Como era antes · Osasco
Osasco comemora a emancipação em 1962 — mas o decreto que criou a cidade é de 1958
Foram dois plebiscitos, um perdido por cem votos e outro com 30% de comparecimento e defunto votando. Antes disso, 80 mil moradores pagavam 4 milhões de cruzeiros de imposto e tinham uma escola pública.
Todo 19 de fevereiro, Osasco comemora o aniversário da emancipação.
A data está certa. O ano é que confunde: 19 de fevereiro de 1962.
Só que o município de Osasco já tinha sido criado três anos antes — por um decreto assinado no último dia de 1958.
Entre uma coisa e outra, houve dois plebiscitos, uma eleição suspensa na véspera e denúncias de que até defunto tinha votado.
Esta é a história de como era Osasco quando ainda era um pedaço de São Paulo.
Oitenta mil pessoas e uma escola
Comecemos pelo dado que explica tudo o que veio depois.
Um jornal de 1948, citado pelo arquivo da Câmara Municipal, descrevia assim a situação do distrito:
"Oitenta mil habitantes, que contribuem com mais de quatro milhões de cruzeiros para os cofres públicos, dispõem apenas de uma escola pública."
Leia devagar.
Oitenta mil pessoas. Quatro milhões de cruzeiros em imposto. Uma escola.
É esse o retrato de Osasco como distrito da capital: um lugar grande o bastante para ser cidade, produtivo o bastante para sustentar o caixa público, e tratado como periferia de um município que tinha outras prioridades.
Movimento emancipacionista não nasce de orgulho cívico. Nasce de conta que não fecha.
O primeiro plebiscito: perdido por cem votos
Em 13 de dezembro de 1953, Osasco foi às urnas pela primeira vez.
O arquivo da Câmara é direto sobre o que aconteceu: "começou uma história de suspeitas e fraudes eleitorais. O 'não' venceu o 'sim' por uma diferença de pouco mais de cem votos."
Cem votos.
Num distrito de dezenas de milhares de moradores, a independência foi rejeitada por uma margem que caberia num ônibus.
E o detalhe que torna esse resultado suspeito é geográfico: o plebiscito não era só de Osasco. Votavam também outros distritos envolvidos na questão — e o interesse de quem estava de fora nem sempre coincidia com o de quem morava ali.
O segundo plebiscito: 30% e um morto
Cinco anos depois veio a segunda tentativa, e ela é ainda mais estranha.
Segundo o arquivo da Câmara, dos 21 mil eleitores com direito a voto, somente 6.481 — 30% — compareceram às urnas.
Sete em cada dez eleitores não foram votar na independência da própria cidade.
Dessa vez o "sim" venceu. Mas com denúncias graves, que a Câmara publica sem eufemismo: "Até mortos votaram no plebiscito de Osasco", com casos nominados — Benedito Soares de Melo, falecido no dia 9 de dezembro, mas que havia votado.
Um homem morto em 9 de dezembro consta como tendo comparecido às urnas.
É o tipo de episódio que a história oficial de muitas cidades prefere apagar. Osasco publica no site da própria Câmara.
O decreto de 1958
E aí vem o fato que quase ninguém sabe.
"No último dia do ano de 1958, o decreto-lei número 5.121, assinado pelo então governador de São Paulo, Carvalho Pinto, criava o município de Osasco."
31 de dezembro de 1958.
Juridicamente, é aí que Osasco passa a existir como município.
Mas cidade não é só decreto: é prefeito, é câmara, é orçamento. E isso só veio com a primeira eleição, em 1962 — quando 23.382 eleitores compareceram às urnas e 9.310 deles escolheram Hirant Sanazar (PRT) para prefeito.
No dia 19 de fevereiro de 1962, tomaram posse o primeiro prefeito, o primeiro vice e os primeiros vereadores. É essa data que a cidade comemora.
Repare no salto de participação: de 6.481 votantes no plebiscito de 1958 para 23.382 na eleição de 1962. Quase quatro vezes mais gente.
Quando estava em jogo apenas a ideia da independência, a maioria ficou em casa. Quando estava em jogo quem ia governar, a cidade inteira apareceu.
Uma nota sobre as versões
Sendo transparente, como esta série passou a ser: circulam por aí números diferentes.
