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O que só existe aqui · Mauá

O primeiro jogo de jantar de porcelana branca da América do Sul foi feito em Mauá, em 1943

Um engenheiro cerâmico voltou da Alemanha em 1933 e encontrou, no subsolo do ABC, o caulim que faltava. Dez anos depois, saía da fábrica a primeira louça branca completa produzida no continente.

· 8 min de leitura

Vista de Mauá

Existe uma frase que se repete sobre Mauá e que quase ninguém consegue explicar: a cidade foi a capital nacional da porcelana.

O título é verdadeiro, e a prova está numa data.

Em 1943, na Porcelana Real, foi fabricado o primeiro jogo de jantar completo de porcelana branca do Brasil — e da América do Sul.

Não a primeira peça. O primeiro jogo completo. Que é uma coisa bem mais difícil.

Por que aqui, e não em outro lugar

A resposta é geológica, e é o tipo de coisa que decide o destino de uma cidade sem que ninguém escolha.

A antiga Vila do Pilar — nome de Mauá até 1926 — tinha solo rico em argila branca, ideal para cerâmica e porcelana.

A região possuía minas de caulim e argila: as matérias-primas de uma produção refinada.

Caulim é o que separa a louça comum da porcelana. Sem ele, você faz tijolo e telha. Com ele, faz xícara translúcida.

E havia o segundo ingrediente, tão decisivo quanto: a linha férrea, que levava a produção para São Paulo e para o Porto de Santos, abrindo o mercado internacional.

Matéria-prima boa mais logística pronta. É a receita completa de um polo industrial, e ela estava aqui por acaso.

O homem que voltou da Alemanha

A porcelana fina foi introduzida no Brasil por Fritz Erwin Schmidt, que em 1933 retornava da Alemanha, onde fizera curso de engenharia cerâmica.

Guarde a diferença: não era um comerciante que resolveu vender louça. Era um engenheiro cerâmico formado, com a técnica na cabeça, chegando a um lugar que tinha o material no chão.

Dez anos depois, em 23 de setembro de 1943, ele fundou a Porcelana Real em Mauá, junto com um grupo de italianos.

A fábrica produzia aparelhos de jantar, chá e café, atendendo ao mercado nacional e internacional.

E foi ali que saiu o primeiro jogo completo de porcelana branca do continente.

Antes da Real, já havia fábrica

A Porcelana Real não caiu do céu. Ela é o ponto alto de uma cadeia que começou décadas antes.

No início do século XX surgiram as primeiras indústrias no povoado do Pilar:

  • Moagem de trigo Norza e Rosazza, antecessora da moagem de sal do Matarazzo
  • Fábrica de louças Viúva Grande e Filhos — conhecida como "Fábrica Grande", a primeira do ramo no local
  • Cerâmica e serraria de Bernardo Morelli, produtora de tijolos e telhas

Das primeiras fábricas de louça até 1943, a importância do setor só cresceu. Quando Fritz Schmidt chegou com a técnica alemã, já havia mão de obra que sabia trabalhar barro.

A fusão de 1972

Em 1945, os irmãos de Fritz Schmidt fundaram a Porcelana Schmidt em Pomerode, Santa Catarina.

Em 1972, houve a fusão com outras fábricas do mesmo grupo, e a Porcelana Real tornou-se a atual Porcelana Schmidt.

Ou seja: a marca que existe hoje e que muita gente tem no armário carrega, na origem, a fábrica de Mauá de 1943.

Se a sua avó tinha um jogo de xícaras "de louça boa", há uma chance concreta de ele ter saído daqui — e de a peça ser mais velha que a maioria das pessoas que a usaram.

A parte que não aparece na etiqueta

Há um detalhe que os registros locais fazem questão de sublinhar, e que vale repetir.

A cidade ficou conhecida como capital nacional da porcelana por causa dos operários com mãos habilidosas e da força humana de imigrantes que dominavam uma arte que marcou gerações.

Porcelana fina não é produção automatizada — pelo menos não era. Cada peça passava por mãos que sabiam a hora exata de parar.

O título da cidade não foi conquistado por uma marca. Foi conquistado por milhares de pessoas que aprenderam um ofício difícil e o passaram adiante.

Onze galpões, depois dezoito, e três chaminés

O tamanho daquilo costuma ser subestimado. Não era uma oficina: era um complexo industrial.

Durante as décadas de 1940 e 1950 a produção modernizou-se rapidamente. Em meados dos anos 50, o complexo já tinha 11 galpões e três chaminés. No fim da década, chegou a 18 galpões.

E houve uma decisão técnica que separou Mauá do resto do país: nos anos 1950 a fábrica instalou o forno-túnel — uma inovação raríssima no Brasil na época.

Forno-túnel é produção contínua: a peça entra por uma ponta, atravessa zonas de temperatura controlada e sai pronta pela outra. Substitui o forno intermitente, que precisa esfriar a cada fornada.

