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O que só existe aqui · Embu das Artes

A feira de Embu nasceu de gente expulsa de uma praça — e virou patrimônio do estado

Em 1969, um escultor convenceu os artesãos da Praça da República a mudar de cidade. Cinquenta e dois anos depois, a Assembleia Legislativa transformou aquilo em patrimônio cultural imaterial de São Paulo.

· 8 min de leitura

Vista de Embu das Artes

Quase tudo que é patrimônio no Brasil foi construído por alguém com poder: uma igreja erguida pela Coroa, um casarão de barão, um prédio público.

A Feira de Artes e Artesanato de Embu das Artes não.

Ela foi criada por gente que não tinha onde vender — e é hoje Patrimônio Cultural Imaterial do Estado de São Paulo.

1969: a mudança de endereço

Tudo começou em 1969, em frente ao atual Museu de Arte Sacra, espalhando-se por quatro quadras do Centro Histórico.

Quem articulou foi o escultor Mestre Assis do Embu. E o que ele fez foi simples e ousado: convenceu os expositores da então feira da Praça da República, em São Paulo, a virem para cá.

Tirar artesão do centro da capital e levá-lo para uma cidade a trinta quilômetros, sem garantia de público, é o tipo de aposta que costuma dar errado.

Deu certo por um motivo: a cidade já era, havia décadas, um lugar de arte.

O escultor não estava sozinho

Mestre Assis é o nome mais lembrado, mas a consolidação da produção artística no território teve outros dois protagonistas.

Cássio M'Boy — o santeiro que em 1937 levou um trabalho à Exposição Internacional de Artes e Técnicas, em Paris, e voltou com o primeiro grande prêmio.

E Tadakiyo Sakai, artista que também ajudou a firmar a vocação da cidade.

Três nomes, três trajetórias diferentes, e um resultado comum: quando os artesãos da Praça da República chegaram em 1969, já havia ali uma tradição de trinta anos para se apoiar.

A Feira Hippie

No fim dos anos 60, a cidade virou ponto de encontro de hippies, que expunham artesanato nos fins de semana.

Virou "Feira Hippie". Depois, simplesmente Feira de Embu das Artes.

É uma origem que costuma ser tratada como anedota, e não deveria. O movimento hippie foi o que trouxe o público — jovem, urbano, disposto a viajar no fim de semana atrás de coisa feita à mão. Sem esse público, os artesãos que vieram da capital não teriam para quem vender.

O tamanho de hoje

Os números da feira atual:

  • cerca de 500 expositores
  • entre 30 e 40 mil visitantes por fim de semana
  • visitantes de várias regiões do estado, do Brasil e do exterior

O que se vende cobre praticamente todo o campo do feito à mão: artesanato, bijuterias, miniaturas, pinturas, esculturas, porcelanas, bordados, rendas, instrumentos musicais, roupas, objetos de decoração e cestaria.

Quarenta mil pessoas num fim de semana é mais gente do que a população inteira de várias cidades deste guia. Miracatu tem 22 mil habitantes; São Lourenço da Serra, menos ainda. A feira de Embu recebe, em dois dias, o dobro de uma cidade inteira.

2021: a Assembleia reconhece

Em 2021, a feira foi declarada Patrimônio Cultural Imaterial do Estado de São Paulo, por lei aprovada na Assembleia Legislativa (Alesp).

Ela é também reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do próprio município.

Vale entender o que "imaterial" significa, porque não é detalhe jurídico.

Patrimônio material é prédio, objeto, conjunto arquitetônico — coisa que se tomba e se restaura. Patrimônio imaterial é uma prática: um saber, um modo de fazer, uma forma de reunir gente.

O que o estado reconheceu não foram as barracas. Foi o hábito de quinhentas pessoas montarem barraca no mesmo largo todo fim de semana, há mais de cinquenta anos.

Isso não se restaura com verba. Só se mantém com gente fazendo.

Duas proteções, duas naturezas

Embu tem hoje uma combinação rara: patrimônio material e imaterial reconhecidos no mesmo largo.

O conjunto da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e da residência anexa dos jesuítas foi tombado pelo IPHAN em 21 de outubro de 1938 (processo 180-T-38) — e é apontado por parte das fontes como o primeiro do estado — a história está no artigo sobre a origem do nome da cidade.

Oitenta e três anos depois, a feira que acontece em volta dessa igreja virou patrimônio imaterial do estado.

O prédio de 1690 e a prática de 1969, protegidos pelo mesmo motivo: porque não existem em mais lugar nenhum.

