O bairro · São Lourenço da Serra
São Lourenço da Serra nasceu na Aldeinha — que hoje tem 2 comércios entre os 579 da cidade
Dois caçadores chegaram no século XIX e acharam uma capela numa aldeia abandonada por causa da febre do ouro. Resolveram ficar. O lugar virou "Vilarejo dos Borbas", depois cidade — e o ponto de origem esvaziou.
Existe um bairro na divisa de São Lourenço da Serra com Itapecerica da Serra chamado Aldeinha.
O nome não é diminutivo afetuoso. É descrição: ali ficava uma aldeia.
Foi o ponto de partida de tudo — o lugar onde jesuítas catequizaram indígenas, onde se ergueu uma capela em honra de São Lourenço e onde, séculos depois, dois caçadores decidiram parar de caçar e ficar.
Desse "ficar" nasceu uma cidade.
E hoje, no acervo deste guia, a Aldeinha tem 2 estabelecimentos comerciais. Entre os 579 do município.
O aldeamento
A história oficial, publicada pela Câmara Municipal, começa com um deslocamento forçado.
O núcleo de população indígena da região aumentou muito com a vinda dos índios da aldeia de Carapicuíba, trazidos por Afonso Sardinha e doutrinados por Belchior de Pontes.
Depois vieram os jesuítas, que iniciaram com os índios o trabalho de catequização e o ensino da técnica do plantio.
E o texto oficial é explícito sobre onde isso aconteceu: "Esse lugar, hoje, é a divisa de São Lourenço da Serra com Itapecerica da Serra, bairro chamado Aldeinha."
Vale registrar quem são esses nomes, porque eles atravessam este guia inteiro.
Afonso Sardinha é o sertanista ligado às primeiras minas de ouro de São Paulo — e cujo papel nós já tivemos de corrigir nesta série, depois de descobrirmos que a data de 1589 que circulava em toda parte não se sustentava nas fontes. Belchior de Pontes é o jesuíta que atendia o aldeamento de Itapecerica e a aldeia de M'Boy, hoje Embu das Artes.
Os dois aparecem na história de Carapicuíba, de Itapecerica, de Embu — e aqui, na fundação de São Lourenço.
Os dois caçadores
E então vem a cena que dá título ao artigo.
Em meados do século XIX, chegaram à região dois caçadores: Manuel Soares de Borba e Manuel Mendes Rodrigues.
O que eles encontraram, segundo a Câmara, foi jesuítas e uma capela construída em honra de São Lourenço, no local da antiga aldeia abandonada por seus colonos em virtude da febre do ouro.
Pare nessa frase.
A aldeia tinha sido abandonada por causa da febre do ouro. Todo mundo foi embora atrás de mineração, e ficou para trás uma capela vazia num lugar esvaziado.
Os dois caçadores olharam aquilo e viram outra coisa. A terra era boa para a lavoura e para as pastagens.
Resolveram se estabelecer com suas famílias e dividiram as terras entre si.
Passaram a cultivar milho, feijão, cana-de-açúcar e mandioca. Fizeram um pomar, construíram uma moenda para produção de açúcar preto e um monjolo. Criaram gado leiteiro, porco, galinha e cavalo. E depois desenvolveram a produção e o comércio do carvão.
É a mesma economia que aparece na fundação de Suzano, onde a comunidade em volta da estação vivia da venda de carvão, lenha e madeira — assunto que tratamos no artigo sobre a Vila Amorim. Nas duas pontas da Grande São Paulo, no mesmo período, a floresta virava dinheiro do mesmo jeito.
Vilarejo dos Borbas
Com o tempo, as duas fazendas originais foram se transformando em um vilarejo, inicialmente chamado "Vilarejo dos Borbas".
Depois, o nome mudou para Bairro de São Lourenço da Serra — a invocação da capela que os caçadores encontraram de pé.
Repare no mecanismo, porque ele é idêntico ao de Juquitiba, a poucos quilômetros dali: o lugar passou a se chamar pelo sobrenome no plural da família que morava nele. Os Borba viraram Borbas.
Só que aqui o nome de família perdeu para o nome do santo. Em Juquitiba, os sobrenomes ficaram.
O caminho até virar município foi longo:
- 30 de dezembro de 1953 — criação do distrito
- 30 de dezembro de 1991 — plebiscito de emancipação, trinta e oito anos depois, no mesmo dia do mês
- 12 de março de 1992 — emancipação oficial
São Lourenço da Serra é, com Embu-Guaçu, Taboão da Serra e Juquitiba, uma das quatro cidades deste guia que saíram de Itapecerica da Serra. E é a mais nova de todas — tem trinta e quatro anos.
O bairro que esvaziou
Agora o dado que dá o nó.
