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O que só existe aqui · Embu-Guaçu

A represa que dá água a 4 milhões de paulistanos começou em 1906 — e Embu-Guaçu paga a conta até hoje

A Guarapiranga foi construída pela Companhia Light, e seus principais tributários são os rios Embu-Guaçu e Embu-mirim. Em troca, a cidade virou área de manancial e não pode crescer como as vizinhas.

· 7 min de leitura

Vista de Embu-Guaçu

Quatro milhões de pessoas na zona sul de São Paulo abrem a torneira todo dia sem fazer a menor ideia de onde aquela água vem.

Ela vem, em boa parte, de um rio que tem o nome de uma cidade que quase ninguém conhece.

Embu-Guaçu.

E a cidade paga por isso um preço que ninguém discute.

A represa começou em 1906

A construção da Represa de Guarapiranga começou em 1906, com investimento da Companhia Light.

Vale entender quem era a Light. Era a empresa canadense que eletrificou São Paulo e o Rio de Janeiro no começo do século XX — bondes, energia, iluminação pública. Uma das companhias estrangeiras mais poderosas que já operaram no Brasil.

E a Guarapiranga não nasceu para abastecer ninguém de água potável. Nasceu como obra de energia: represar rio para regularizar vazão e gerar eletricidade.

Só depois é que ela virou o que é hoje — uma das principais fontes de água de uma metrópole de 12 milhões de habitantes.

De onde vem a água que enche a represa

A Guarapiranga fica entre a zona sul de São Paulo e os municípios de Itapecerica da Serra e Embu-Guaçu.

E os principais tributários dela são dois:

  • o rio Embu-Guaçu
  • o rio Embu-mirim

Leia com atenção: o rio que dá nome a esta cidade é um dos principais alimentadores da represa que abastece mais de 4 milhões de pessoas.

Não é uma contribuição simbólica. É a fonte.

O nome, e a ilha que não era ilha

O nome original era M'Boy-Guaçu, de origem indígena: M'Boy é cobra, Guaçu é grande.

Cobra grande.

É o mesmo M'Boy de Embu das Artes, a vizinha — e as duas herdam a mesma discussão etimológica, com três leituras convivendo: cobra grande, rio das cobras (mboîa + 'y), ou uma planta nativa chamada embu, caso em que "guaçu" significaria apenas "o embu grande".

Mas há um nome anterior que é uma imagem perfeita do lugar: a região teria sido chamada de Ilha de Itararé, porque a quantidade de rios dava a impressão de que aquilo era uma grande ilha fluvial.

Uma ilha feita de rios.

Quatro séculos depois, é exatamente por causa desses rios que a cidade importa para a metrópole.

O preço de ser cidade de manancial

Aqui está a parte que nenhum dos 4 milhões de beneficiados conhece.

Ser área de manancial não é um título honorífico. É uma restrição legal de uso e ocupação do solo.

Significa que a cidade não pode crescer como as vizinhas, porque a água de milhões de pessoas depende do que se faz com aquele terreno.

E a comparação é dura:

  • Taboão da Serra, também filha de Itapecerica, emancipada em 1959, virou a cidade mais densa do estado — cerca de 580 estabelecimentos comerciais por km²
  • Embu das Artes, a vizinha de nome parecido, tem 8.071 estabelecimentos
  • Embu-Guaçu tem 2.111

Quase quatro vezes menos que a vizinha de nome irmão.

E não é por falta de iniciativa de ninguém. É porque a lei ambiental — corretamente — impede.

A cidade abriu mão do próprio crescimento para que a região tivesse água. É um papel ingrato, e ele é dividido com Itapecerica da Serra, que enfrenta exatamente a mesma limitação pelo mesmo motivo.

A emancipação foi em 1964, não em 1959

Vale uma correção que circula bastante errada.

Embu-Guaçu foi elevada a município pela Lei Estadual nº 8.092, de 28 de fevereiro de 1964, desmembrada de Itapecerica da Serra. A instalação do município ocorreu em 28 de março de 1965.

É a mesma Lei nº 8.092/64 que criou Carapicuíba — uma única lei estadual redesenhando o mapa de mais de um município da região metropolitana ao mesmo tempo.

A ferrovia que sumiu

Outro capítulo pouco lembrado: a cidade teve trem por 63 anos.

A estação ferroviária de Embu-Guaçu foi inaugurada em 5 de abril de 1934.

Em 1937, foi inaugurado o ramal Mairinque–Santos, que cruzava o município e facilitava o transporte de café do interior paulista até o porto.

