O que só existe aqui · Embu-Guaçu
A represa que dá água a 4 milhões de paulistanos começou em 1906 — e Embu-Guaçu paga a conta até hoje
A Guarapiranga foi construída pela Companhia Light, e seus principais tributários são os rios Embu-Guaçu e Embu-mirim. Em troca, a cidade virou área de manancial e não pode crescer como as vizinhas.
Quatro milhões de pessoas na zona sul de São Paulo abrem a torneira todo dia sem fazer a menor ideia de onde aquela água vem.
Ela vem, em boa parte, de um rio que tem o nome de uma cidade que quase ninguém conhece.
Embu-Guaçu.
E a cidade paga por isso um preço que ninguém discute.
A represa começou em 1906
A construção da Represa de Guarapiranga começou em 1906, com investimento da Companhia Light.
Vale entender quem era a Light. Era a empresa canadense que eletrificou São Paulo e o Rio de Janeiro no começo do século XX — bondes, energia, iluminação pública. Uma das companhias estrangeiras mais poderosas que já operaram no Brasil.
E a Guarapiranga não nasceu para abastecer ninguém de água potável. Nasceu como obra de energia: represar rio para regularizar vazão e gerar eletricidade.
Só depois é que ela virou o que é hoje — uma das principais fontes de água de uma metrópole de 12 milhões de habitantes.
De onde vem a água que enche a represa
A Guarapiranga fica entre a zona sul de São Paulo e os municípios de Itapecerica da Serra e Embu-Guaçu.
E os principais tributários dela são dois:
- o rio Embu-Guaçu
- o rio Embu-mirim
Leia com atenção: o rio que dá nome a esta cidade é um dos principais alimentadores da represa que abastece mais de 4 milhões de pessoas.
Não é uma contribuição simbólica. É a fonte.
O nome, e a ilha que não era ilha
O nome original era M'Boy-Guaçu, de origem indígena: M'Boy é cobra, Guaçu é grande.
Cobra grande.
É o mesmo M'Boy de Embu das Artes, a vizinha — e as duas herdam a mesma discussão etimológica, com três leituras convivendo: cobra grande, rio das cobras (mboîa + 'y), ou uma planta nativa chamada embu, caso em que "guaçu" significaria apenas "o embu grande".
Mas há um nome anterior que é uma imagem perfeita do lugar: a região teria sido chamada de Ilha de Itararé, porque a quantidade de rios dava a impressão de que aquilo era uma grande ilha fluvial.
Uma ilha feita de rios.
Quatro séculos depois, é exatamente por causa desses rios que a cidade importa para a metrópole.
O preço de ser cidade de manancial
Aqui está a parte que nenhum dos 4 milhões de beneficiados conhece.
Ser área de manancial não é um título honorífico. É uma restrição legal de uso e ocupação do solo.
Significa que a cidade não pode crescer como as vizinhas, porque a água de milhões de pessoas depende do que se faz com aquele terreno.
E a comparação é dura:
- Taboão da Serra, também filha de Itapecerica, emancipada em 1959, virou a cidade mais densa do estado — cerca de 580 estabelecimentos comerciais por km²
- Embu das Artes, a vizinha de nome parecido, tem 8.071 estabelecimentos
- Embu-Guaçu tem 2.111
Quase quatro vezes menos que a vizinha de nome irmão.
E não é por falta de iniciativa de ninguém. É porque a lei ambiental — corretamente — impede.
A cidade abriu mão do próprio crescimento para que a região tivesse água. É um papel ingrato, e ele é dividido com Itapecerica da Serra, que enfrenta exatamente a mesma limitação pelo mesmo motivo.
A emancipação foi em 1964, não em 1959
Vale uma correção que circula bastante errada.
Embu-Guaçu foi elevada a município pela Lei Estadual nº 8.092, de 28 de fevereiro de 1964, desmembrada de Itapecerica da Serra. A instalação do município ocorreu em 28 de março de 1965.
É a mesma Lei nº 8.092/64 que criou Carapicuíba — uma única lei estadual redesenhando o mapa de mais de um município da região metropolitana ao mesmo tempo.
A ferrovia que sumiu
Outro capítulo pouco lembrado: a cidade teve trem por 63 anos.
A estação ferroviária de Embu-Guaçu foi inaugurada em 5 de abril de 1934.
Em 1937, foi inaugurado o ramal Mairinque–Santos, que cruzava o município e facilitava o transporte de café do interior paulista até o porto.
O serviço de passageiros funcionou até novembro de 1997.
Muita gente que mora na cidade hoje pegou aquele trem. É memória viva, não arqueologia — e o encerramento mudou a vida de quem dependia dele, como aconteceu em dezenas de cidades paulistas na mesma década.
