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O que a cidade come · Osasco

Osasco tem 582 lanchonetes e 366 bares — a cidade que come de pé e bebe na esquina

É a maior densidade de lanchonete entre as cidades grandes do guia, 15,4 por mil, e a segunda maior de bar. Numa cidade onde 728 mil pessoas entram e saem todo dia, a comida virou coisa de balcão.

· 8 min de leitura

Vista de Osasco

Osasco tem 582 lanchonetes.

Para comparação, a cidade tem 149 padarias e 84 açougues.

Quase quatro lanchonetes para cada padaria. Sete para cada açougue.

E 15,4 lanchonetes por mil estabelecimentos é a maior densidade entre todas as cidades grandes deste guia.

O que a Receita chama de lanchonete

Vale delimitar, porque o nome engana.

O CNAE "Lanchonetes, casas de chá, de sucos e similares" não conta só a lanchonete de esquina. Ele abriga todo o comércio de balcão e refeição rápida: pastelaria, casa de salgado, ponto de açaí, casa de suco, café simples, quiosque de shopping, lugar de comer em pé.

É a categoria da refeição que se resolve em quinze minutos, em pé, no caminho de algum lugar.

E ela é, no acervo inteiro deste guia, uma das maiores de todas — o que faz sentido: é o comércio de comida mais barato de montar e o mais fácil de sustentar.

Os números de Osasco

A cidade tem 37.881 estabelecimentos. O ramo de comida:

  • Lanchonetes — 582 (15,4 por mil)
  • Restaurantes e similares — 509 (13,4)
  • Bares — 366 (9,7 — 2º do guia)
  • Pizzarias — 218 (5,8)
  • Fornecimento de alimentos preparados — 216 (5,7)
  • Mercados e mercearias — 212 (5,6)
  • Comércio de bebidas — 209 (5,5)
  • Padarias — 149 (3,9)
  • Açougues — 84 (2,2)

Some lanchonete, restaurante e marmita: 1.307 estabelecimentos servindo refeição pronta.

Agora some padaria, mercearia e açougue: 445 vendendo comida para levar e cozinhar.

Quase três para um.

Uma cidade que é corredor

A explicação está no que Osasco é geograficamente.

O município tem 728 mil habitantes em pouco menos de 65 km² — é a sexta cidade mais populosa do estado, e uma das mais densas.

E é atravessada por dois eixos de transporte pesado: a linha ferroviária da antiga Sorocabana, hoje CPTM, e a rodovia Castello Branco às margens.

Isso cria um fluxo diário enorme de gente atravessando a cidade — indo para São Paulo pela manhã, voltando à noite, ou vindo de Carapicuíba, Barueri e Itapevi para trabalhar ali.

Onde há muita gente em trânsito e pouco tempo, o comércio de comida se organiza em balcão, não em mesa. Come-se antes do trem, no intervalo, na saída.

Os 582 lanchonetes são a infraestrutura alimentar desse deslocamento.

E os 366 bares

O segundo lugar do guia em bar por comércio, atrás só de Mauá, conta a outra metade da história.

A lanchonete resolve a ida. O bar resolve a volta.

E as três cidades com mais bar por comércio — Mauá (10,2), Osasco (9,7) e Carapicuíba (9,4) — têm exatamente o mesmo perfil: densamente povoadas, trabalhadoras, com deslocamento diário longo e renda que não comporta lazer caro.

Nenhuma das três é cidade de escritório. Todas são cidade de gente.

O que Osasco não tem

Dois números por contraste, e os dois são reveladores.

84 açougues, 2,2 por mil — uma das menores taxas do guia. E 30 hortifrútis, 0,8 por mil, também baixo.

Açougue e hortifrúti são o comércio de quem cozinha em casa. Numa cidade onde três em cada quatro estabelecimentos de comida servem refeição pronta, eles perdem espaço.

Parte disso é substituição por supermercado — Osasco é grande e adensada o bastante para ter rede, ao contrário de Miracatu, onde a ausência de rede fez do açougue o líder do guia.

E parte é tempo. Quem sai de casa às seis e volta às nove da noite não passa no açougue.

A cidade que virou serviço

Vale fechar com o que este guia já mediu em Osasco por outros ângulos.

O município tem apenas 1,7% de indústria no acervo — uma das menores proporções do guia, apesar de ter sido palco do último levante operário antes do AI-5, em 1968.

E o decreto que criou a cidade é de 31 de dezembro de 1958, não de 1962 — o ano que ela comemora é o da posse do primeiro prefeito, história que contamos aqui.

