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O que só existe aqui · Santo André

A primeira ata municipal do Brasil, de 1555, é sobre lixo não recolhido

O documento seriado mais antigo do país registra que, em 22 de julho de 1555, a câmara da Vila de Santo André cobrou de João Pires, o almotacel, a limpeza dos montes de lixo. A administração pública brasileira começa assim.

· 9 min de leitura

Vista de Santo André

O documento seriado mais antigo do Brasil tem data: 22 de julho de 1555.

É a primeira ata da Câmara da Vila de Santo André da Borda do Campo.

E o assunto não é fundação, nem guerra, nem descoberta.

É lixo não recolhido.

A câmara tratou da limpeza da vila e cobrou de João Pires, o almotacel, providência sobre os montes de lixo.

E o cargo dele é a parte boa: almotacel era o oficial encarregado de fiscalizar pesos, medidas, abastecimento e limpeza do povoado. Ou seja — o primeiro registro da administração municipal brasileira é a câmara cobrando do próprio fiscal de limpeza que fizesse o serviço dele.

A administração pública brasileira começa exatamente onde ela ainda está.

O que são essas atas

São os registros da câmara municipal da primeira vila brasileira estabelecida fora da planície litorânea, fundada em 8 de abril de 1553 por João Ramalho.

Segundo o Museu Histórico Municipal Washington Luís, que mantém a custódia do acervo, trata-se do documento seriado mais antigo existente no Brasil.

A afirmação vem do museu que guarda o acervo, e é assim que ela deve ser lida: segundo o Museu Histórico Municipal Washington Luís, trata-se do documento seriado mais antigo existente no Brasil.

Circula também, em fontes secundárias, a informação de que o conjunto seria reconhecido pela UNESCO. Não encontramos essa confirmação na instituição que custodia o acervo, e por isso ela não é afirmada aqui.

"Seriado" é a palavra técnica que importa: não é um documento avulso, é uma série — registros sucessivos, feitos com regularidade, que permitem acompanhar o funcionamento de uma administração ao longo do tempo. É por isso que valem mais que uma carta isolada mais antiga.

O período que sobreviveu

As atas cobrem o intervalo entre 1555 e 1558.

E é só. Esse é o único período preservado.

Três anos de registros, de uma vila que existiu por sete. O resto se perdeu.

Quem conseguiu ler aquilo

Os manuscritos eram extremamente difíceis de ler.

Ficaram praticamente indecifráveis até 1914, quando foram decifrados por Manoel Alves da Costa.

Foram publicados pela primeira vez naquele mesmo ano, com o apoio do historiador Washington Luís — que viria a ser presidente da República entre 1926 e 1930.

É um detalhe que costuma passar batido e que merece atenção: o futuro presidente do Brasil bancou a publicação das atas municipais mais antigas do país, quatro séculos depois de escritas. E o museu que hoje guarda o acervo leva o nome dele.

Quem foi Washington Luís

O nome aparece duas vezes nesta história, e não por acaso.

Washington Luís foi historiador antes de ser político. Pesquisava documentação colonial paulista, e foi com o apoio dele que as atas decifradas em 1914 chegaram à publicação.

Depois foi presidente da República, entre 1926 e 1930 — deposto pela Revolução de 1930, no episódio que encerrou a chamada República Velha.

É o museu que leva o nome dele que hoje guarda o acervo.

Vale notar o encadeamento: um homem que se interessava por papel velho ajudou a tornar legível o documento mais antigo da administração municipal brasileira; depois governou o país; depois virou o nome do museu que protege aquele mesmo documento.

Sem o interesse de historiador dele, é possível que as atas continuassem ilegíveis — ou que tivessem se perdido de vez, como se perdeu o restante do período da vila.

O que mais está lá dentro

As atas revelam detalhes da vida administrativa, social e cotidiana da vila pioneira — além dos nomes dos primeiros habitantes conhecidos da região.

Há registros sobre:

  • obras públicas
  • preocupações com segurança
  • regulamentos para a vida diária do povoado

Ou seja: quatro séculos e meio depois, a pauta de uma câmara municipal brasileira continua sendo essencialmente a mesma. Obra, segurança, limpeza e regra de convivência.

Mudou a tecnologia. Não mudou o assunto.

João Pires, o almotacel

Vale reservar um parágrafo a ele.

João Pires tem uma distinção improvável: é, muito provavelmente, o primeiro servidor público nominalmente cobrado por uma câmara municipal em território brasileiro — e o assunto era lixo acumulado.

Vale registrar uma divergência de fontes. Parte dos textos que circulam sobre o episódio o chama de "João Pires Gago" e fala em condenação. A página da prefeitura de São Bernardo, que trata diretamente do acervo, registra "João Pires, almotacel" e descreve a cobrança, sem o sobrenome.

Optamos pela versão da instituição que guarda os documentos.

Não sabemos praticamente nada sobre ele. Não sabemos o que aconteceu depois, se cumpriu, se reclamou, se foi substituído.

Sabemos apenas que, em 22 de julho de 1555, o nome dele entrou para o documento mais antigo da administração pública brasileira — pelo pior motivo possível.

