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O que só existe aqui · Barueri

O projeto de Alphaville foi vetado pelo prefeito — e o plano B virou o maior polo de serviços do estado

Em 1973, dois engenheiros compraram 4,9 milhões de m² em Barueri para fazer um bairro residencial. A prefeitura barrou. O que eles fizeram em seguida mudou a economia da cidade para sempre.

· 8 min de leitura

Vista de Barueri

A história que todo mundo conta sobre Alphaville é a do nome: veio de um filme francês de ficção científica de 1965, dirigido por Jean-Luc Godard, sobre uma cidade controlada por um computador onde emoção é proibida.

É verdade, e está no artigo sobre a origem do nome de Barueri.

Mas há uma história melhor, e quase ninguém a conta: o projeto original foi vetado pela prefeitura.

O que existe hoje é o plano B.

1973: a oferta

Naquele ano, o advogado Antônio Pádua Pereira de Almeida, representando os herdeiros do Conde Álvares Penteado — dono da fazenda Tamboré —, procurou o engenheiro Renato de Albuquerque.

A oferta: 4,9 milhões de metros quadrados de terra em Barueri.

Quase cinco quilômetros quadrados. Para efeito de comparação, é quase um quarto do território inteiro de Taboão da Serra, que tem cerca de 20 km² e é a cidade mais densa do estado.

Albuquerque levou a proposta ao sócio, Yojiro Takaoka, da Construtora Albuquerque e Takaoka.

Os dois haviam identificado uma demanda por residências de alto padrão na região, e formataram a ideia de um loteamento residencial.

E a prefeitura disse não

O projeto foi vetado pelo prefeito da época, Gugliemo Gugliemi.

Pare um segundo nisso.

O empreendimento que viria a ser o caso mais citado de bairro planejado do Brasil — que se replicaria em dezenas de cidades e viraria substantivo comum no mercado imobiliário — não foi autorizado.

Cinco quilômetros quadrados de terra comprada, um projeto pronto, e a licença negada.

O plano B

E aqui está o momento que decidiu a economia de Barueri para os cinquenta anos seguintes.

Em vez de desistir ou brigar, os sócios mudaram o produto. Decidiram criar o primeiro centro industrial e empresarial do Brasil para indústrias não poluentes, com infraestrutura própria e regras claras de uso e ocupação do solo.

Não um condomínio de casas: um parque empresarial.

Em setembro de 1973, com projeto de arquitetos renomados, começou a construção. O aniversário de Alphaville é comemorado em 21 de setembro.

O conceito de urbanismo planejado que nasceu ali se espalhou pelo país.

Por que o plano B era melhor que o plano A

O veto forçou uma decisão que, em retrospecto, valeu muito mais.

Um loteamento residencial gera IPTU e pouco mais. Um centro empresarial gera ISS — imposto sobre serviços —, que é recorrente, alto e pago por empresas.

E Barueri fez a segunda jogada: fixou a alíquota de ISS em 2% para grande parte do setor de serviços, a menor do estado de São Paulo (o teto legal é 5%).

Terra grande, regras claras, infraestrutura pronta e o menor imposto do estado. O resultado foi um imã.

O polo de Alphaville e Tamboré abriga hoje empresas como Azul Linhas Aéreas, Cielo, Livelo, C&A, Alelo, CSU Digital e o Grupo Scala Data Centers.

Os números de hoje

  • 2ª cidade mais rica da região oeste da Grande São Paulo
  • PIB superior a R$ 58 bilhões
  • 81,9% do PIB vêm de serviços; apenas 13% da indústria
  • 5º maior PIB do estado de São Paulo

Um município que, no século XVI, foi o maior aldeamento indígena de São Paulo — fundado por Anchieta em 11 de novembro de 1560 — virou o quinto maior PIB do estado por causa de um veto e de uma alíquota.

O acervo confirma, e de um jeito que surpreende

Este guia mapeia 19.629 estabelecimentos em Barueri, dos quais 18.090 têm telefone, distribuídos por 336 bairros.

E o perfil é o mais desequilibrado das vinte cidades:

  • Serviços e profissionais — 3.672
  • Outros — 2.581
  • Bares e restaurantes — 1.828
  • Beleza e bem-estar — 1.652

A primeira categoria tem mais que o dobro da terceira. Em nenhuma outra cidade do guia a distância entre o topo e o resto é tão grande.

Isso não é coincidência nem estatística solta: é a alíquota de 2% aparecendo na contagem de portas abertas. Barueri não é uma cidade que também tem serviços — é uma cidade feita de serviços, e o dado bruto mostra isso sem precisar de análise econômica.

Quem quiser navegar as três Baruerís — a corporativa, a de condomínio e a de bairro — pode ver o guia completo de Barueri, serviços e profissionais, bares e restaurantes, beleza e bem-estar e saúde.

