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O bairro · Cotia

A Granja Viana existe porque um homem gostava de gado leiteiro — e o irmão importou vacas da Holanda

Nos anos 1930 a família Vianna comprou terras nos quilômetros 23 e 24 da Raposo. Genuíno era apaixonado por gado; Niso pagou a conta. A granja de leite deu nome ao lugar, e o nome sobreviveu à granja.

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Vista de Cotia

Um dos endereços mais valorizados da Grande São Paulo tem nome de fazenda de leite.

E ela existiu porque um homem gostava de vaca.

Os irmãos Vianna

No fim dos anos 1930, a família Vianna comprou uma grande área na região.

O patriarca, Niso, era industrial do ramo de fertilizantes — dinheiro vindo da química agrícola, não da terra.

Mas quem decidiu o destino do lugar foi o irmão, Genuíno, que era apaixonado por gado leiteiro.

Genuíno convenceu Niso a importar cabeças de gado da Holanda e dos Estados Unidos para montar uma granja de leite.

E é o negócio da granja de leite que dá nome ao lugar.

Repare no que isso significa: o bairro mais valorizado de Cotia se chama assim por causa de um hobby de pecuária financiado por um irmão que ganhava dinheiro com fertilizante.

Um "n" que se perdeu no caminho

Um detalhe pequeno e revelador: a família é Vianna, com dois "n". O bairro é Viana, com um.

É o que costuma acontecer quando um nome de família cai no uso público — a grafia se simplifica, o cartório e a placa divergem, e a versão mais fácil vence.

O mesmo movimento do Jardim Zaira, em Mauá, onde os moradores acrescentaram um acento que o loteador não tinha posto.

Nome de bairro não pertence a quem o dá. Pertence a quem o pronuncia.

O que havia ali antes das vacas

Antes da granja, aquelas terras não eram mato vazio.

Durante anos, a Granja Viana e seus arredores eram dominados por olarias e por plantações de verduras e legumes.

E há um detalhe que amarra este artigo a outro desta série: os produtores eram, em sua predominância, de origem oriental — e faziam parte da Cooperativa Agrícola de Cotia.

A CAC é a maior história econômica do município: fundada em dezembro de 1927 por 83 produtores de batata japoneses, chegou em 1987 a 15 mil cooperados em 15 estados, faturando US$ 760 milhões por ano. Encerrou as atividades em 30 de setembro de 1994, com dívida de cerca de R$ 1,5 bilhão. A história completa está no artigo sobre a cooperativa.

Ou seja: o chão onde hoje estão condomínios de alto padrão era, há noventa anos, horta de imigrante japonês cooperado.

Três camadas no mesmo lugar — olaria, horta, granja de leite — antes da quarta, que é a que todo mundo conhece.

Quilômetro 23, quilômetro 24

A Granja Viana original vinha da fazenda que ocupava os quilômetros 23 e 24 da Rodovia Raposo Tavares.

Hoje o nome virou outra coisa: é referência para residenciais e condomínios desde o km 21 até quase o km 28.

Sete quilômetros de rodovia carregando o nome de uma fazenda que ocupava dois.

E é por isso que a Granja Viana não cabe num município só. O nome se espalhou para além da divisa de Cotia, e hoje serve de endereço para gente que mora em municípios vizinhos.

É um caso raro: um bairro que virou marca geográfica, descolada do território que a originou.

Medir em quilômetro de rodovia

Repare numa coincidência entre este artigo e o do KM 18, em Osasco.

Lá, o bairro se chama pela distância no trilho da Estrada de Ferro Sorocabana. Aqui, o lugar se localiza pela distância na Rodovia Raposo Tavares.

Nos dois casos, a infraestrutura de transporte virou o sistema de coordenadas — e o nome do lugar passou a ser uma medida.

Cotia, aliás, nasceu exatamente disso: era pouso de tropeiros, ponto de parada na estrada para o Sul. E há uma leitura da etimologia da cidade que combina com isso: "Akuti'a", do guarani, que pode ser traduzido como "ponto de encontro" — versão que concorre com a do roedor, como conta o artigo sobre a origem do nome de Cotia.

