O que só existe aqui · Taboão da Serra
A maior avenida de Taboão foi aberta na mão por um japonês que fugiu do trabalho escravo no café
Kizaemon Takeuti chegou a Santos aos 20 anos, recusou a lavoura e foi plantar batata no Pirajuçara. Ele e os companheiros derrubaram árvores e carregaram terra para abrir a via que hoje é o principal corredor da cidade.
Quem dirige pela Estrada Kizaemon Takeuti — o maior corredor comercial e de trânsito de Taboão da Serra — provavelmente nunca se perguntou de quem é esse nome.
A resposta é boa demais para continuar desconhecida.
Kizaemon Takeuti foi um imigrante japonês que chegou ao Brasil aos 20 anos, recusou o trabalho quase escravo nas lavouras de café e abriu aquela estrada com as próprias mãos.
1924: a chegada, e a recusa
Ele desembarcou em Santos com 20 anos de idade, vindo do Japão.
O destino previsto para praticamente todo imigrante japonês daquele período era o mesmo: as lavouras de café do interior paulista, em condições que os registros descrevem sem meias palavras como trabalho quase escravo.
Takeuti recusou.
Em 1924, chegou ao Vale do Pirajuçara, em Taboão, para cultivar legumes e verduras.
Vale entender o tamanho dessa decisão. Um rapaz de vinte anos, sozinho, sem falar a língua, num país que não era o dele, recusando o único arranjo de trabalho que lhe havia sido oferecido — e indo tentar sozinho num vale de mato perto da capital.
O que ele plantou
Takeuti foi produtor de batatas no que hoje é o Jardim Roberto.
E é reconhecido como um dos "pais" do Cinturão Verde de São Paulo — o conjunto de produtores que passou a abastecer a capital de hortaliça e legume.
Repare na coincidência regional: no mesmo período, no Alto Tietê, imigrantes japoneses faziam o mesmo em Suzano e Mogi das Cruzes. Em Cotia, 83 produtores de batata fundariam a maior cooperativa agrícola da América Latina em 1927.
Batata e hortaliça, plantadas por imigrantes japoneses, em três pontas diferentes da Grande São Paulo, na mesma década.
Taboão da Serra é uma dessas pontas, e quase ninguém sabe.
A estrada aberta na mão
Aqui está o trecho que merece ser lido devagar.
Takeuti e os companheiros derrubaram árvores, carregaram terra e abriram o solo com os próprios punhos, criando uma via entre o que hoje é o Centro Cultural do Pirajuçara e o limite de Taboão da Serra.
Não foi obra pública. Não foi contrato. Não foi máquina.
Foi um grupo de agricultores imigrantes abrindo caminho porque precisavam escoar o que plantavam.
Hoje aquele traçado é o maior corredor comercial e de trânsito da cidade — a via por onde passa boa parte dos 270 mil habitantes de Taboão todos os dias.
O decreto de 1970
Ele morreu em 1969.
No ano seguinte, pelo decreto municipal nº 036, de 18 de setembro de 1970, de autoria do prefeito Ary Daú, a antiga Estrada do Pirajussara passou a se chamar Kizaemon Takeuti.
A homenagem veio um ano depois da morte. É o padrão brasileiro — reconhecer quando já não dá para agradecer.
Vinte anos mais tarde, em 18 de junho de 1990, a cidade inaugurou também um monumento em homenagem aos imigrantes japoneses de Taboão da Serra.
Uma pergunta que este guia deixou em aberto
Vale registrar uma coisa.
Quando escrevemos o artigo sobre a origem do nome de Taboão da Serra, listamos ao final três perguntas sem resposta. Uma delas era exatamente esta: de onde vinha o nome da Estrada Kizaemon Takeuti?
A resposta apareceu na apuração seguinte, e ela é melhor do que a pergunta sugeria. Não era só um nome japonês numa placa: era o homem que abriu a estrada.
A cidade que ele ajudou a criar
Taboão da Serra começou por volta de 1910, com um vilarejo chamado Vila Poá, nas margens dos córregos Poá e Pirajussara — poucas casas, a maioria chácaras que produziam batata, cenoura e mandioca.
Takeuti chegou catorze anos depois, em 1924, e foi um dos que fizeram aquela produção existir em escala.
A emancipação viria em 19 de fevereiro de 1959, articulada pela chamada Comissão dos 9. E em 1963 a cidade elegeria Laurita Ortega Mari, a primeira prefeita do Brasil no período democrático iniciado em 1946.