O serviço de passageiros funcionou até novembro de 1997.

Muita gente que mora na cidade hoje pegou aquele trem. É memória viva, não arqueologia — e o encerramento mudou a vida de quem dependia dele, como aconteceu em dezenas de cidades paulistas na mesma década.

Linha do tempo

  • 1849 — nasce Emília Pedrozo de Moraes, em Itapecerica da Serra
  • c. 1865 — casada aos 16 anos, recebe as terras da Fazenda da Ilha como dote
  • 1906 — começa a construção da Represa de Guarapiranga, pela Light
  • 05/04/1934 — inauguração da estação ferroviária
  • 1937 — inauguração do ramal Mairinque–Santos
  • 28/02/1964 — Lei Estadual nº 8.092 cria o município
  • 28/03/1965 — instalação do município
  • novembro/1997 — fim do transporte de passageiros na estação

A cidade nasceu de um dote de casamento

A história de fundação de Embu-Guaçu é a mais improvável do guia, e vale relembrar aqui.

Emília Pedrozo de Moraes nasceu em 1849, em Itapecerica da Serra, filha do capitão Manoel José de Moraes. Aos dezesseis anos, o pai arranjou seu casamento com José Pires de Albuquerque, tropeiro.

Como parte do dote, ela recebeu extensas terras da Fazenda da Ilha, na margem direita do rio Embu-Guaçu. No fim do século XIX o casal se estabeleceu por ali, perto do Rio Santa Rita.

Uma adolescente de 1865 recebeu um pedaço de chão como presente de casamento — um casamento que não foi ela quem decidiu.

Cento e sessenta anos depois, aquele chão é uma cidade de mais de 70 mil pessoas, e o rio que corta aquelas terras enche a represa da zona sul de São Paulo.

A história completa está no artigo sobre a origem do nome de Embu-Guaçu.

O que o acervo do guia mostra

Este guia mapeia 2.111 estabelecimentos em Embu-Guaçu, dos quais 1.920 têm telefone, distribuídos por 135 bairros.

O perfil:

  • Serviços e profissionais — 242
  • Bares e restaurantes — 221
  • Mercados e alimentos — 188
  • Igrejas e templos — 183

Igrejas e templos em quarto lugar, quase empatado com mercados.

Nas cidades grandes do guia — Guarulhos, Osasco, Santo André — essa categoria não chega perto do topo. Aqui está entre as quatro maiores, e o mesmo padrão se repete em Juquitiba e Miracatu.

O que isso conta: em município de território grande e núcleos distantes, o templo de bairro é frequentemente o único equipamento coletivo perto de casa. Não é só religião — é onde a comunidade se encontra, porque não há outro lugar.

Quem precisa achar alguém aqui pode ver o guia completo de Embu-Guaçu, mercados e alimentos, serviços e profissionais, construção e reforma e bares e restaurantes.

Comparando com as vizinhas

Com Itapecerica da Serra: a mãe, e a companheira de destino. As duas seguram a água da Guarapiranga e as duas pagam com o crescimento que não puderam ter.

Com Embu das Artes: dividem a raiz do nome e a discussão etimológica. Embu das Artes tem quase quatro vezes mais estabelecimentos.

Com Carapicuíba: criadas pela mesma lei estadual, a 8.092/64. Uma virou cidade-dormitório de 400 mil habitantes; a outra não pôde crescer.

Com Juquitiba e São Lourenço da Serra: as três filhas "verdes" de Itapecerica — as que ficaram com mata, água e restrição de uso.

O que ninguém explica

  • Onde ficava exatamente a Fazenda da Ilha? O bairro leva o nome, mas os limites da propriedade original não foram reconstituídos.
  • O que aconteceu com Emília depois? Ela dá origem à cidade e some dos registros.
  • Existe alguma compensação por ser área de manancial? A cidade presta um serviço ambiental a milhões de pessoas e arca sozinha com o custo de não poder crescer.

O que fica

Uma ilha feita de rios. Uma cobra grande no nome. Uma menina de dezesseis anos que recebeu de dote as terras onde a cidade nasceria. Uma estação de trem que funcionou por 63 anos.

E, atravessando tudo isso, a água.

Em 1906, uma companhia canadense começou a represar aqueles rios para gerar energia. Hoje o que sai dali é a água que chega, sem que ninguém pense a respeito, na torneira de mais de quatro milhões de pessoas.

Embu-Guaçu é a cidade mais silenciosamente essencial da Grande São Paulo — e paga por isso com o crescimento que nunca pôde ter.

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