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O bairro · São Lourenço da Serra

São Lourenço da Serra nasceu na Aldeinha — que hoje tem 2 comércios entre os 579 da cidade

Dois caçadores chegaram no século XIX e acharam uma capela numa aldeia abandonada por causa da febre do ouro. Resolveram ficar. O lugar virou "Vilarejo dos Borbas", depois cidade — e o ponto de origem esvaziou.

· 8 min de leitura

Vista de São Lourenço da Serra

Existe um bairro na divisa de São Lourenço da Serra com Itapecerica da Serra chamado Aldeinha.

O nome não é diminutivo afetuoso. É descrição: ali ficava uma aldeia.

Foi o ponto de partida de tudo — o lugar onde jesuítas catequizaram indígenas, onde se ergueu uma capela em honra de São Lourenço e onde, séculos depois, dois caçadores decidiram parar de caçar e ficar.

Desse "ficar" nasceu uma cidade.

E hoje, no acervo deste guia, a Aldeinha tem 2 estabelecimentos comerciais. Entre os 579 do município.

O aldeamento

A história oficial, publicada pela Câmara Municipal, começa com um deslocamento forçado.

O núcleo de população indígena da região aumentou muito com a vinda dos índios da aldeia de Carapicuíba, trazidos por Afonso Sardinha e doutrinados por Belchior de Pontes.

Depois vieram os jesuítas, que iniciaram com os índios o trabalho de catequização e o ensino da técnica do plantio.

E o texto oficial é explícito sobre onde isso aconteceu: "Esse lugar, hoje, é a divisa de São Lourenço da Serra com Itapecerica da Serra, bairro chamado Aldeinha."

Vale registrar quem são esses nomes, porque eles atravessam este guia inteiro.

Afonso Sardinha é o sertanista ligado às primeiras minas de ouro de São Paulo — e cujo papel nós já tivemos de corrigir nesta série, depois de descobrirmos que a data de 1589 que circulava em toda parte não se sustentava nas fontes. Belchior de Pontes é o jesuíta que atendia o aldeamento de Itapecerica e a aldeia de M'Boy, hoje Embu das Artes.

Os dois aparecem na história de Carapicuíba, de Itapecerica, de Embu — e aqui, na fundação de São Lourenço.

Os dois caçadores

E então vem a cena que dá título ao artigo.

Em meados do século XIX, chegaram à região dois caçadores: Manuel Soares de Borba e Manuel Mendes Rodrigues.

O que eles encontraram, segundo a Câmara, foi jesuítas e uma capela construída em honra de São Lourenço, no local da antiga aldeia abandonada por seus colonos em virtude da febre do ouro.

Pare nessa frase.

A aldeia tinha sido abandonada por causa da febre do ouro. Todo mundo foi embora atrás de mineração, e ficou para trás uma capela vazia num lugar esvaziado.

Os dois caçadores olharam aquilo e viram outra coisa. A terra era boa para a lavoura e para as pastagens.

Resolveram se estabelecer com suas famílias e dividiram as terras entre si.

Passaram a cultivar milho, feijão, cana-de-açúcar e mandioca. Fizeram um pomar, construíram uma moenda para produção de açúcar preto e um monjolo. Criaram gado leiteiro, porco, galinha e cavalo. E depois desenvolveram a produção e o comércio do carvão.

É a mesma economia que aparece na fundação de Suzano, onde a comunidade em volta da estação vivia da venda de carvão, lenha e madeira — assunto que tratamos no artigo sobre a Vila Amorim. Nas duas pontas da Grande São Paulo, no mesmo período, a floresta virava dinheiro do mesmo jeito.

Vilarejo dos Borbas

Com o tempo, as duas fazendas originais foram se transformando em um vilarejo, inicialmente chamado "Vilarejo dos Borbas".

Depois, o nome mudou para Bairro de São Lourenço da Serra — a invocação da capela que os caçadores encontraram de pé.

Repare no mecanismo, porque ele é idêntico ao de Juquitiba, a poucos quilômetros dali: o lugar passou a se chamar pelo sobrenome no plural da família que morava nele. Os Borba viraram Borbas.

Só que aqui o nome de família perdeu para o nome do santo. Em Juquitiba, os sobrenomes ficaram.

O caminho até virar município foi longo:

  • 30 de dezembro de 1953 — criação do distrito
  • 30 de dezembro de 1991 — plebiscito de emancipação, trinta e oito anos depois, no mesmo dia do mês
  • 12 de março de 1992 — emancipação oficial

São Lourenço da Serra é, com Embu-Guaçu, Taboão da Serra e Juquitiba, uma das quatro cidades deste guia que saíram de Itapecerica da Serra. E é a mais nova de todas — tem trinta e quatro anos.

O bairro que esvaziou

Agora o dado que dá o nó.