Há textos que atribuem ao plebiscito de 1962 os dados de "8 mil votantes" e "vitória do sim por 1.300 votos" — quando o arquivo da própria Câmara situa o plebiscito decisivo em 1958, com 6.481 votantes, e trata 1962 como o ano da eleição, não da consulta.
Ficamos com a versão do arquivo legislativo municipal, que é a fonte primária, e registramos que a confusão entre as duas datas é comum.
O que Osasco virou
Hoje, o distrito que tinha uma escola pública para oitenta mil pessoas é a sexta cidade mais populosa do estado de São Paulo, com cerca de 728 mil habitantes no Censo 2022, em apenas 64,954 km².
E este guia mapeia 29.174 estabelecimentos em Osasco — o quarto maior acervo entre as vinte cidades, atrás de Guarulhos, São Bernardo e Santo André.
O perfil comercial:
- Serviços e profissionais — 4.679
- Bares e restaurantes — 3.270
- Beleza e bem-estar — 2.775
- Outros — 2.634
- Oficinas e serviços para veículos — 2.430
Vale um número específico: Osasco tem 577 estabelecimentos de indústria e atacado — cerca de 2% do total.
É a menor proporção industrial entre as cinco cidades que abrimos nesta rodada. Diadema tem 6,9%; Guarulhos, 3,7%; São Bernardo, 2,8%; Barueri, 2,7%.
Ou seja: a cidade que ficou nacionalmente conhecida pelo levante operário de 1968 — assunto que tratamos em outro artigo — é hoje, proporcionalmente, a menos industrial do grupo. Virou cidade de serviço, comércio e centro comercial.
Setenta e oito anos depois daquele jornal de 1948, o problema já não é falta de escola. É que a cidade que lutou para se emancipar da capital passou a se parecer com ela.
Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Osasco, serviços e profissionais, bares e restaurantes, oficinas e serviços para veículos e beleza e bem-estar.
Linha do tempo
- 1948 — jornal registra 80 mil habitantes, mais de 4 milhões de cruzeiros em imposto e uma escola pública
- 13/12/1953 — primeiro plebiscito; o "não" vence por pouco mais de cem votos
- 1958 — segundo plebiscito; 6.481 de 21 mil eleitores comparecem (30%); vence o "sim", com denúncias de fraude
- 31/12/1958 — o decreto-lei nº 5.121, do governador Carvalho Pinto, cria o município de Osasco
- janeiro de 1962 — o pleito é suspenso na véspera da realização
- 1962 — 23.382 eleitores votam; Hirant Sanazar (PRT) é eleito com 9.310 votos
- 19/02/1962 — posse do primeiro prefeito, do vice e dos 23 vereadores; data oficial da emancipação
Comparando com os vizinhos
Com Diadema: as duas se emanciparam no mesmo período e por motivos parecidos — distrito grande, arrecadação alta, investimento baixo. Diadema virou município em 1953; Osasco levou mais cinco anos e dois plebiscitos.
Com Barueri: Barueri se emancipou de Santana de Parnaíba em 1949, antes das duas. E, ao contrário de Osasco, não precisou de plebiscito conturbado.
Com Carapicuíba: a vizinha imediata de Osasco só viraria município em 1965, três anos depois da posse de Sanazar. A emancipação de uma abriu caminho para a da outra.
O que ninguém explica
- Por que o pleito foi suspenso na véspera, em janeiro de 1962? O arquivo registra a notícia "estarrecedora" sem detalhar o motivo.
- Quantos votos de mortos foram computados? Um caso é nominado. O total, não.
- Por que só 30% votaram em 1958? A consulta que criou a cidade teve a menor participação de toda a história local.
O que fica
Em 1948, oitenta mil pessoas moravam num distrito de São Paulo, pagavam mais de quatro milhões de cruzeiros de imposto por ano e dividiam uma escola pública.
Em 1953, votaram pela independência e perderam por cem votos.
Em 1958, sete em cada dez ficaram em casa, o "sim" venceu assim mesmo, e depois se descobriu que um homem enterrado havia comparecido às urnas.
No último dia daquele ano, um governador assinou um decreto e Osasco virou município.
Quatro anos depois, com o pleito suspenso na véspera e remarcado, vinte e três mil pessoas foram escolher o primeiro prefeito.
É esse dia — 19 de fevereiro de 1962 — que a cidade comemora.
Mas o papel que a fez existir foi assinado em 31 de dezembro de 1958, e quase ninguém lembra.
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