Pouso, estrada, quilômetro. O assunto de Cotia sempre foi passagem.

O que o acervo do guia mostra sobre a Granja Viana

Este guia mapeia 278 estabelecimentos na Granja Viana, dos quais 266 têm telefone.

É o terceiro bairro de Cotia em número de comércios, entre os 432 bairros que a cidade tem no acervo — a maior dispersão de bairros de todo o guia.

E o perfil é o mais atípico deste bloco:

  • Serviços e profissionais — 59
  • Saúde — 31
  • Bares e restaurantes — 30
  • Mercados e alimentos — 23

Saúde em segundo lugar.

Isso praticamente não acontece em bairro nenhum desta série. Nos outros quatro deste bloco, o segundo lugar é de mercados ou de alimentação — o comércio básico de quem mora.

Saúde em segundo significa clínica, consultório, laboratório, especialista. É o retrato de um lugar com renda alta e demanda por serviço qualificado, não por conveniência.

E há o outro lado do mesmo dado: mercados em último, com apenas 23. Num bairro de condomínio, o abastecimento se concentra em poucos estabelecimentos grandes e o morador vai de carro — o oposto da mercearia de esquina que sustenta o Jardim Zaira ou Jundiapeba.

Duzentos e setenta e oito estabelecimentos é pouco em número absoluto, para um bairro tão conhecido. Mas é exatamente o que se espera de ocupação de baixa densidade em área grande.

Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Cotia, saúde, serviços e profissionais, bares e restaurantes e pet e agropecuária.

Linha do tempo

  • século XVIII — Cotia é pouso de tropeiros na rota para o Sul
  • 1913 — chegam os primeiros imigrantes japoneses ao município
  • dezembro/1927 — fundação da Cooperativa Agrícola de Cotia, com 83 produtores de batata
  • anos anteriores a 1930 — a região da futura Granja Viana é de olarias e hortas de cooperados
  • fim dos anos 1930 — a família Vianna compra a área; Genuíno convence Niso a importar gado da Holanda e dos EUA
  • décadas seguintes — a granja de leite dá nome ao lugar
  • 30/09/1994 — a Cooperativa Agrícola de Cotia encerra as atividades
  • hoje — "Granja Viana" nomeia residenciais do km 21 ao km 28 da Raposo

Comparando com os vizinhos

Com o Jardim Zaira, em Mauá: os dois levam nome de família. Mas o Zaira homenageia uma mãe e virou o bairro mais populoso da cidade, com 100 mil pessoas em 5 km². A Granja Viana homenageia um negócio de leite e virou o oposto: poucos moradores em muito espaço.

Com o Campestre, em Santo André: os dois têm perfil de renda mais alta, e nos dois a categoria saúde aparece entre as maiores. É a assinatura estatística de bairro de classe média para cima.

Com o resto de Cotia: o município tem 432 bairros para 12.899 estabelecimentos — a maior dispersão do guia. A Granja Viana é uma das várias "cidades" que compõem Cotia.

O que ninguém explica

  • O que aconteceu com a granja de leite? O negócio que deu nome ao lugar tem começo documentado e fim não registrado.
  • Quem eram os produtores orientais que trabalhavam ali antes? Aparecem como categoria, não como pessoas.
  • Quando "Granja Viana" deixou de ser uma fazenda e virou uma região? A expansão do km 23–24 para o km 21–28 aconteceu sem marco.

O que fica

Nos anos 1930, um industrial de fertilizantes comprou terra em Cotia porque o irmão gostava de vaca.

Importaram gado da Holanda e dos Estados Unidos, montaram uma granja de leite nos quilômetros 23 e 24 da Raposo Tavares, e o negócio deu nome ao lugar.

Antes deles, ali havia olaria e horta de imigrante japonês cooperado.

Depois deles, veio o condomínio.

A granja acabou. As vacas holandesas se foram. E o nome se espalhou por sete quilômetros de rodovia, virou endereço de prestígio e hoje aparece em anúncio de imóvel de gente que nunca viu uma vaca leiteira de perto.

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