lourenço — mantiveram "da Serra" no nome, em homenagem à cidade-mãe.
A história completa dessa linhagem, e da pedra que deu nome ao município, está no artigo sobre a origem do nome de Itapecerica.
O que o acervo do guia mostra
Este guia mapeia 5.308 estabelecimentos em Itapecerica da Serra, dos quais 4.759 têm telefone, distribuídos por 148 bairros.
E aqui aparece o preço de uma escolha que ninguém fez conscientemente.
Taboão da Serra, que se emancipou em 1959, tem hoje 11.609 estabelecimentos — mais que o dobro da cidade-mãe. Embu das Artes tem 8.071, também bem mais.
A mãe é hoje a terceira em tamanho entre as próprias filhas.
Não é decadência: é geografia e legislação. Boa parte do território que restou a Itapecerica é área de manancial, com restrição de ocupação, porque é dali que sai parte da água da Guarapiranga.
A cidade não pôde adensar como Taboão adensou. Abriu mão do crescimento para que a região tivesse água — um papel ingrato e pouco reconhecido.
O perfil das categorias:
- Serviços e profissionais — 644
- Bares e restaurantes — 577
- Beleza e bem-estar — 510
- Mercados e alimentos — 435
Quem precisa achar alguém aqui pode ver o guia completo de Itapecerica da Serra, serviços e profissionais, construção e reforma, mercados e alimentos e saúde.
Comparando com as vizinhas
Com Embu-Guaçu: as duas dividem o mesmo destino de manancial. As duas seguram a água da Guarapiranga e as duas pagam com o crescimento que não puderam ter.
Com Taboão da Serra: a filha que adensou até virar a cidade mais densa do estado, enquanto a mãe ficava com a área protegida.
Com Cotia e Suzano: as três receberam imigração organizada para fins agrícolas. Mas a alemã de Itapecerica é quase um século anterior à japonesa das outras duas — e é a menos lembrada de todas.
O que ninguém explica
- Quantas famílias vieram? Os registros falam em "famílias de soldados e colonos", sem número.
- O que aconteceu com elas? A colônia consta em 1827, o sucesso das lavouras é mencionado, e depois os alemães somem dos relatos. Onde foram parar aqueles sobrenomes?
- Onde ficava a colônia, exatamente? O local definitivo seria escolhido pelo diretor junto com o Governo — e o registro dessa escolha é escasso.
O que fica
Um imperador precisava de soldados. Mandou um major à Europa buscá-los.
O major prometeu riqueza, cargo e terra a quem topasse atravessar o Atlântico. Famílias inteiras venderam o que tinham e vieram.
Boa parte das promessas não se cumpriu. E, em 1827, aquelas pessoas foram assentadas numa colônia agrícola num distrito de mato que pertencia a Santo Amaro.
Elas plantaram. A lavoura deu certo. Outros povoadores vieram atrás.
Catorze anos depois, criava-se a freguesia. Cinquenta anos depois, o município.
Itapecerica da Serra existe, em parte, por causa de gente que foi enganada para vir até aqui — e que, mesmo assim, fez o lugar funcionar.
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