O museu que a feira cerca

Vale entender o endereço, porque ele não é acidental.

A feira nasceu em frente ao Museu de Arte Sacra — e esse museu não é um prédio qualquer.

Ele está instalado no conjunto arquitetônico que reúne a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e a residência anexa dos jesuítas, construído na virada do século XVII para o XVIII pelos padres da Companhia de Jesus.

Esse conjunto foi restaurado pelo próprio IPHAN entre 1939 e 1941, e é protegido também pelo CONDEPHAAT desde 1974.

Hoje ele abriga o Museu de Arte Sacra dos Jesuítas.

Ou seja: quando Mestre Assis escolheu onde colocar os artesãos em 1969, ele os colocou em volta do bem mais antigo e mais protegido da cidade.

Não há registro de que a escolha tenha sido estratégica. Mas o efeito foi: a feira ganhou um cenário que nenhum shopping consegue copiar, e o museu ganhou quarenta mil visitantes por fim de semana passando pela porta.

Linha do tempo

  • c. 1690 — construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário
  • 1937 — Cássio M'Boy ganha o grande prêmio em Paris
  • 21/10/1938 — tombamento pelo IPHAN, processo 180-T-38
  • 1969 — nasce a feira, articulada por Mestre Assis do Embu
  • fim dos anos 1960 — a cidade vira ponto hippie; nasce a "Feira Hippie"
  • 2021 — a Alesp declara a feira Patrimônio Cultural Imaterial do estado
  • hoje — cerca de 500 expositores e 30 a 40 mil visitantes por fim de semana

O que o acervo do guia mostra

Aqui está o dado que muda a leitura da cidade.

Este guia mapeia 8.071 estabelecimentos em Embu das Artes, dos quais 7.400 têm telefone, distribuídos por 246 bairros.

E as quatro maiores categorias são:

  • Serviços e profissionais — 1.016
  • Bares e restaurantes — 981
  • Beleza e bem-estar — 781
  • Mercados e alimentos — 755

Nenhuma delas tem relação com arte, artesanato ou turismo.

Isso não diminui a feira. Diz outra coisa, e é a coisa mais importante deste texto: a Embu do domingo não é a Embu que existe.

A cidade real tem 250 mil habitantes, quase mil bares e restaurantes e quase oitocentos salões, atendendo gente que não vive de vender escultura.

A feira é extraordinária — e é a exceção visível de uma cidade comum e trabalhadora.

Quem quiser encontrar essa cidade pode ver o guia completo de Embu das Artes, bares e restaurantes, serviços e profissionais, mercados e alimentos e beleza e bem-estar.

Comparando com as vizinhas

Com Carapicuíba: as duas guardam tradições reconhecidas oficialmente. Carapicuíba tem a Dança de Santa Cruz, com registros desde 1734, transmitida de geração em geração sem nunca ter sido escrita. Embu tem uma feira de 1969 que virou patrimônio estadual. Uma nasceu de devoção; a outra, de necessidade comercial. As duas sobreviveram porque as pessoas continuaram aparecendo.

Com Taboão da Serra: vizinhas coladas, ambas emancipadas de Itapecerica, com perfis comerciais quase idênticos na contagem do acervo. A diferença entre elas é exatamente a feira.

Com Itapecerica da Serra: a cidade-mãe, que dividiu com Embu o mesmo padre fundador — Belchior de Pontes atendia as duas aldeias.

O que ninguém explica

  • Por que os artesãos da Praça da República aceitaram? Sair do centro da maior cidade do país para uma vila a trinta quilômetros é uma decisão difícil de entender sem conhecer o que estava acontecendo naquela praça em 1969.
  • Quem foi Tadakiyo Sakai? Aparece sempre citado ao lado de Mestre Assis e Cássio M'Boy, e quase não há registro biográfico dele.
  • Quantos dos 500 expositores de hoje são descendentes dos de 1969? Ninguém levantou.

O que fica

Um santeiro ganhou Paris em 1937 e provou que dava para fazer arte naquele lugar.

Trinta e dois anos depois, um escultor convenceu um punhado de artesãos sem lugar fixo a atravessar trinta quilômetros e montar barraca em volta de uma igreja do século XVII.

Eles vieram. E continuaram vindo por cinquenta e sete anos.

Em 2021, o estado de São Paulo olhou para aquilo e concluiu que era patrimônio — não pelas barracas, mas pelo simples fato de que, todo fim de semana, quinhentas pessoas ainda aparecem.

É o único patrimônio que precisa ser refeito toda sexta-feira para continuar existindo.

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