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O bairro · Juquitiba

Juquitiba batiza seus bairros com sobrenome no plural — Barnabés, Britos, Justos, Ritas, Camargos

O distrito de Barnabés foi criado em 1996 e é o mais novo deste guia. Mas o nome segue a regra da cidade inteira: bairro se chama como a família que morava ali. E um deles guarda um sobrenome alemão traduzido.

· 8 min de leitura

Vista de Juquitiba

Abra a lista oficial de bairros de Juquitiba e você vai notar uma coisa estranha logo na primeira leitura.

Barnabés. Britos. Justos. Ritas. Carmos. Soares. Pires. Rosas. Brancos. Camargos. Vitalinos. Quirobes. Marrecas. Senhorinhas. Padeiros. Limeiras.

Todos no plural. Todos com cara de sobrenome.

Não é impressão. É o sistema de nomenclatura de um município inteiro — e ele responde, de graça, uma pergunta que a maioria dos bairros deste guia não consegue responder.

"Barnabés" quer dizer: onde moram os Barnabé.

A regra da cidade

O Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos de Juquitiba, documento da própria prefeitura, traz a lista completa dos bairros e do distrito.

E ela é dominada por sobrenomes pluralizados. Ao lado deles convivem nomes de acidente geográfico — Pedra Branca, Pedra Lisa, Morro Grande, Ribeirão Grande, Meia Légua, Cachoeirinha — e alguns nomes de vila.

É o padrão clássico de ocupação rural: cada família se instalava num trecho, o vizinho passava a se referir àquele trecho pelo sobrenome de quem morava lá, e o uso virou nome oficial.

Exatamente o inverso de um loteamento urbano, onde uma pessoa só batiza dezenas de ruas de uma vez com um tema escolhido — como vimos nas ruas de município da Vila Virgínia, em Itaquá, e nos prenomes femininos do Parque dos Camargos, em Barueri.

Em Juquitiba, ninguém batizou nada. Os nomes se acumularam.

O bairro que guarda um sobrenome traduzido

E há um detalhe nessa lista que é uma pequena joia.

O mesmo documento da prefeitura lista os sobrenomes das famílias alemãs que chegaram à região a partir da colônia fundada em 1827, no antigo município de Santo Amaro — episódio que contamos no artigo sobre a colônia alemã de Itapecerica.

Entre eles estão Hengles, Klein, Moor, Reimberg, Schunck, Weishaupt — e Schuster, que o documento registra assim: "Schuster (Justo)".

Ou seja: o sobrenome alemão Schuster foi aportuguesado como Justo.

E existe, em Juquitiba, o bairro dos Justos.

Se a leitura estiver certa — e o documento da prefeitura é quem faz a associação entre os dois nomes —, há um bairro no município cujo nome é a tradução de um sobrenome trazido por colonos alemães há quase duzentos anos.

O mesmo sobrenome Hengles, aliás, dá nome a uma estrada em Potuverá, em Itapecerica da Serra, sobre o qual escrevemos nesta mesma rodada. As famílias de 1827 se espalharam pela região toda, e o rastro delas está nas placas.

O distrito mais novo deste guia

Agora a parte administrativa, e ela é surpreendente.

Segundo o documento da prefeitura, foi só em 1996 — pela Lei nº 698, de 10 de abril — que foi criado o distrito de Barnabés e anexado ao município de Juquitiba.

Juquitiba é formada pela sede e por esse único distrito.

Trinta anos. É o distrito mais recente entre todos os que este guia já tratou. Para efeito de comparação: Jundiapeba, em Mogi, é distrito desde 1938; Paruru, em Ibiúna, desde os anos 1950 ou 1960.

Pelo Censo 2010, o distrito tinha 6.224 habitantes e 85,653 km² de área.

Repare no número: oitenta e cinco quilômetros quadrados. É mais que quatro vezes o território inteiro de Taboão da Serra, que tem cerca de 20 km² — e onde vivem mais de duzentas mil pessoas.

Seis mil habitantes espalhados por uma área quatro vezes maior que a cidade mais densa do estado. Essa é a diferença entre a Grande São Paulo urbana e a Grande São Paulo que quase ninguém visita.

A rodovia que é a única entrada

Há um fato sobre Juquitiba que o documento da prefeitura afirma sem rodeio e que muda tudo:

"O município de Juquitiba possui somente um acesso, através da Rodovia Régis Bittencourt (BR-116)."

Um só. A entrada do município fica no km 326.

E a rodovia tem história própria: foi primeiro chamada BR-2 e, em 1970, renomeada BR-116, aproveitando em parte os estudos levantados para a Empresa de Colonização Paulista — recebendo então o nome de Rodovia Federal Régis Bittencourt.

Esta é a terceira vez nesta rodada que a Régis aparece. Ela corta a Cidade Intercap, em Taboão da Serra, passa por Potuverá no km 294 e entra em Juquitiba no km 326.

Trinta e dois quilômetros separam um bairro rural de Itapecerica de um município inteiro que depende dela para existir.

