O que só existe aqui · Guarulhos
O Tanque Grande de Guarulhos é um sítio arqueológico de 1600 — e quase ninguém na cidade sabe
Túneis escavados na rocha, barragens, canais e frentes de lavra construídos por indígenas escravizados. Uma pesquisa da Unifesp e da USP mapeou tudo, e o resultado contraria o que se ensina sobre o ouro no Brasil.
Existe em Guarulhos um conjunto de estruturas construídas por volta do ano 1600 que continua no lugar, a céu aberto, e que a maior parte dos moradores da cidade nunca ouviu falar.
Chama-se Tanque Grande.
E o que ele prova contraria o que se aprende na escola sobre o ouro no Brasil.
A afirmação que muda a aula de história
Entre os séculos XVI e XVII, antes de o Ciclo do Ouro começar em Minas Gerais, o território hoje ocupado por Guarulhos foi o principal polo de produção aurífera do país.
Não uma jazida secundária. O principal.
Entre 1597 e 1598, o sertanista português Afonso Sardinha, o Velho, descobriu as jazidas de ouro daqui — quase um século antes de os bandeirantes encontrarem ouro em Minas.
A exploração efetiva só começou a partir de 1612, conduzida por Geraldo Correia Sardinha — e é dele que vem o nome do lugar. As chamadas "Lavras Velhas do Geraldo" ainda podem ser vistas na margem direita da estrada que vai de Cumbica para Nazaré.
A era do ouro em Guarulhos durou mais de duzentos anos.
O que existe fisicamente no Tanque Grande
O sítio não é uma ruína vaga. É um sistema de engenharia completo, e o inventário arqueológico lista peça por peça:
- barragens
- tanques
- valas
- canais, revestidos ou não
- condutos
- frentes de lavra e bancadas
- pilhas de rejeito de cascalho
- locais de apuração e seleção do ouro
Há também canais e túneis escavados na rocha somando cerca de nove quilômetros, que transportavam água por gravidade até onde se lavava o cascalho.
Nove quilômetros de canal aberto na pedra, sem máquina, para fazer a água descer sozinha até o ponto certo. É engenharia hidráulica de verdade, executada por volta de 1600.
Some-se a isso o que a geologia deixou: afloramentos in situ de formação ferrífera do tipo Algoma, uma cachoeira e a barragem do Tanque Grande.
Tudo isso está a poucos quilômetros do maior aeroporto da América Latina.
Quem construiu, e como
Esta é a parte que não pode ser contada de forma amena.
O Tanque Grande foi construído por volta de 1600, com mão de obra indígena escravizada.
A força de trabalho da mineração em Guarulhos era formada por índios escravizados.
Cada tanque, cada vala, cada metro de túnel escavado na rocha foi aberto por pessoas que não escolheram estar ali. O ouro que saiu daqui saiu assim, e o sistema hidráulico que sobreviveu quatro séculos é o registro material disso.
Não é um monumento à engenharia colonial. É a prova de um trabalho forçado.
A pesquisa que trouxe isso à tona
O levantamento desse patrimônio foi feito pelo PIPAG — Projeto de Inventário e Pesquisa Arqueológica de Guarulhos.
A coordenação é da arqueóloga Cláudia Regina Plens, professora associada da Unifesp, campus Guarulhos, e professora colaboradora do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP (MAE-USP).
O projeto teve apoio da FAPESP, por meio de convênio de cooperação com o CONDEPHAAT — o conselho estadual de patrimônio.
Ou seja: não é achado de curioso. É pesquisa acadêmica financiada, com convênio de órgão de patrimônio.
Em agosto de 2015, os resultados viraram uma exposição cultural chamada "A Cartografia das Pessoas de Guarulhos", aberta à visitação no Centro Educacional Adamastor.
A região é hoje tratada também sob o nome de Geoparque Ciclo do Ouro.
A descoberta que contraria o consenso
Há um achado dessa pesquisa que vai além da mineração.
A pesquisadora levanta a hipótese de que os habitantes originais desta área faziam parte do tronco Jê — e não do tronco Tupi. A base são anotações linguísticas dos jesuítas e o fracasso das primeiras tentativas de contato dos paulistas.
Isso contrariaria a opinião generalizada de que toda a população indígena paulista era tupi.
E aqui vale a honestidade que a própria pesquisa pratica: não há documentos que permitam demonstrar essa hipótese.
Se um dia ela se confirmar, parte do que se ensina sobre a ocupação indígena de São Paulo precisa ser revista. Por enquanto, é uma pista bem fundamentada — e nada além disso.
