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Como era antes · Diadema

A Via Anchieta passou por Diadema em 1947 — o distrito só foi criado 20 meses depois, e a cidade em 1953

A rodovia chegou primeiro. Enquanto São Bernardo recebia as multinacionais na beira da pista, Diadema recebeu as pequenas e médias que fabricavam peça para elas. Hoje é a cidade mais industrial deste guia.

· 7 min de leitura

Vista de Diadema

Existe uma ordem de acontecimentos em Diadema que quase ninguém percebe, e ela explica a cidade inteira.

A rodovia veio antes do município.

A primeira pista da Via Anchieta foi concluída em 1947. O distrito de Diadema só foi criado em 24 de dezembro de 1948. E o município, em 18 de fevereiro de 1953 — poucos meses antes de a segunda pista ser entregue.

Diadema não ganhou uma rodovia. Diadema nasceu por causa de uma.

Antes da Anchieta havia o Caminho do Mar

Para entender o tamanho da mudança, é preciso saber o que existia antes.

O que ligava o planalto ao porto de Santos era o Caminho do Mar, também chamado de Estrada Velha — um traçado antigo, adaptado poucos anos antes para o trânsito de veículos motorizados.

E ele já estava saturado. Segundo o registro da prefeitura de São Bernardo, os estudos apontavam um tráfego de 18 mil veículos por mês na estrada velha.

Dezoito mil por mês, nos anos 1930, numa estrada de serra pensada para tropa e carroça.

A Assembleia Legislativa autorizou uma concessão em 1929, que foi cancelada. Cinco anos depois, o governador Armando Salles de Oliveira publicou novo decreto autorizando a construção — mas a obra só começou de fato em 1939.

O projeto: 53 km de extensão, com duas pistas de duas faixas no planalto, uma pista na serra e cinco túneis.

1947: a primeira pista

A primeira pista foi concluída em abril de 1947, e inaugurada por Adhemar de Barros, que acabara de retornar ao governo paulista.

Registramos uma divergência: há fontes que datam a inauguração em 13 de março de 1947, enquanto a prefeitura de São Bernardo situa a conclusão em abril. Pode ser a diferença entre a entrega da obra e o ato público. Ficamos com as duas anotadas.

Em julho de 1953, o governador Lucas Nogueira Garcez entregou a segunda pista.

E o efeito foi imediato. Já nos anos 1940, nas margens da rodovia, instalaram-se fábricas de grande porte — Varam Motores, Brasmotor e as tecelagens Elni e Lídia, esta última do grupo Matarazzo.

Uma região que era rural passou a ser o corredor industrial do país.

A divisão do trabalho entre as duas cidades

Agora o detalhe que define Diadema, e ele é o mais interessante de todos.

As duas cidades cortadas pela Anchieta receberam coisas diferentes.

Em São Bernardo instalaram-se as grandes indústrias multinacionais. As montadoras, os nomes que todo mundo conhece, o que fez do ABC a capital do automóvel — assunto que tratamos em outro artigo.

Em Diadema instalaram-se principalmente as pequenas e médias empresas nacionais, que produziam, em sua maior parte, objetos complementares para as multinacionais.

Ou seja: a montadora ficou de um lado; quem faz a peça que entra no carro ficou do outro.

Não é uma diferença de tamanho. É uma diferença de posição na cadeia produtiva — e ela foi decidida nos anos 1940 e 1950, quando as empresas escolheram onde se instalar ao longo da pista nova.

Diadema virou a cidade das autopeças e da metalurgia de médio porte. Empresa nacional, capital menor, muita mão de obra qualificada.

E foi exatamente esse perfil que produziu, três décadas depois, a base sindical que elegeu o primeiro prefeito do PT no Brasil — um ferramenteiro, com 23.310 votos, história que contamos aqui.

Ferramenteiro é profissão de autopeça, não de montadora.

Setenta e nove anos depois, o número prova

E aqui está a parte que só o acervo deste guia consegue demonstrar.

Este guia mapeia 15.190 estabelecimentos em Diadema. Deles, 1.049 são de indústria e atacado.

Isso dá 6,9% de todo o comércio da cidade.