São Lourenço da Serra tem 579 estabelecimentos no acervo deste guia, distribuídos por 40 bairros.

O Centro concentra 199 deles — 34% de todo o comércio da cidade. Depois vêm o Paiol do Meio, com 31, e o Despezio, com 16.

A Aldeinha aparece com 2.

O lugar onde a cidade começou — onde houve aldeamento, catequese, capela e as duas primeiras fazendas — é hoje, comercialmente, quase nada.

Isso não é uma crítica ao bairro. É a constatação de um fenômeno comum e pouco comentado: o ponto de origem de uma cidade e o seu centro econômico raramente são o mesmo lugar por muito tempo.

A Aldeinha está na divisa com Itapecerica, longe da rodovia e longe da sede. Quando o município se organizou, se organizou em outro ponto. O lugar fundador virou periferia rural.

É o inverso exato de Miracatu, onde a praia dos canoeiros de 1847 continua sendo, em 2026, o Centro com 28% do comércio da cidade. Lá a origem virou centro; aqui a origem virou divisa.

O perfil da cidade

Como a Aldeinha tem número pequeno demais para render leitura, vale olhar o município.

São Lourenço da Serra, com seus 579 estabelecimentos:

  • Serviços e profissionais — 77
  • Mercados e alimentos — 53
  • Bares e restaurantes — 50
  • Hospedagem e turismo — 48
  • Beleza e bem-estar — 45
  • Igrejas e templos — 42

Hospedagem em quarto lugar, num município de menos de seiscentos comércios.

Junto com Ibiúna e Juquitiba, São Lourenço forma o trio de cidades deste guia em que o turismo pesa de verdade na estrutura comercial. São as três cidades de serra, mata e água da porção sudoeste — a Grande São Paulo que as pessoas visitam em vez de habitar.

Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de São Lourenço da Serra, hospedagem e turismo, mercados e alimentos, bares e restaurantes e serviços e profissionais.

Linha do tempo

  • séculos XVI–XVII — aldeamento indígena; índios trazidos de Carapicuíba por Afonso Sardinha e doutrinados por Belchior de Pontes
  • período seguinte — a aldeia é abandonada em virtude da febre do ouro; fica a capela de São Lourenço
  • meados do século XIX — os caçadores Manuel Soares de Borba e Manuel Mendes Rodrigues chegam, dividem as terras e se estabelecem
  • anos seguintes — lavoura, pomar, moenda, monjolo, gado e, depois, o comércio do carvão
  • as duas fazendas viram o "Vilarejo dos Borbas", depois Bairro de São Lourenço da Serra
  • 30/12/1953 — criação do distrito
  • 30/12/1991 — plebiscito de emancipação
  • 12/03/1992 — emancipação oficial

Comparando com os vizinhos

Com a Fazenda da Ilha, em Embu-Guaçu: os dois bairros são o marco zero das suas cidades. Mas a Fazenda da Ilha tem 41 comércios e um museu na antiga casa sede; a Aldeinha tem 2.

Com Barnabés, em Juquitiba: as duas cidades saíram de Itapecerica e as duas nomearam lugares pelo sobrenome das famílias. Em Juquitiba os sobrenomes resistiram; aqui os Borbas perderam o nome para o santo.

Com Potuverá, em Itapecerica da Serra: a Aldeinha faz divisa justamente com Itapecerica, a cidade-mãe. Os dois bairros são rurais, e nos dois a história depende de quem se deu ao trabalho de escrever.

O que ninguém explica

  • Onde estava exatamente a capela? O texto oficial situa o aldeamento na divisa, sem localizar a construção.
  • Quando os caçadores chegaram? "Meados do século XIX" é toda a precisão que existe.
  • Por que trinta e oito anos entre o distrito e o plebiscito? A cidade esperou quase quatro décadas, e o motivo não é registrado.

O que fica

Índios foram trazidos de Carapicuíba para um lugar na serra. Jesuítas os catequizaram e ensinaram a plantar. Ergueu-se uma capela em honra de São Lourenço.

Aí veio a notícia do ouro, e todo mundo foi embora.

Ficou a capela vazia, no meio do mato, por não se sabe quantos anos.

Até que dois caçadores passaram por ali no século XIX, viram que a terra era boa, chamaram as famílias e dividiram o lugar entre si.

Plantaram milho, feijão, cana e mandioca. Fizeram açúcar preto numa moenda. Venderam carvão.

O vilarejo levou o sobrenome deles, depois trocou pelo nome do santo, virou distrito em 1953 e cidade em 1992.

E o pedaço de chão onde nada disso teria acontecido — a Aldeinha — tem hoje dois comércios cadastrados.

A cidade que nasceu ali seguiu em frente, cresceu do outro lado e nunca mais voltou.

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