É a diferença entre artesanato em escala e indústria de verdade.

"Porcelana Real — Para U.S.A."

E há uma imagem que resume tudo, registrada por quem viu.

No início dos anos 1950, caminhões carregados de caixotes marcados "Porcelana Real – Para U.S.A." desciam a Via Anchieta rumo ao Porto de Santos.

A mesma Via Anchieta inaugurada em 1947, que trouxe as montadoras para São Bernardo, levava para o porto a louça branca feita em Mauá com destino aos Estados Unidos.

Uma cidade do ABC exportando porcelana fina para o país mais rico do mundo, na mesma estrada por onde entrava a indústria automobilística. As duas coisas aconteceram ao mesmo tempo, e só uma delas virou lenda.

Uma divergência que vale registrar

As fontes não concordam sobre uma coisa: de qual município Mauá era distrito quando a produção começou.

Parte dos registros diz que era distrito de Santo André — e é dele que a cidade se emancipa em 1954. Outros, ao descrever o início da produção de Fritz Schmidt em 1933, situam a "pequena vila de Mauá" como distrito de São Bernardo do Campo.

As duas coisas podem ser verdadeiras em momentos diferentes: os limites municipais do ABC foram redesenhados várias vezes na primeira metade do século XX.

Registrar a divergência é mais honesto que escolher a versão mais conveniente.

E a marca que sumiu

Há ainda uma segunda fábrica, e a confusão entre as duas é comum.

A Porcelana Mauá — fundada em 1937 — destacou-se como a primeira indústria paulista a produzir porcelana fina de mesa, e virou referência nacional em qualidade até encerrar as atividades em 1968.

Ela empregou centenas de moradores, impulsionou o comércio e ajudou a consolidar a cidade como polo industrial.

E então acabou, sem que a história do fim tenha sido bem contada.

1954: a cidade troca de eixo

E então tudo mudou de novo.

Em 18 de dezembro de 1954 foi inaugurada a Refinaria de Capuava (RECAP) — a primeira refinaria de petróleo do estado de São Paulo.

No mesmo ano em que Mauá se emancipou de Santo André.

A partir dali implantou-se o parque industrial mecânico, metalúrgico, químico e petroquímico. A cidade da louça fina virou cidade do petróleo em menos de uma década.

A história completa dessa virada está no artigo sobre a origem do nome de Mauá.

Linha do tempo

  • séculos XVII–XVIII — fazendas em torno da Capela de Nossa Senhora do Pilar
  • início do século XX — primeiras fábricas no povoado, entre elas a Fábrica Grande
  • 1926 — Pilar passa a se chamar Mauá
  • 1933 — Fritz Erwin Schmidt volta da Alemanha formado em engenharia cerâmica
  • 23/09/1943 — fundação da Porcelana Real; primeiro jogo de jantar de porcelana branca da América do Sul
  • 1945 — os irmãos Schmidt fundam a Porcelana Schmidt em Pomerode (SC)
  • 1954 — emancipação de Santo André e inauguração da Refinaria de Capuava
  • 1972 — fusão; a Porcelana Real vira Porcelana Schmidt

O que o acervo do guia mostra

Este guia mapeia 12.857 estabelecimentos em Mauá, dos quais 11.755 têm telefone, em 215 bairros.

E a quarta maior categoria é Veículos, com 1.147 estabelecimentos — algo raro entre as vinte cidades do guia, que só se repete em Guarulhos.

É a memória industrial visível na paisagem de hoje: oficina, autopeça, funilaria, borracharia. A porcelana e a refinaria não aparecem na contagem porque indústria pesada é pouca porta e muito emprego. O que sobra na rua é a cadeia de serviço que gira em volta.

Dá para ver o guia completo de Mauá, oficinas e serviços para veículos, casa e utilidades, indústria e produção e construção e reforma.

O que ninguém explica

  • Onde está o primeiro jogo de jantar de 1943? A peça inaugural da porcelana sul-americana deveria estar num museu, e não há registro público de onde parou.
  • Quem eram os italianos que fundaram a Real com Schmidt? Aparecem sempre como "um grupo de italianos", sem nomes.
  • Quantas pessoas trabalharam na porcelana em Mauá? Foram gerações inteiras, e não há número consolidado.

O que fica

Debaixo de Mauá havia argila branca e caulim. Passou por ali uma linha de trem.

Em 1933, um engenheiro cerâmico voltou da Alemanha com a técnica na cabeça e encontrou as duas coisas no mesmo lugar.

Dez anos depois, saía daquela fábrica o primeiro jogo de jantar de porcelana branca já produzido na América do Sul — feito por mãos de imigrantes que aprenderam um ofício difícil e o ensinaram aos filhos.

Onze anos depois, chegou o petróleo, e a cidade mudou de assunto.

Mas a louça ficou nos armários. E ainda está.

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