São Lourenço da Serra tem 579 estabelecimentos no acervo deste guia, distribuídos por 40 bairros.
O Centro concentra 199 deles — 34% de todo o comércio da cidade. Depois vêm o Paiol do Meio, com 31, e o Despezio, com 16.
A Aldeinha aparece com 2.
O lugar onde a cidade começou — onde houve aldeamento, catequese, capela e as duas primeiras fazendas — é hoje, comercialmente, quase nada.
Isso não é uma crítica ao bairro. É a constatação de um fenômeno comum e pouco comentado: o ponto de origem de uma cidade e o seu centro econômico raramente são o mesmo lugar por muito tempo.
A Aldeinha está na divisa com Itapecerica, longe da rodovia e longe da sede. Quando o município se organizou, se organizou em outro ponto. O lugar fundador virou periferia rural.
É o inverso exato de Miracatu, onde a praia dos canoeiros de 1847 continua sendo, em 2026, o Centro com 28% do comércio da cidade. Lá a origem virou centro; aqui a origem virou divisa.
O perfil da cidade
Como a Aldeinha tem número pequeno demais para render leitura, vale olhar o município.
São Lourenço da Serra, com seus 579 estabelecimentos:
- Serviços e profissionais — 77
- Mercados e alimentos — 53
- Bares e restaurantes — 50
- Hospedagem e turismo — 48
- Beleza e bem-estar — 45
- Igrejas e templos — 42
Hospedagem em quarto lugar, num município de menos de seiscentos comércios.
Junto com Ibiúna e Juquitiba, São Lourenço forma o trio de cidades deste guia em que o turismo pesa de verdade na estrutura comercial. São as três cidades de serra, mata e água da porção sudoeste — a Grande São Paulo que as pessoas visitam em vez de habitar.
Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de São Lourenço da Serra, hospedagem e turismo, mercados e alimentos, bares e restaurantes e serviços e profissionais.
Linha do tempo
- séculos XVI–XVII — aldeamento indígena; índios trazidos de Carapicuíba por Afonso Sardinha e doutrinados por Belchior de Pontes
- período seguinte — a aldeia é abandonada em virtude da febre do ouro; fica a capela de São Lourenço
- meados do século XIX — os caçadores Manuel Soares de Borba e Manuel Mendes Rodrigues chegam, dividem as terras e se estabelecem
- anos seguintes — lavoura, pomar, moenda, monjolo, gado e, depois, o comércio do carvão
- as duas fazendas viram o "Vilarejo dos Borbas", depois Bairro de São Lourenço da Serra
- 30/12/1953 — criação do distrito
- 30/12/1991 — plebiscito de emancipação
- 12/03/1992 — emancipação oficial
Comparando com os vizinhos
Com a Fazenda da Ilha, em Embu-Guaçu: os dois bairros são o marco zero das suas cidades. Mas a Fazenda da Ilha tem 41 comércios e um museu na antiga casa sede; a Aldeinha tem 2.
Com Barnabés, em Juquitiba: as duas cidades saíram de Itapecerica e as duas nomearam lugares pelo sobrenome das famílias. Em Juquitiba os sobrenomes resistiram; aqui os Borbas perderam o nome para o santo.
Com Potuverá, em Itapecerica da Serra: a Aldeinha faz divisa justamente com Itapecerica, a cidade-mãe. Os dois bairros são rurais, e nos dois a história depende de quem se deu ao trabalho de escrever.
O que ninguém explica
- Onde estava exatamente a capela? O texto oficial situa o aldeamento na divisa, sem localizar a construção.
- Quando os caçadores chegaram? "Meados do século XIX" é toda a precisão que existe.
- Por que trinta e oito anos entre o distrito e o plebiscito? A cidade esperou quase quatro décadas, e o motivo não é registrado.
O que fica
Índios foram trazidos de Carapicuíba para um lugar na serra. Jesuítas os catequizaram e ensinaram a plantar. Ergueu-se uma capela em honra de São Lourenço.
Aí veio a notícia do ouro, e todo mundo foi embora.
Ficou a capela vazia, no meio do mato, por não se sabe quantos anos.
Até que dois caçadores passaram por ali no século XIX, viram que a terra era boa, chamaram as famílias e dividiram o lugar entre si.
Plantaram milho, feijão, cana e mandioca. Fizeram açúcar preto numa moenda. Venderam carvão.
O vilarejo levou o sobrenome deles, depois trocou pelo nome do santo, virou distrito em 1953 e cidade em 1992.
E o pedaço de chão onde nada disso teria acontecido — a Aldeinha — tem hoje dois comércios cadastrados.
A cidade que nasceu ali seguiu em frente, cresceu do outro lado e nunca mais voltou.
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