Chácara de batata, imigração japonesa, emancipação e um primeiro nacional — tudo em cinquenta anos.
Os pioneiros do Pirajuçara
Takeuti não estava sozinho, e o Vale do Pirajuçara tem uma história de imigração japonesa que a urbanização apagou quase por completo.
Aquele vale — hoje um corredor urbano contínuo entre Taboão e a zona sul da capital — era, nos anos 1920 e 1930, área de chácara e horta.
Os japoneses que se instalaram ali fizeram o mesmo movimento de Takeuti: recusaram o café do interior, procuraram terra perto da capital e passaram a produzir hortaliça para vender em São Paulo.
Foi essa escolha, repetida por centenas de famílias em várias frentes da região metropolitana, que criou o Cinturão Verde — não como política pública, mas como soma de decisões individuais de gente que preferiu plantar perto do mercado a colher longe dele.
O monumento inaugurado em 18 de junho de 1990 homenageia exatamente essa história — e a data não é aleatória: 18 de junho é o Dia da Imigração Japonesa no Brasil, marcando a chegada do navio Kasato Maru ao porto de Santos, em 1908.
Takeuti chegou dezesseis anos depois daquele primeiro navio.
Linha do tempo
- c. 1910 — nasce a Vila Poá, com chácaras de batata, cenoura e mandioca
- 1924 — Kizaemon Takeuti chega ao Vale do Pirajuçara, aos 20 anos
- anos seguintes — ele e os companheiros abrem a via na mão; produção de batata no atual Jardim Roberto
- 19/02/1959 — emancipação de Itapecerica da Serra
- 06/10/1963 — Laurita Ortega Mari é eleita prefeita
- 1969 — morte de Kizaemon Takeuti
- 18/09/1970 — decreto nº 036 renomeia a Estrada do Pirajussara
- 18/06/1990 — inauguração do monumento à imigração japonesa
O que o acervo do guia mostra
Este guia mapeia 11.609 estabelecimentos em Taboão da Serra, dos quais 10.623 têm telefone, distribuídos por 261 bairros.
Agora faça a conta que importa: 11.609 estabelecimentos em cerca de 20 km².
Dá aproximadamente 580 estabelecimentos por quilômetro quadrado — a maior concentração comercial de todas as vinte cidades do guia, com folga.
Para comparar, Miracatu tem cerca de 0,6 por km². Três ordens de grandeza de diferença, no mesmo estado e no mesmo guia.
O perfil:
- Serviços e profissionais — 1.574
- Bares e restaurantes — 1.305
- Beleza e bem-estar — 1.223
- Outros — 1.024
E boa parte desse comércio está justamente ao longo do corredor que Takeuti ajudou a abrir. A via feita para escoar batata virou a rua onde a cidade inteira faz compras.
Dá para navegar em o guia completo de Taboão da Serra, serviços e profissionais, bares e restaurantes, beleza e bem-estar e mercados e alimentos.
Comparando com as vizinhas
Com Cotia: os dois casos de imigração japonesa produtiva no oeste da região. Cotia organizou-se em cooperativa e chegou a 15 mil cooperados; Taboão urbanizou-se e a roça sumiu debaixo do asfalto.
Com Suzano e Mogi das Cruzes: a mesma década, a mesma origem, o mesmo produto — e, no Alto Tietê, a agricultura resistiu. Suzano é a única cidade do guia em que mercados aparecem em segundo lugar.
Com Embu das Artes: vizinhas coladas, ambas filhas de Itapecerica, com perfis comerciais quase idênticos no acervo.
O que ninguém explica
- Quantos vieram com ele? Os registros falam em Takeuti e "os companheiros", sem nomes.
- Por que o decreto veio só em 1970? Ele morreu em 1969, e a estrada existia havia quase cinquenta anos.
- O que restou do Jardim Roberto agrícola? O bairro onde ele plantava batata é hoje área urbana consolidada.
O que fica
Um rapaz de vinte anos desembarcou em Santos em 1924 e disse não ao único trabalho que lhe ofereceram.
Foi para um vale de mato perto da capital, plantou batata e, junto com outros, derrubou árvore e carregou terra até abrir um caminho por onde pudesse escoar a colheita.
Ele morreu em 1969, e no ano seguinte um decreto deu o nome dele àquela estrada.
Hoje ela é o principal corredor de uma cidade de 270 mil habitantes — a mais densa do estado de São Paulo.
Todo dia, dezenas de milhares de pessoas passam por uma via que existe porque um imigrante de vinte anos preferiu o mato a aceitar o que estava reservado para ele.
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