Linha do tempo
- 1597–1598 — Afonso Sardinha, o Velho, descobre as jazidas
- a partir de 1612 — exploração efetiva, por Geraldo Correia Sardinha
- c. 1600 — construção do Tanque Grande com mão de obra indígena escravizada
- séculos XVII e XVIII — a produção aurífera segue por mais de duzentos anos
- 1757 — fundação da Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso
- 2015 — exposição "A Cartografia das Pessoas de Guarulhos" apresenta os resultados do PIPAG
- hoje — a área é tratada como Geoparque Ciclo do Ouro
O que é um geoparque
O termo aparece nos registros da região e merece explicação, porque não é sinônimo de parque.
Geoparque é uma área onde o patrimônio geológico tem valor reconhecido e é tratado junto com o patrimônio histórico, cultural e ambiental do mesmo território.
No caso de Guarulhos, isso faz sentido literal: a formação ferrífera do tipo Algoma que aflora no Tanque Grande é a razão geológica de ali ter havido ouro. A rocha explica a mina, a mina explica a escravidão indígena, e a escravidão explica as estruturas de pedra que sobraram.
Separar geologia de história, nesse caso, seria contar metade.
Por isso a área é tratada como Geoparque Ciclo do Ouro — uma designação que reúne, num só recorte, o afloramento de minério, a cachoeira, a barragem e as estruturas arqueológicas do primeiro ciclo do ouro brasileiro.
É provavelmente o único lugar da Grande São Paulo onde se pode ver, no mesmo trecho de mata, a rocha que gerou a riqueza e as valas abertas para extraí-la.
O personagem que liga três cidades
Afonso Sardinha não aparece só aqui.
É o mesmo sertanista que, no século XVII, levou índios de Carapicuíba para Itapecerica da Serra, como conta o artigo sobre a pedra que batizou Itapecerica. Era proprietário da Fazenda Ubatatá, onde hoje é o Butantã.
O mesmo homem, em dois cantos opostos da Grande São Paulo, ligando Guarulhos, Carapicuíba e Itapecerica.
A história desta região não é feita de vinte histórias independentes. É uma história só, com poucos personagens circulando por todo lado.
O que o acervo do guia mostra
Este guia mapeia 53.187 estabelecimentos em Guarulhos — o maior acervo das vinte cidades —, dos quais 49.146 têm telefone, espalhados por 749 bairros.
Setecentos e quarenta e nove bairros. É mais bairro do que muita cidade brasileira tem rua.
E entre eles está Lavras, cujo nome é literalmente o registro da atividade que se fazia ali: lavra é a extração mineral. O bairro carrega no nome a mina que existiu.
O mesmo vale para Cumbica, que batizou o aeroporto — e que antes era o nome de uma das grandes fazendas do município, ao lado de Pimentas, Bonsucesso, Cabuçu, Caxambu e Bananal.
Quem quiser navegar essa cidade enorme pode ver o guia completo de Guarulhos, oficinas e serviços para veículos — a categoria mais forte da cidade —, mercados e alimentos, saúde e construção e reforma.
Comparando com as vizinhas
Com Mauá: o paralelo é geológico. As duas cidades ficaram ricas com o que tinham debaixo do chão — Guarulhos com o ouro, Mauá com o caulim que virou porcelana. Guarulhos usou o dela três séculos e meio antes.
Com Carapicuíba: as duas guardam patrimônio colonial de primeira grandeza — uma aldeia jesuítica preservada e um sistema de mineração do século XVII. E as duas estão ligadas por Afonso Sardinha.
Com Santo André: as duas têm patrimônio reconhecido em instâncias diferentes e, ainda assim, pouco visitado por quem mora perto.
O que ninguém explica
- Quanto ouro saiu dali? Não existe estimativa consolidada da produção de dois séculos.
- Quem eram, exatamente, as pessoas escravizadas no Tanque Grande? Se a hipótese do tronco Jê se confirmar, é uma população inteira que a historiografia paulista tratou como outra coisa.
- Por que isso não é conhecido na própria cidade? Guarulhos tem um sítio arqueológico do primeiro ciclo do ouro brasileiro e nenhuma sinalização à altura.
O que fica
Cem anos antes de Minas Gerais, o ouro do Brasil saía de Guarulhos.
Para tirá-lo da terra, escavaram-se túneis na rocha, ergueram-se barragens e abriram-se canais — obra de pessoas escravizadas cujos nomes ninguém registrou e cujos descendentes ninguém sabe onde estão.
Aquilo tudo continua lá, em pedra, a poucos quilômetros de onde pousam os aviões.
É o patrimônio mais antigo e menos visitado da segunda maior cidade de São Paulo.
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