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O bairro · Ibiúna

Paruru é distrito de Ibiúna há mais de sessenta anos — e existem duas datas diferentes para isso

Uma fonte diz 1959, a memória local diz 1963. O bairro tem 44 comércios e é o terceiro de Ibiúna, com mercados em primeiro lugar. E a explicação para o nome vem de um passarinho — mas não é etimologia, é lembrança.

· 8 min de leitura

Vista de Ibiúna

Ibiúna tem 188 bairros no acervo deste guia, e um Centro que sozinho concentra 630 estabelecimentos — quase um quarto de tudo.

Depois dele, o terreno fica muito mais raso. O segundo bairro tem 48 comércios. O terceiro tem 44.

Esse terceiro é o Paruru — e ele não é um bairro qualquer. É um distrito, com território definido em lei.

Só que a lei tem duas datas, dependendo de onde você procura.

A divergência

Segundo o registro administrativo, o distrito de Paruru foi criado pela Lei nº 5.285, de 18 de fevereiro de 1959, com sede na povoação de mesmo nome e território desmembrado do distrito-sede de Ibiúna.

Mas a memória local conta outra coisa. O texto de história do bairro assinado por Manoel Julio da Costa, morador conhecido como "Mané do Esporte", registra a elevação a distrito em 25 de janeiro de 1963.

Quatro anos de diferença.

Não temos como decidir qual está certa sem consultar o texto da lei estadual, e registramos a divergência em vez de escolher a que soa melhor. Pode ser que uma seja a criação e a outra a instalação — é comum que um distrito seja criado por lei anos antes de efetivamente funcionar. Mas isso é hipótese.

O que é certo: Paruru é distrito, e é assim há mais de sessenta anos.

O passarinho, e por que não é etimologia

A explicação corrente para o nome, na memória local, é encantadora: "o bairro Paruru vem de uma ave (passarinho) que existia em grande quantidade, mas era o Uirapuru".

Ou seja: seria uma corruptela de uirapuru, o pássaro que a tradição indígena e o folclore brasileiro cercam de lendas.

Precisamos ser francos aqui, porque esta série já corrigiu etimologias que circulavam há décadas.

Isso é memória local, não etimologia verificada. Não localizamos a decomposição de "Paruru" em dicionário de tupi antigo, nem em obra de toponímia acadêmica.

A hipótese é plausível — a região está cheia de topônimos de origem indígena, a começar pelo nome do próprio município. Mas plausível não é comprovado, e a diferença entre as duas coisas é exatamente o que separa informação de boato.

Registramos a versão, com o nome de quem a conta e a ressalva de que ela não tem respaldo em fonte especializada.

Ibiúna também já teve outro nome

Vale lembrar o contexto do município, porque ele tem a ver com nomes que mudam.

Ibiúna se chamava Una. O nome atual só foi adotado em 1944, porque havia uma cidade homônima na Bahia — história que contamos neste artigo.

Foi o mesmo ano em que Prainha virou Miracatu e em que Santo Ângelo virou Jundiapeba, em Mogi. Uma revisão ampla da toponímia brasileira, num único movimento.

Antes disso, a freguesia de Una foi criada em 29 de agosto de 1811, e o município se emancipou em 24 de março de 1857 — datas que a memória local registra e que ajudam a situar o Paruru: quando o bairro apareceu, no início do século XIX, nem a freguesia existia ainda.

Machado, foice e enxada

O relato local guarda um detalhe que vale reproduzir.

Os primeiros proprietários teriam sido Antonio Pereira Inácio e o Capitão Joaquim Furtado, e o que eles fizeram no lugar foi abrir as picadas com machado, foice e enxada para as tropas e carroções.

É a descrição mais crua possível de como se formava um bairro rural paulista antes da estrada: alguém abria caminho na mata, à mão, para que passassem tropa de burro e carroça.

O bairro, nessa contagem, teria surgido em 1803.

Depois vieram as obras que mudaram a região: a barragem de Itupararanga, construída entre 1896 e 1911, e a usina inaugurada em 26 de maio de 1914 — represamento que redesenhou toda a hidrografia local e que ainda hoje define a paisagem de Ibiúna.

E depois vieram as coisas simples, tarde: a Igreja de São João Batista foi inaugurada em 1980, a rede de água chegou pela Sabesp no mesmo ano, na gestão do prefeito Orlando da Silva, e a escola estadual só foi inaugurada em 1987.

Um bairro de 1803 que recebeu água encanada em 1980. Cento e setenta e sete anos de espera.

O que o acervo do guia mostra

Este guia mapeia 44 estabelecimentos no Paruru, dos quais 43 têm telefone.