Linha do tempo

  • 11/11/1560 — Anchieta funda o aldeamento de Barueri, que se tornaria o maior de São Paulo
  • 1965 — estreia "Alphaville", de Jean-Luc Godard
  • 1973 — o advogado Antônio Pádua oferece 4,9 milhões de m² da fazenda Tamboré a Renato de Albuquerque
  • 1973 — o projeto residencial é vetado pelo prefeito Gugliemo Gugliemi
  • setembro/1973 — começa a construção do centro industrial e empresarial
  • 21 de setembro — data comemorativa de Alphaville
  • hoje — 5º maior PIB do estado; 81,9% em serviços; ISS de 2%

O que a cidade virou depois

Meio século depois do veto, Barueri acumula marcas que uma cidade de periferia metropolitana raramente tem.

A Arena Barueri registrou público de 29.647 pessoas num Palmeiras x Corinthians em 2024 — e foi lá que Rogério Ceni marcou o gol de número 100 da carreira, um feito sem paralelo para um goleiro.

E há um indicador menos visível e mais importante: a cidade atingiu a menor taxa de homicídios dolosos de sua história, com 3,81 por 100 mil habitantes, superando o recorde anterior de 5,82, de 2010.

Para dimensionar: são números de país europeu, num município da Grande São Paulo.

Nada disso estava no projeto de 1973. São consequências de segunda ordem de uma decisão econômica — quando a arrecadação por habitante sobe, sobe também o que se pode gastar em segurança, esporte e infraestrutura.

O veto do prefeito Gugliemi mudou muito mais coisa do que o uso de um terreno.

A cidade que existia antes de 1973

Alphaville domina de tal forma a conversa sobre Barueri que é fácil esquecer que havia uma cidade ali antes — e que ela é muito mais antiga que quase todas as vizinhas.

O aldeamento foi fundado por José de Anchieta em 11 de novembro de 1560, na margem direita do rio Tietê, pouco acima da confluência com o Rio Barueri Mirim. Ele ergueu ali a Capela de Nossa Senhora da Escada, e a primeira missa foi rezada em 21 de novembro de 1560 — o que tornou a santa padroeira da cidade que nascia.

A imagem de Nossa Senhora da Escada é tombada pelo CONDEPHAAT.

E aquele aldeamento não era um posto perdido no mato: tornou-se o maior de São Paulo e um dos mais importantes do Brasil colônia, pelo contingente populacional que reuniu.

Some-se o nome do lugar, que também não é o que a lenda diz. Barueri não significa "flor vermelha que encanta" — vem da junção da palavra francesa barrière (barreira) com o vocábulo indígena mbaruery (rio encachoeirado): a barreira que encachoeira o rio, na bifurcação do antigo Anhembi.

Pedra, corredeira e aldeia. Quatro séculos antes de qualquer torre de vidro.

Comparando com as vizinhas

Com Carapicuíba: foi distrito de Barueri até 1965. Hoje Barueri arrecada cerca de R$ 9 mil por morador; Carapicuíba, cerca de R$ 1 mil. Nove vezes, entre cidades que já foram a mesma e cujos moradores cruzam a divisa todo dia para trabalhar. Enquanto Barueri recebia um parque empresarial, Carapicuíba recebia 13,5 mil apartamentos da COHAB e poucos empregos. As duas trajetórias começam praticamente no mesmo ano.

Com Osasco: vizinhas e complementares. Osasco virou o centro comercial da região; Barueri, o centro corporativo.

Com Taboão da Serra: o contraste de território. Barueri usou 4,9 km² para um único empreendimento; Taboão inteira tem cerca de 20 km² e 270 mil habitantes.

O que ninguém explica

  • Por que Gugliemo Gugliemi vetou? O motivo do veto raramente aparece nos relatos. Foi resistência a loteamento de alto padrão, disputa política, questão urbanística?
  • Os idealizadores tinham visto o filme? É a melhor pergunta em aberto da história urbana paulista, e não há resposta documentada.
  • O que teria acontecido se o projeto original fosse aprovado? Barueri seria hoje um bairro-dormitório de luxo em vez do quinto PIB do estado.

O que fica

Um padre jesuíta fundou ali, em 1560, o maior aldeamento indígena de São Paulo.

Quatrocentos e treze anos depois, dois engenheiros compraram quase cinco quilômetros quadrados de uma antiga fazenda e planejaram um bairro residencial.

O prefeito disse não.

Eles então construíram outra coisa — e essa outra coisa, somada a uma alíquota de 2%, transformou uma cidade de periferia metropolitana no quinto maior PIB do estado de São Paulo.

Alphaville é, literalmente, o que sobrou de um projeto negado. Poucas negativas na história do Brasil renderam tanto.

BarueriAlphavilleTamboréUrbanismoEconomia

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