A briga de vizinho que dura cinco séculos

Aqui há um ponto que precisa ser dito com precisão, porque é onde a maioria dos textos escorrega.

A vila levava o nome de Santo André. Mas as atas estão sob custódia do Museu Histórico Municipal Washington Luís, em São Bernardo do Campo.

Santo André ficou com o nome. São Bernardo ficou com os documentos.

E as duas cidades reivindicam, cada uma a seu modo, a linhagem daquela vila de sete anos.

É uma disputa de bairrismo com quase cinco séculos de idade — e ela existe justamente porque ninguém sabe onde a vila ficava. O local exato continua desconhecido dentro do território atual do Grande ABC, como conta o artigo sobre a vila perdida.

Duas cidades brigando pela herança de um lugar que nenhuma das duas conseguiu localizar.

Linha do tempo

  • 1550 — começa a organização do povoado no planalto, liderada por João Ramalho
  • 08/04/1553 — a região é elevada a Vila por Tomé de Sousa
  • 22/07/1555 — a primeira ata: a câmara cobra de João Pires, o almotacel, a limpeza dos montes de lixo
  • 1555–1558 — o único período de atas preservado
  • 1560 — a vila é esvaziada; a população vai para São Paulo de Piratininga
  • 1914 — Manoel Alves da Costa decifra os manuscritos; publicação com apoio de Washington Luís
  • hoje — acervo sob custódia do Museu Histórico Municipal Washington Luís, em São Bernardo

O que o acervo do guia mostra

Este guia mapeia 38.264 estabelecimentos em Santo André, dos quais 35.678 têm telefone, distribuídos por 336 bairros.

É o segundo maior acervo das vinte cidades, atrás apenas de Guarulhos — e à frente de São Bernardo, que tem território maior.

O perfil:

  • Serviços e profissionais — 6.554
  • Beleza e bem-estar — 3.650
  • Bares e restaurantes — 3.599
  • Outros — 3.410

Chama atenção a segunda posição. Beleza à frente de alimentação é incomum, e costuma indicar cidade com renda distribuída e consumo local consolidado — não cidade-dormitório.

É o retrato de uma economia madura: um lugar que passou pela industrialização e pela desindustrialização e ficou de pé como centro próprio.

Quem quiser navegar isso pode ver o guia completo de Santo André, serviços e profissionais, beleza e bem-estar, saúde e bares e restaurantes.

O que é um documento seriado, e por que ele vale mais

Vale insistir neste ponto, porque é o que dá às atas de 1555 um estatuto que nenhuma carta isolada tem.

Existem no Brasil papéis mais antigos que 1555 — cartas de jesuítas, relatos de viajantes, correspondência da Coroa. Nenhum deles é uma série administrativa.

Documento seriado é aquele produzido de forma contínua e padronizada por uma instituição, no exercício normal da função dela. Uma ata puxa a seguinte; cada reunião gera um registro; o conjunto forma uma linha.

O valor disso para a história é enorme, e por um motivo simples: carta conta o que alguém quis contar; ata registra o que aconteceu na rotina.

Uma carta de jesuíta descreve a colônia para quem está do outro lado do oceano, com o objetivo de convencer alguém de alguma coisa. Uma ata municipal registra que fulano não limpou o lixo, que se decidiu abrir tal caminho, que se cobrou tal taxa.

É por isso que o acervo do Grande ABC é o mais antigo do gênero no Brasil e na América Latina, e não apenas um papel velho a mais.

Comparando com as vizinhas

Com São Bernardo do Campo: a disputa de 1553 continua. Uma tem o nome, a outra tem o papel.

Com Mogi das Cruzes: as duas guardam patrimônio documental e arquitetônico de primeira grandeza. Mogi tem 17 bens tombados e uma festa que não para desde 1613; Santo André tem a origem administrativa do país.

Com Guarulhos: as duas têm patrimônio de valor nacional pouco visitado por quem mora ao lado — aqui o documento seriado mais antigo do país, lá um sítio arqueológico do primeiro ciclo do ouro.

O que ninguém explica

  • Quem era João Pires? O primeiro servidor cobrado por uma câmara municipal brasileira, e não se sabe quase nada sobre ele — nem se o sobrenome "Gago", que aparece em textos secundários, procede.
  • Por que só 1555 a 1558 sobreviveram? A vila durou sete anos. O que aconteceu com os registros dos outros quatro?
  • Onde ficava a vila? A pergunta está aberta há 473 anos.

O que fica

Um degredado português fundou, em 1553, a primeira vila brasileira longe do mar.

Dois anos depois, os vereadores dela se reuniram e a primeira coisa que registraram por escrito foi uma reclamação sobre lixo acumulado, com nome e sobrenome do responsável.

Três anos de atas sobreviveram. Ficaram ilegíveis por três séculos e meio, até que um homem as decifrasse em 1914, com o apoio de um futuro presidente da República.

Hoje são apontadas pelo museu que as guarda como o documento seriado mais antigo do Brasil.

E o primeiro assunto da administração pública brasileira, registrado em 22 de julho de 1555, foi o mesmo que abre a pauta de qualquer câmara municipal hoje: alguém não recolheu o lixo.

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