Compare com as vizinhas:

  • Diadema — 1.049 de 15.190, ou 6,9%
  • Guarulhos — 1.948 de 53.166, ou 3,7%
  • São Bernardo do Campo — 948 de 34.140, ou 2,8%
  • Barueri — 530 de 19.600, ou 2,7%
  • Osasco — 577 de 29.174, ou 2,0%

Diadema é, proporcionalmente, a cidade mais industrial deste guia — quase o dobro de Guarulhos, e mais que o dobro de São Bernardo.

E ela é a menor das cinco em território: cerca de 30 km², o que a torna uma das cidades mais densas do estado.

Mil e quarenta e nove estabelecimentos industriais num município do tamanho de um bairro grande da capital.

Setenta e nove anos depois de a primeira pista ser aberta, a decisão de quem se instalou de que lado da rodovia continua legível na contagem de portas abertas.

O resto do perfil

As demais categorias de Diadema:

  • Serviços e profissionais — 1.918
  • Bares e restaurantes — 1.628
  • Beleza e bem-estar — 1.499
  • Mercados e alimentos — 1.304
  • Oficinas e serviços para veículos — 1.247

Repare como o topo é achatado. Da primeira à quinta categoria há 671 estabelecimentos de diferença — em Barueri, a distância entre a primeira e a segunda sozinha é de 1.093.

Diadema não tem um setor que domina. Tem uma cidade onde tudo é do tamanho parecido, porque tudo atende ao mesmo público: quem mora e trabalha ali.

É o retrato de uma cidade operária que nunca virou cidade de escritório.

Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Diadema, indústria e atacado, oficinas e serviços para veículos, mercados e alimentos e serviços e profissionais.

Linha do tempo

  • 1929 — a Assembleia Legislativa autoriza uma concessão para a rodovia; depois cancelada
  • anos 1930 — estudos apontam 18 mil veículos por mês no Caminho do Mar; o governador Armando Salles de Oliveira publica novo decreto
  • 1939 — começa de fato a obra da Via Anchieta: 53 km, cinco túneis na serra
  • 1947 — conclusão da primeira pista, inaugurada por Adhemar de Barros (há fontes que datam 13/03; a prefeitura de São Bernardo situa em abril)
  • 24/12/1948 — a lei estadual nº 233 cria o distrito de Diadema, então pertencente a São Bernardo do Campo
  • 18/02/1953 — Diadema se separa de São Bernardo e vira município
  • julho de 1953 — o governador Lucas Nogueira Garcez entrega a segunda pista
  • hoje — 1.049 estabelecimentos industriais, a maior proporção deste guia

Comparando com os vizinhos

Com São Bernardo do Campo: a mesma rodovia, o mesmo período, papéis opostos na cadeia produtiva. Um recebeu a montadora, o outro recebeu quem fabrica a peça. Diadema tem hoje mais indústria proporcional que a cidade de onde saiu.

Com Guarulhos: Guarulhos tem quase o dobro de indústrias em número absoluto, mas num território e num acervo três vezes e meia maiores. Em concentração, Diadema ganha com folga.

Com Osasco: as duas eram distritos de municípios maiores e se emanciparam no mesmo período. Osasco virou cidade de serviço; Diadema continuou fábrica.

O que ninguém explica

  • Março ou abril de 1947? Duas datas circulam para a mesma inauguração.
  • Por que as multinacionais escolheram São Bernardo e as nacionais, Diadema? A divisão é registrada como fato, sem explicação de causa.
  • O que existia no traçado antes de 1939? A obra atravessou território rural que não aparece documentado.

O que fica

Nos anos 1930, dezoito mil veículos por mês espremiam-se numa estrada de serra adaptada às pressas.

Em 1939 começaram a construir outra: 53 quilômetros, cinco túneis, duas pistas.

Em 1947 a primeira ficou pronta, e fábricas começaram a se instalar na beira dela.

Vinte meses depois, criou-se o distrito de Diadema. Quatro anos depois, a cidade.

De um lado da pista foram as montadoras estrangeiras. Do outro, as pequenas e médias brasileiras que faziam a peça que entrava no carro.

Setenta e nove anos se passaram. As montadoras encolheram, o ABC deixou de ser o que era, e a economia mudou de nome três vezes.

Mas Diadema continua sendo, em proporção, a cidade mais industrial deste guia — 1.049 fábricas e atacados em 15.190 endereços.

A rodovia decidiu, e a cidade nunca desmentiu.

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