É o terceiro bairro de Ibiúna em número de comércios, entre os 188 bairros que a cidade tem no acervo.

O perfil:

  • Mercados e alimentos — 9
  • Bares e restaurantes — 7
  • Igrejas e templos — 5
  • Serviços e profissionais — 4
  • Oficinas e serviços para veículos — 3
  • Saúde — 3

Mercados em primeiro, igrejas em terceiro.

É a assinatura exata do núcleo rural distante da sede: compra-se comida onde se mora, porque ir ao centro custa tempo e transporte; e o templo de bairro é frequentemente o único equipamento coletivo perto de casa.

É o mesmo padrão que já observamos em Juquitiba, em Embu-Guaçu e em Jundiapeba, em Mogi.

O contraste com a cidade

Agora olhe para Ibiúna inteira, e o quadro fica mais interessante.

O município tem 2.624 estabelecimentos no acervo, distribuídos assim:

  • Serviços e profissionais — 328
  • Bares e restaurantes — 256
  • Hospedagem e turismo — 247
  • Outros — 245
  • Mercados e alimentos — 226
  • Construção e reforma — 180

Hospedagem em terceiro lugar. Isso é raríssimo — nas vinte cidades deste guia, só Ibiúna e Juquitiba colocam turismo tão alto.

Ibiúna é destino de fim de semana da Grande São Paulo: pesqueiro, pousada, chácara de aluguel, restaurante de estrada. É uma economia inteira construída sobre gente que vem de fora.

Mas no Paruru essa economia não aparece. Hospedagem nem entra nas seis maiores categorias do bairro.

Ou seja: o distrito não é a Ibiúna do turista. É a Ibiúna de quem mora, planta e trabalha — o lado da cidade que sustenta a horticultura que abastece a Grande São Paulo e que quase nunca aparece em reportagem de fim de semana.

Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Ibiúna, mercados e alimentos, bares e restaurantes, hospedagem e turismo e serviços e profissionais.

Linha do tempo

  • 1803 — segundo a memória local, surge o bairro do Paruru
  • 29/08/1811 — criação da freguesia de Una
  • 24/03/1857 — emancipação do município, ainda como Una
  • 1896–1911 — construção da barragem de Itupararanga
  • 26/05/1914 — inauguração da usina
  • 1944 — Una passa a se chamar Ibiúna
  • 18/02/1959 — pela Lei nº 5.285, é criado o distrito de Paruru (uma versão)
  • 25/01/1963 — elevação a distrito, segundo a memória local (outra versão)
  • 1980 — inauguração da Igreja de São João Batista e chegada da rede de água
  • 1987 — inauguração da escola estadual

Comparando com os vizinhos

Com Barnabés, em Juquitiba: os dois são os únicos distritos rurais desta rodada, e os dois têm o mesmo perfil comercial — mercado e igreja no topo. A diferença é a idade: Paruru é distrito desde os anos 1950 ou 1960; Barnabés, só desde 1996.

Com o Centro de Ibiúna: 630 contra 44. O Centro tem catorze vezes mais comércio. Numa cidade com 188 bairros, a concentração no centro é quase total.

Com Potuverá, em Itapecerica da Serra: os dois são bairros rurais de municípios da mesma faixa sudoeste, e nos dois a documentação histórica depende de memória local mais que de arquivo.

O que ninguém explica

  • 1959 ou 1963? Duas datas para a criação do mesmo distrito, e nenhuma delas conferida no texto da lei.
  • De onde vem mesmo "Paruru"? A versão do uirapuru é bonita e não tem respaldo acadêmico.
  • Quem foram Antonio Pereira Inácio e o Capitão Joaquim Furtado? Os dois abriram as picadas do bairro, e não há nada mais sobre eles.

O que fica

Em algum momento no início do século XIX, dois homens entraram na mata do que hoje é Ibiúna com machado, foice e enxada, e abriram caminho para que passassem tropas e carroções.

O lugar virou bairro, depois virou distrito — em 1959 ou em 1963, ninguém sabe direito.

Ganhou igreja em 1980, água encanada no mesmo ano e escola em 1987.

Hoje tem 44 comércios, com mercado em primeiro lugar e igreja em terceiro, e é o terceiro maior aglomerado comercial de uma cidade que vive de turismo mas não manda turismo nenhum para lá.

E o nome dele, dizem os moradores, vem de um passarinho que havia em grande quantidade.

Nenhum dicionário confirma. Mas a lembrança está registrada, com nome e sobrenome de quem a guardou — o que já é mais do que a maioria dos bairros deste guia consegue mostrar.

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