O que só existe aqui · Osasco
A Osasco italiana tem 1.125 habitantes — e é cidade-irmã da nossa, que tem 700 mil
Existe uma Osasco no Piemonte, a 37 km de Turim. É de lá que veio Antonio Agù, aos 13 anos. As duas cidades assinaram um acordo de irmandade, e a diferença de tamanho entre elas é de seiscentas vezes.
Existe uma cidade chamada Osasco no norte da Itália.
Ela tem 1.125 habitantes.
A nossa tem mais de setecentos mil — e leva o nome dela porque um menino de treze anos saiu de lá em 1858 e nunca esqueceu.
As duas são, hoje, oficialmente cidades-irmãs.
Onde fica a Osasco original
É uma comuna da região do Piemonte, na província de Turim.
Fica a 37 quilômetros a sudoeste de Turim e a 530 quilômetros a noroeste de Roma.
Para dimensionar: 37 km é aproximadamente a distância entre a Osasco brasileira e Mogi das Cruzes. A comuna italiana inteira caberia, em população, num único quarteirão do centro de Osasco no Brasil.
O menino que saiu de lá
Antonio Giuseppe Agù nasceu em 25 de outubro de 1845, no povoado de Osasco, pertencente ao distrito de San Secondo di Pinerolo, província de Turim.
Chegou ao Brasil em 1858, com treze anos.
Trabalhou numa ferrovia. Trabalhou num engenho no interior paulista. Em 1872, mudou-se para a cidade de São Paulo atrás de negócio próprio — e comprou uma olaria no quilômetro 16 da Estrada de Ferro Sorocabana, exatamente onde hoje funciona a Estação Osasco.
Em volta daquele forno de tijolo cresceu tudo o que veio depois.
A cena de 1895
Os dirigentes da Sorocabana quiseram batizar a nova estação com o nome do principal empreendedor da região.
Agù agradeceu e disse que não.
Pediu que a homenagem fosse para a cidade onde havia nascido, na Itália.
Ele tinha 50 anos, tinha saído de lá aos 13 e nunca mais morara no lugar. Quando surgiu a chance de escrever algo permanente no mapa, não escreveu o próprio nome: escreveu o nome de casa.
A história completa dessa recusa está no artigo sobre a origem do nome de Osasco.
E então, um século depois, as duas se encontraram
Aqui está a parte que quase ninguém sabe.
As duas cidades assinaram um acordo de irmandade — geminação, no termo técnico.
A parceria já passou dos 35 anos, e foi celebrada em sessão solene junto com o aniversário de emancipação de Osasco. A relação é descrita como um exemplo de cooperação internacional que fortalece identidades e abre caminho para novas parcerias.
E a cidade também entronizou um busto de Antonio Agù, num reconhecimento formal ao fundador.
Há ainda uma terceira ponta nessa rede: Rafard, no interior paulista, também integra a irmandade — outra cidade ligada à mesma história de imigração italiana.
O que significa uma cidade-irmã
Vale explicar, porque o termo aparece muito e raramente é definido.
Geminação é um acordo formal entre municípios de países diferentes, geralmente ligados por história, imigração ou economia. Ele não transfere dinheiro nem cria obrigação legal pesada — cria canal: intercâmbio cultural, educacional, às vezes comercial.
No caso de Osasco, o vínculo não é protocolar. É genealógico. Uma cidade existe porque alguém saiu da outra.
O detalhe que torna tudo mais improvável
Some as duas pontas.
De um lado, uma comuna do Piemonte com 1.125 habitantes — do tamanho de um bairro pequeno, num vale ao pé dos Alpes.
Do outro, uma cidade brasileira com mais de 700 mil pessoas, densa, industrial, que foi palco de um dos episódios mais importantes do movimento operário do país.
A diferença de população é de aproximadamente 600 vezes.
E a maior das duas leva o nome da menor.
Não é comum. Cidades grandes costumam batizar coisas menores, não o contrário.
A cidade que conta a própria história toda semana
Há um detalhe sobre Osasco que diz muito sobre como ela lida com a própria origem.
A prefeitura mantém um programa chamado "Nossa História", que já passou da 443ª edição.
Quatrocentas e quarenta e três edições. É um programa de memória municipal que atravessou administrações diferentes e continuou existindo — algo raro em cidade brasileira, onde política de memória costuma ser a primeira a ser cortada.
Numa das edições, o programa reuniu três países para tratar das conexões da cidade: Brasil, Itália e Armênia — esta última por causa de Hirant Sanazar, filho de imigrantes armênios e primeiro prefeito de Osasco, eleito depois da emancipação de 1962.
Uma cidade batizada por um italiano, governada primeiro por um descendente de armênios, e que mantém um programa semanal para contar isso.
Osasco não é uma cidade feita por gente que veio de longe por acaso. É uma cidade que sabe disso e repete.