O que o acervo do guia mostra

Este guia mapeia 47 estabelecimentos em Barnabés, dos quais 46 têm telefone.

É o terceiro bairro de Juquitiba em número de comércios, entre os 87 bairros que a cidade tem no acervo.

O perfil:

  • Serviços e profissionais — 9
  • Construção e reforma — 7
  • Igrejas e templos — 6
  • Oficinas e serviços para veículos — 4
  • Bares e restaurantes — 4
  • Saúde — 3

Igrejas em terceiro — o mesmo padrão de Paruru, de Jundiapeba e de todo núcleo afastado da sede.

E o município inteiro reforça isso. Juquitiba tem 1.084 estabelecimentos, e ali igrejas e templos empata em primeiro lugar com serviços, com 113 cada. Hospedagem vem em terceiro, com 107.

Só duas cidades deste guia colocam turismo tão alto: Juquitiba e Ibiúna. E não é por acaso — o município abriga o percurso de rafting mais antigo do Brasil, no Rio Juquiá, e a Represa Cachoeira do França, na divisa com Ibiúna, procurada para atividades náuticas e pesca esportiva. Em 2018 foi inaugurado o Observatório do Turismo de Juquitiba, dedicado a educação ambiental, pesquisa e conservação da Mata Atlântica.

Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Juquitiba, hospedagem e turismo, igrejas e templos, construção e reforma e serviços e profissionais.

Uma divergência sobre a fundação da cidade

Vale registrar, porque encontramos a contradição dentro do mesmo documento oficial.

O texto narrativo da prefeitura diz que, em 1887, Manoel Jesuíno Godinho e sua mulher, Dona Francisca Maria da Penha, proprietários de terras na região, doaram dois alqueires para a construção da capela em louvor de Nossa Senhora das Dores, padroeira de Juquitiba — oferecendo também lotes gratuitos a quem quisesse se fixar e fornecendo madeira para a construção das casas.

Mas a cronologia do mesmo documento registra a doação em 1877, "pela escritura de 1º de novembro, lavrada no Tabelião de Itapecerica".

Dez anos de diferença, no mesmo arquivo.

A cronologia também informa que, em 1867, foi legitimada a posse dos que podem ser considerados os primeiros moradores de Juquitiba, entre eles o próprio Godinho. E que o primeiro agrupamento se chamou Capela Nova de Bela Vista do Juquiá, até que, em dezembro de 1907, foi criado o distrito.

Ficamos com as duas datas anotadas, sem escolher.

E vale notar a coincidência: a padroeira de Juquitiba é Nossa Senhora das Dores — a mesma invocação da capela que deu origem a Miracatu, do outro lado da serra.

Sobre o significado de "Juquitiba"

Um alerta necessário.

O documento da prefeitura afirma que Juquitiba vem do tupi yu-kui-i-ti-ba, "terra de muitas águas".

Essa é a versão corrente, e ela circula em toda parte. Mas na auditoria de etimologias que fizemos nesta série, a decomposição de Eduardo de Almeida Navarro aponta para outro caminho — îukyra + tyba —, que leva a "salina", e não a água doce. Tratamos disso no artigo sobre o nome de Juquitiba.

Estamos diante de uma divergência entre a versão oficial da prefeitura e a obra de referência em tupi antigo. Registramos as duas, e não fingimos que a questão está resolvida.

Comparando com os vizinhos

Com Paruru, em Ibiúna: os dois são distritos rurais com o mesmo perfil de mercado e igreja no topo, e as duas cidades têm hospedagem entre as três maiores categorias. São vizinhas e são parecidas.

Com Potuverá, em Itapecerica: os dois estão na Régis, e nos dois a toponímia é de sobrenome de família. Lá são as estradas; aqui são os bairros inteiros.

Com a Aldeinha, em São Lourenço da Serra: os dois municípios saíram de Itapecerica, e nos dois a história começa com famílias que se instalaram e deram nome ao lugar.

O que ninguém explica

  • Quem foram os Barnabé? O distrito leva o sobrenome deles, e não há registro de quem eram.
  • 1877 ou 1887? O documento da prefeitura traz as duas datas para a mesma doação.
  • Por que só em 1996? O bairro é antigo e a criação do distrito é de trinta anos atrás, sem motivo registrado.

O que fica

Numa cidade que só tem uma entrada, no quilômetro 326 de uma rodovia federal, os bairros levam o sobrenome das famílias que chegaram primeiro.

Os Brito viraram Britos. As Rita viraram Ritas. Os Camargo viraram Camargos. E os Barnabé viraram Barnabés — o único distrito do município, criado em 1996, com 6.224 habitantes espalhados por 85 quilômetros quadrados.

Em algum ponto dessa lista está, muito provavelmente, um sobrenome alemão de 1827 que alguém traduziu para o português e que virou o nome de um bairro inteiro.

Juquitiba não tem cartório de loteamento contando sua história.

Tem uma lista de bairros — e ela é, do começo ao fim, um cadastro de quem morava onde.

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