Em 1948, um jornal registrava que oitenta mil habitantes pagavam mais de quatro milhões de cruzeiros de imposto e dividiam uma escola pública.

Setenta e oito anos depois, a cidade tem 37.881 comércios, 728 mil habitantes e o quarto maior acervo do guia.

E come de pé.

Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Osasco, bares e restaurantes, mercados e alimentos e serviços e profissionais.

Uma ressalva sobre o método

Lanchonete, restaurante, padaria, açougue, adega, marmita e hortifrúti vêm do CNAE declarado à Receita Federal. Bar, pizzaria e mercado vêm do rótulo de categoria do acervo.

O CNAE cobre 76% das fichas do ramo — os números são piso, não total.

E vale a advertência de sempre: o CNAE informa atividade declarada, não porte. As 582 lanchonetes de Osasco vão do quiosque de um metro quadrado à casa de salgados com vinte funcionários. O acervo conta as duas como uma.

Este artigo não afirma que os osasquenses comem pior ou melhor. Afirma como o comércio se organiza — e ele se organiza em torno de quem está a caminho de outro lugar.

Onde estão as 582 lanchonetes

Osasco é uma das cidades em que o cadastro de bairro funciona bem, e o mapa é revelador:

  • Centro — 92
  • Vila Yara — 38
  • KM 18 — 29
  • Vila Campesina — 22

E 65 registradas apenas sob o nome do município.

Noventa e duas lanchonetes num bairro só. É o retrato do Centro como ponto de passagem: quem desce do trem, quem espera o ônibus, quem trabalha no comércio e come em quinze minutos.

Mas o terceiro colocado é o mais interessante desta série.

O KM 18 é o bairro que nasceu de um marco de ferrovia — e cuja primeira casa foi construída por um italiano que chegou em 1912, história que contamos aqui.

Ele leva o nome da distância medida a partir da Estação da Luz, e virou um dos maiores centros comerciais da cidade.

Vinte e nove lanchonetes num bairro batizado por uma medida de trilho. Cento e catorze anos depois de a primeira casa ser levantada ali, o comércio continua organizado em torno da mesma coisa: gente passando.

Lanchonete não é padaria

Vale distinguir os dois, porque é fácil confundi-los e a diferença explica Osasco.

A padaria vende para levar. Você compra o pão e vai embora comer em casa. Ela pertence à rotina doméstica.

A lanchonete vende para consumir ali. Você come em pé, no balcão, e segue. Ela pertence à rotina do deslocamento.

Osasco tem 582 lanchonetes e 149 padarias — quase quatro para uma.

Suzano, que lidera o guia em padaria, tem 258 lanchonetes e 86 padarias — três para uma.

A proporção de Osasco é maior, e o motivo é geográfico: é uma cidade atravessada, com trilho, rodovia e 728 mil habitantes que em boa parte trabalham fora.

O comércio de comida de uma cidade responde a uma pergunta simples: onde as pessoas estão na hora em que sentem fome?

Em Osasco, muitas delas estão a caminho de outro lugar.

Comparando com os vizinhos

Com Barueri: a vizinha tem 336 lanchonetes e 382 restaurantes, mas restaurante supera lanchonete — o inverso de Osasco. É a diferença entre almoço executivo e almoço de balcão, tratada aqui.

Com Carapicuíba: a outra vizinha do corredor da Sorocabana, com 211 lanchonetes e 14,9 por mil. Perfil quase idêntico, escala menor.

Com Guarulhos: 822 lanchonetes em números absolutos, mas 12,0 por mil — abaixo de Osasco. A cidade maior tem mais, a menor tem mais denso.

O que ninguém explica

  • Quantas das 582 lanchonetes ficam perto de estação? O cadastro de bairro não permite o cruzamento.
  • Desde quando Osasco tem esse perfil? Sem série histórica, não há trajetória.
  • A queda da indústria explica a alta da lanchonete? A correlação é plausível e não está documentada.

O que fica

Quinhentas e oitenta e duas lanchonetes, trezentos e sessenta e seis bares, cento e quarenta e nove padarias e oitenta e quatro açougues.

Numa cidade de 728 mil habitantes espremidos em 65 quilômetros quadrados, cortada por trilho e rodovia, onde boa parte da população acorda cedo para trabalhar em outro município.

O comércio de comida de Osasco não foi desenhado para quem cozinha.

Foi desenhado para quem está passando — de manhã, com pressa, e à noite, cansado.

Um balcão na ida. Um balcão na volta.

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