O que a cidade come · Mogi das Cruzes
A cidade que alimenta São Paulo há quatro séculos tem a menor densidade de açougue do guia
Mogi das Cruzes é a capital das orquídeas, produz caqui e abastece a região desde o período colonial. E tem 2,0 açougues por mil estabelecimentos, o último lugar entre as vinte cidades. A explicação não é falta de carne.
Mogi das Cruzes planta desde 1611. Cana no período colonial, café, fumo e algodão no século XIX, arroz na várzea, e depois verdura, legume, fruta e orquídea com a imigração japonesa — história que contamos no artigo sobre as quatro lavouras.
É uma cidade que existe, há quatro séculos, para produzir o que a capital come.
E ela tem a menor densidade de açougue entre as vinte cidades deste guia: 2,0 por mil estabelecimentos.
Cinquenta açougues em 25.273 comércios.
O ranking do açougue
Açougues por mil estabelecimentos:
- Miracatu — 9,3
- São Lourenço da Serra — 5,2
- Ibiúna — 4,8
- Itaquaquecetuba — 4,7
- ...
- Osasco — 2,2
- Mogi das Cruzes — 2,0
- Barueri — 1,3
Mogi está no fundo da tabela, junto com Barueri e Osasco — e muito longe das cidades pequenas do Vale do Ribeira e da serra.
Por que isso não significa falta de carne
Aqui está a leitura que este guia vem repetindo, e que Mogi confirma pela terceira vez.
O açougue independente é um indicador de ausência de rede de supermercado, não de consumo de carne.
Onde há hipermercado e atacarejo, a carne está lá dentro — no balcão do supermercado, embalada ou cortada na hora. O açougue de rua vira especialista, para quem quer corte melhor ou atendimento, e o número dele cai.
Onde não há rede, cada coisa fica numa loja. Foi o que mostramos em Miracatu, que lidera o ranking com sete açougues em 752 comércios porque a rede nunca chegou.
Mogi é o oposto. Com 25.273 estabelecimentos e mais de 450 mil habitantes, ela é grande o bastante para ter todo tipo de rede — e tem 149 mercados e supermercados, 5,9 por mil.
A carne de Mogi não sumiu. Ela mudou de endereço.
O paradoxo da cidade que produz
E aí vem o ponto que dá título ao artigo.
Existe uma intuição comum — e errada — de que cidade produtora tem comércio especializado no que produz. Que a cidade da fruta teria muita quitanda, a cidade do gado teria muito açougue.
Mogi mostra por que não funciona assim.
Ela tem 20 hortifrútis, ou 0,8 por mil — a mesma taxa de Osasco, de Santo André e de Guarulhos. Nada de excepcional.
O motivo é simples: produção agrícola não vira varejo local. O que sai das hortas de Mogi vai para o CEAGESP, para a rede de supermercados e para as centrais de distribuição — e de lá se espalha pela região metropolitana inteira.
O produtor não vende na esquina. Vende no atacado.
É a mesma coisa que já vimos em Ibiúna, que produz um quarto da alface do estado, e em Miracatu, com a banana de indicação geográfica.
A cidade que planta não é a cidade que vende no varejo. São duas economias diferentes, e só uma delas aparece num guia comercial.
O que Mogi tem, então
O perfil completo do ramo, em 25.273 estabelecimentos:
- Restaurantes e similares — 353 (14,0 por mil)
- Lanchonetes — 328 (13,0)
- Bares — 164 (6,5)
- Mercados e mercearias — 149 (5,9)
- Pizzarias — 129 (5,1)
- Fornecimento de alimentos preparados — 107 (4,2)
- Comércio de bebidas — 87 (3,4)
- Padarias — 70 (2,8)
- Açougues — 50 (2,0)
- Restaurantes japoneses — 39 (1,5)
Repare nos 39 restaurantes japoneses, ou 1,5 por mil — acima da média do guia e da capital.
Isso, sim, é herança direta da história agrícola. Os primeiros imigrantes japoneses chegaram às propriedades do Cocuera e refundaram a agricultura da cidade com verdura, legume, fruta e ovo. A cozinha veio junto com a lavoura, e ficou.
Mogi é hoje uma cidade de serviço e saúde — com saúde na quinta maior categoria municipal —, polo regional do Alto Tietê, com apenas 1,9% de indústria.
Quatro séculos de agricultura, e o comércio de rua é o de uma cidade-polo de serviços.
Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Mogi das Cruzes, mercados e alimentos, bares e restaurantes e saúde.