Linha do tempo
- 25/10/1845 — nasce Antonio Giuseppe Agù, no povoado de Osasco, Piemonte
- 1858 — chega ao Brasil, aos 13 anos
- 1872 — muda-se para São Paulo e compra a olaria do km 16
- 1895 — a estação é batizada de Osasco, a pedido dele
- 1952 — começam as manifestações pela emancipação
- 19/02/1962 — emancipação político-administrativa
- 16/07/1968 — a greve da Cobrasma, último levante operário antes do AI-5
- fim dos anos 1990 — assinatura do acordo de irmandade entre as duas Osascos
A briga de dez anos para existir
Entre a estação de 1895 e a irmandade com a Itália há um capítulo duro, e ele explica por que a data de emancipação é comemorada com tanto peso.
Osasco levou dez anos para conseguir se separar de São Paulo.
As primeiras manifestações começaram em 1952. O movimento enfrentou resistência, contraposições e empecilhos — e um plebiscito que os registros da época descrevem como conturbado.
Só em 19 de fevereiro de 1962 veio a emancipação político-administrativa.
Dez anos de campanha para uma cidade que hoje tem quase 30 mil estabelecimentos comerciais e estrutura de sobra para se sustentar sozinha.
E vale notar o que aconteceu seis anos depois da independência: em 16 de julho de 1968, a sirene extra da Cobrasma tocou às nove da manhã, e três mil trabalhadores ocuparam a fábrica. Foi o último levante sindical antes do AI-5.
Uma cidade que levou uma década para conquistar o direito de existir sozinha e, seis anos depois, entrou para a história do país por parar de trabalhar.
O que o acervo do guia mostra
Este guia mapeia 29.163 estabelecimentos em Osasco, dos quais 26.751 têm telefone, distribuídos por 372 bairros.
O perfil:
- Serviços e profissionais — 4.680
- Bares e restaurantes — 3.271
- Beleza e bem-estar — 2.776
- Outros — 2.635
Repare no que não aparece: indústria.
A cidade que parou por três dias em 1968 por causa de uma greve metalúrgica, que abrigava Cobrasma, Eternit, Osram, Cimaf e Braseixos, é hoje — na contagem do que existe — uma cidade de serviço e comércio de rua.
São quase 30 mil estabelecimentos num território pequeno e denso. O efeito prático é o de sempre: você conhece o seu bairro e mais nada.
Dá para navegar o resto em o guia completo de Osasco, serviços e profissionais, bares e restaurantes, saúde e moda e vestuário.
Comparando com as vizinhas
Com Barueri: vizinhas e complementares. Osasco virou o centro comercial e de serviços da região; Barueri, o centro corporativo — e, no caso de Barueri, por causa de um projeto vetado e de uma alíquota de 2%.
Com Carapicuíba: as três cidades — Osasco, Barueri e Carapicuíba — fazem divisa e tiveram destinos econômicos completamente diferentes, decididos em poucas décadas.
Com Mauá: as duas devem o nome a um homem. Mauá leva o do maior empreendedor do Império brasileiro; Osasco, o de um vilarejo italiano que o seu fundador se recusou a trocar pelo próprio sobrenome.
O que ninguém explica
- Agù chegou a voltar à Osasco italiana? Não há registro claro. O homem que espalhou o nome do próprio vilarejo por um país inteiro pode nunca ter revisto o lugar.
- O que sabem, lá, sobre a cidade daqui? A comuna de 1.125 habitantes tem uma xará com 700 mil pessoas do outro lado do Atlântico. Como isso é contado por lá?
- Onde estão os descendentes da família Agù? O sobrenome aparece em registros locais, e a genealogia completa nunca foi publicada.
O que fica
Num vale do Piemonte, a 37 quilômetros de Turim, existe um povoado com pouco mais de mil habitantes.
Em 1858, um menino de treze anos saiu de lá sozinho, atravessou o oceano e foi trabalhar em ferrovia e engenho num país cuja língua não falava.
Trinta e sete anos depois, quando lhe ofereceram a chance de ser eterno, ele preferiu dar o nome de casa a uma estação de trem no meio do mato.
Hoje as duas cidades são irmãs, e uma delas tem seiscentas vezes o tamanho da outra.
Toda vez que alguém diz "eu sou de Osasco", está repetindo, sem saber, a saudade de um adolescente que nunca mais voltou.
Leia também
Todos os artigos-
O bairro · São Lourenço da Serra
São Lourenço da Serra nasceu na Aldeinha — que hoje tem 2 comércios entre os 579 da cidade
Dois caçadores chegaram no século XIX e acharam uma capela numa aldeia abandonada por causa da febre do ouro. Resolveram ficar. O lugar virou "Vilarejo dos Borbas", depois cidade — e o ponto de origem esvaziou.
-
O que só existe aqui · Barueri
O projeto de Alphaville foi vetado pelo prefeito — e o plano B virou o maior polo de serviços do estado
Em 1973, dois engenheiros compraram 4,9 milhões de m² em Barueri para fazer um bairro residencial. A prefeitura barrou. O que eles fizeram em seguida mudou a economia da cidade para sempre.
-
O que só existe aqui · Miracatu
A banana do Vale do Ribeira ganhou selo de origem — e Miracatu é um dos 13 municípios
São 850 mil toneladas por ano, quase 80% da produção paulista, e cerca de 50 mil empregos. A Indicação Geográfica coloca a região no mesmo tipo de proteção que o champanhe francês.