Linha do tempo
- 1849 — nasce Emília Pedrozo de Moraes, em Itapecerica da Serra
- c. 1865 — casada aos 16 anos, recebe as terras da Fazenda da Ilha como dote
- 1906 — começa a construção da Represa de Guarapiranga, pela Light
- 05/04/1934 — inauguração da estação ferroviária
- 1937 — inauguração do ramal Mairinque–Santos
- 28/02/1964 — Lei Estadual nº 8.092 cria o município
- 28/03/1965 — instalação do município
- novembro/1997 — fim do transporte de passageiros na estação
A cidade nasceu de um dote de casamento
A história de fundação de Embu-Guaçu é a mais improvável do guia, e vale relembrar aqui.
Emília Pedrozo de Moraes nasceu em 1849, em Itapecerica da Serra, filha do capitão Manoel José de Moraes. Aos dezesseis anos, o pai arranjou seu casamento com José Pires de Albuquerque, tropeiro.
Como parte do dote, ela recebeu extensas terras da Fazenda da Ilha, na margem direita do rio Embu-Guaçu. No fim do século XIX o casal se estabeleceu por ali, perto do Rio Santa Rita.
Uma adolescente de 1865 recebeu um pedaço de chão como presente de casamento — um casamento que não foi ela quem decidiu.
Cento e sessenta anos depois, aquele chão é uma cidade de mais de 70 mil pessoas, e o rio que corta aquelas terras enche a represa da zona sul de São Paulo.
A história completa está no artigo sobre a origem do nome de Embu-Guaçu.
O que o acervo do guia mostra
Este guia mapeia 2.111 estabelecimentos em Embu-Guaçu, dos quais 1.920 têm telefone, distribuídos por 135 bairros.
O perfil:
- Serviços e profissionais — 242
- Bares e restaurantes — 221
- Mercados e alimentos — 188
- Igrejas e templos — 183
Igrejas e templos em quarto lugar, quase empatado com mercados.
Nas cidades grandes do guia — Guarulhos, Osasco, Santo André — essa categoria não chega perto do topo. Aqui está entre as quatro maiores, e o mesmo padrão se repete em Juquitiba e Miracatu.
O que isso conta: em município de território grande e núcleos distantes, o templo de bairro é frequentemente o único equipamento coletivo perto de casa. Não é só religião — é onde a comunidade se encontra, porque não há outro lugar.
Quem precisa achar alguém aqui pode ver o guia completo de Embu-Guaçu, mercados e alimentos, serviços e profissionais, construção e reforma e bares e restaurantes.
Comparando com as vizinhas
Com Itapecerica da Serra: a mãe, e a companheira de destino. As duas seguram a água da Guarapiranga e as duas pagam com o crescimento que não puderam ter.
Com Embu das Artes: dividem a raiz do nome e a discussão etimológica. Embu das Artes tem quase quatro vezes mais estabelecimentos.
Com Carapicuíba: criadas pela mesma lei estadual, a 8.092/64. Uma virou cidade-dormitório de 400 mil habitantes; a outra não pôde crescer.
Com Juquitiba e São Lourenço da Serra: as três filhas "verdes" de Itapecerica — as que ficaram com mata, água e restrição de uso.
O que ninguém explica
- Onde ficava exatamente a Fazenda da Ilha? O bairro leva o nome, mas os limites da propriedade original não foram reconstituídos.
- O que aconteceu com Emília depois? Ela dá origem à cidade e some dos registros.
- Existe alguma compensação por ser área de manancial? A cidade presta um serviço ambiental a milhões de pessoas e arca sozinha com o custo de não poder crescer.
O que fica
Uma ilha feita de rios. Uma cobra grande no nome. Uma menina de dezesseis anos que recebeu de dote as terras onde a cidade nasceria. Uma estação de trem que funcionou por 63 anos.
E, atravessando tudo isso, a água.
Em 1906, uma companhia canadense começou a represar aqueles rios para gerar energia. Hoje o que sai dali é a água que chega, sem que ninguém pense a respeito, na torneira de mais de quatro milhões de pessoas.
Embu-Guaçu é a cidade mais silenciosamente essencial da Grande São Paulo — e paga por isso com o crescimento que nunca pôde ter.
Leia também
Todos os artigos-
O bairro · São Lourenço da Serra
São Lourenço da Serra nasceu na Aldeinha — que hoje tem 2 comércios entre os 579 da cidade
Dois caçadores chegaram no século XIX e acharam uma capela numa aldeia abandonada por causa da febre do ouro. Resolveram ficar. O lugar virou "Vilarejo dos Borbas", depois cidade — e o ponto de origem esvaziou.
-
O que só existe aqui · Barueri
O projeto de Alphaville foi vetado pelo prefeito — e o plano B virou o maior polo de serviços do estado
Em 1973, dois engenheiros compraram 4,9 milhões de m² em Barueri para fazer um bairro residencial. A prefeitura barrou. O que eles fizeram em seguida mudou a economia da cidade para sempre.
-
O que só existe aqui · Miracatu
A banana do Vale do Ribeira ganhou selo de origem — e Miracatu é um dos 13 municípios
São 850 mil toneladas por ano, quase 80% da produção paulista, e cerca de 50 mil empregos. A Indicação Geográfica coloca a região no mesmo tipo de proteção que o champanhe francês.