Uma ressalva sobre o método
Açougue, hortifrúti, padaria, adega, lanchonete, restaurante e marmita vêm do CNAE declarado à Receita Federal. Bar, pizzaria, mercado e restaurante japonês vêm do rótulo de categoria do acervo.
O CNAE cobre 76% das fichas do ramo — os números são piso, não total.
E há uma limitação que este artigo não consegue superar: o acervo não registra produção agrícola. Ele conta comércio com endereço, telefone e CNPJ. A horta, o sítio e a estufa não entram — mesmo sendo a atividade que define Mogi há quatrocentos anos.
Ou seja: o que este texto mede é o varejo de comida de Mogi, não a agricultura dela. As duas coisas quase não se tocam, e é justamente esse o argumento.
Onde estão os 50 açougues
Descendo ao bairro, os açougues de Mogi aparecem assim:
- Centro — 10
- Jundiapeba — 6
- Jardim Universo — 5
- Vila Suíssa — 3
- Vila Oliveira — 3
O segundo colocado é conhecido desta série.
Jundiapeba é o distrito que se chamava Santo Ângelo e trocou de nome em 1944, por ficar entre os rios Jundiaí e Taiaçupeba. É o terceiro bairro de Mogi em comércio, e o único recorte deste guia em que construção e reforma lidera — a assinatura da autoconstrução, da casa que se levanta aos poucos. Contamos aqui.
Seis açougues num distrito afastado da sede, contra dez no Centro de uma cidade de 25 mil comércios.
Proporcionalmente, Jundiapeba tem muito mais açougue que Mogi. E não é coincidência: é o mesmo padrão de todo núcleo distante — onde a rede de supermercado não chega com força, o comércio especializado sobrevive.
O distrito se comporta, nos dados, como cidade pequena. Que é exatamente o que ele é.
As duas filhas superam a mãe
Vale fechar com uma comparação que atravessa esta rodada inteira.
Mogi das Cruzes gerou Suzano e Itaquaquecetuba — as duas foram distritos dela antes de virarem municípios, em 1948 e 1954.
E nos dois indicadores de comércio de bairro, as filhas batem a mãe com folga:
| | Padaria/mil | Açougue/mil | |---|---|---| | Suzano | 5,7 | 3,7 | | Itaquá | 5,6 | 4,7 | | Mogi | 2,8 | 2,0 |
Suzano tem o dobro da densidade de padaria da mãe. Itaquá tem mais que o dobro em açougue.
A explicação é a mesma dos outros casos: Mogi é maior, mais rica e mais diversificada — e tem rede de supermercado, comércio de shopping e um acervo cheio de atividades que não são comércio de bairro.
As filhas, mais pobres e mais residenciais, mantiveram o varejo de esquina.
É o mesmo mecanismo que faz São Paulo perder para a periferia nesses indicadores. Quanto mais complexa a economia, menos peso tem o comércio que alimenta o morador.
Comparando com os vizinhos
Com Itaquaquecetuba: a filha que saiu de Mogi em 1954 tem 4,7 açougues por mil — mais que o dobro da mãe. Itaquá é mais pobre, mais densa e tem menos rede de supermercado.
Com Suzano: a outra filha de Mogi lidera o guia em padaria, com 5,7 por mil, contra 2,8 da mãe. As duas filhas superam a matriz nos dois indicadores de comércio de bairro.
Com Miracatu: 9,3 açougues por mil contra 2,0. As duas produzem comida; uma tem rede de supermercado e a outra não.
O que ninguém explica
- Quantos produtores de Mogi vendem direto ao consumidor? O acervo não alcança feira nem venda de sítio.
- Desde quando o açougue encolheu? Sem série histórica, não há como datar a substituição pelo supermercado.
- Os 39 japoneses estão perto do Cocuera? O cadastro de bairro não permite o cruzamento.
O que fica
Mogi das Cruzes planta há quatrocentos e quinze anos.
Trocou de lavoura quatro vezes, alimentou a capital em todas elas, e hoje é a capital nacional das orquídeas.
E tem cinquenta açougues — a menor densidade entre vinte e uma cidades e quase um milhão e meio de estabelecimentos mapeados.
Não é contradição. É a diferença entre produzir e vender no varejo.
O que sai das hortas de Mogi entra em caminhão, vai para o entreposto e é distribuído para a região metropolitana inteira. Não passa pelo açougue da esquina, e nem pela quitanda do bairro.
A cidade que alimenta São Paulo compra a própria carne no supermercado, como todo mundo.
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