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Como era antes · São Lourenço da Serra

Antes das pousadas, São Lourenço vivia de carvão — e o mesmo acontecia em Suzano, do outro lado da região

Os dois caçadores que fundaram a cidade plantaram milho, feijão, cana e mandioca, criaram gado e porco, e depois desenvolveram a produção e o comércio do carvão. Era a economia de quem tinha mata e nenhuma estrada.

· 8 min de leitura

Vista de São Lourenço da Serra

Hoje São Lourenço da Serra vende natureza. Pousada, cachoeira, mata preservada, ar puro a uma hora de São Paulo.

Hospedagem e turismo é a quinta maior categoria comercial da cidade.

Mas por mais de um século o que aquela mesma mata produziu foi outra coisa, muito menos poética e muito mais lucrativa.

Carvão.

O que os fundadores fizeram

A história oficial, publicada pela Câmara Municipal, descreve a economia dos primeiros moradores com uma precisão rara.

Em meados do século XIX, os caçadores Manuel Soares de Borba e Manuel Mendes Rodrigues chegaram à região, encontraram uma capela de São Lourenço numa aldeia abandonada por causa da febre do ouro, acharam a terra boa e resolveram ficar — história que contamos no artigo sobre a Aldeinha.

O que eles montaram ali foi, na ordem:

Lavoura. Milho, feijão, cana-de-açúcar e mandioca. Fizeram um pomar, construíram uma moenda para produção de açúcar preto e um monjolo.

Criação. Gado leiteiro, porco, galinha e cavalo.

E depois: desenvolveram a produção e o comércio do carvão.

Repare na sequência. O carvão não é o começo. É o que vem depois que a família já está estabelecida e precisa de uma renda que dê para vender fora.

Por que carvão, e não madeira

Vale explicar, porque a diferença é toda econômica.

Madeira é pesada e volumosa. Para levar tora até São Paulo, sem estrada asfaltada e sem caminhão, seria preciso carro de boi, dias de viagem e muito animal — e o frete comeria o lucro.

Carvão vegetal resolve isso. Queimar a madeira em forno de barro, com pouco oxigênio, elimina a água e os voláteis e concentra o poder calorífico. O que sobra pesa uma fração da tora original e vale mais por quilo.

É, essencialmente, uma forma de transportar floresta.

E havia mercado garantido. São Paulo cozinhava a carvão e a lenha, as padarias assavam a lenha, as olarias — como as de Guarulhos — queimavam os fornos com lenha, e a indústria nascente também.

Uma cidade em crescimento explosivo, cercada de mata, sem gás e sem eletricidade. O combustível vinha da serra.

O mesmo padrão, do outro lado da região

E aqui está o achado que só aparece quando se lê muita história municipal em sequência.

O Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Suzano — a mais de setenta quilômetros dali, no Alto Tietê, do outro lado da capital — descreve a comunidade que vivia em torno da Parada Piedade no início do século XX com estas palavras: ela "dependia da venda de carvão, lenha e madeira".

Foi essa comunidade que pediu ao engenheiro da Estrada de Ferro Central do Brasil uma estação de alvenaria — e a estação acabou recebendo o nome dele, Suzano, que depois virou o nome da cidade e, mais tarde, o nome de uma empresa global de celulose.

Duas fontes primárias, dois municípios em pontas opostas da Grande São Paulo, o mesmo período e exatamente a mesma economia.

Não é coincidência. É o retrato de um cinturão inteiro: onde havia mata e não havia estrada, o produto de exportação era o carvão.

O que sobrou da mata

E aqui está a ironia que fecha o artigo.

São Lourenço da Serra é hoje conhecida justamente pelo que restou de Mata Atlântica — a cidade tem uma das maiores coberturas florestais da região metropolitana, assunto que tratamos neste artigo.

A mesma mata que, por gerações, foi cortada e queimada para virar carvão, é hoje o principal ativo econômico do município — só que em pé.

Este guia mapeia 767 estabelecimentos em São Lourenço da Serra — o segundo menor acervo entre as vinte cidades, à frente apenas de Miracatu.

O perfil:

  • Serviços e profissionais — 125
  • Mercados e alimentos — 84
  • Bares e restaurantes — 61
  • Construção e reforma — 59
  • Hospedagem e turismo — 57
  • Igrejas e templos — 54

Hospedagem em quinto lugar, com 57 estabelecimentos num acervo de 767. Junto com Ibiúna e Juquitiba, São Lourenço forma o trio de cidades deste guia em que o turismo pesa de verdade.

E a indústria é de apenas 1,2% — 9 estabelecimentos.

A cidade que exportava carvão hoje exporta paisagem. É a mesma mata, vendida de duas maneiras opostas: antes pelo que se conseguia tirar dela, agora pelo que se conseguiu deixar.

Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de São Lourenço da Serra, hospedagem e turismo, mercados e alimentos, bares e restaurantes e construção e reforma.

Uma ressalva sobre as fontes

Sendo transparente, como esta série passou a ser.

O que a Câmara registra é que os fundadores desenvolveram a produção e o comércio do carvão. É uma frase, e é tudo o que há.

Não localizamos quantos fornos existiram, quanto se produzia, para onde exatamente ia, quem comprava nem quando a atividade acabou.

O que este artigo faz é juntar essa frase com a de Suzano e mostrar que as duas descrevem o mesmo fenômeno regional. A inferência é nossa; as duas frases são das prefeituras.

Como se fazia carvão vegetal

Vale descrever o processo, porque ele explica tanto a riqueza quanto o estrago.

Corta-se a madeira. Mata nativa, preferencialmente de árvore densa, que rende mais carvão por volume.

Monta-se o forno. Na versão tradicional, um domo de barro — o "rabo-quente" ou o forno de superfície —, empilhando a lenha dentro e vedando com terra.

Ateia-se fogo e sufoca-se. Esse é o segredo. A madeira não pode queimar: tem que carbonizar, com pouquíssimo oxigênio. Se entrar ar demais, vira cinza; se entrar de menos, não pega.

Espera-se dias. O carvoeiro controla a entrada de ar tapando e destapando buracos no barro, lendo a cor e o cheiro da fumaça. É trabalho contínuo, de vigília, dia e noite.

Abre-se e ensaca-se. O que sai pesa cerca de um quinto da lenha que entrou, e concentra boa parte da energia.

Duas coisas decorrem disso.

A primeira é que carvoaria é trabalho duríssimo — calor, fumaça, isolamento e turnos que não param. Historicamente, foi ocupação de gente muito pobre.

A segunda é que o consumo de floresta é enorme. Cinco unidades de lenha para uma de carvão significa que um único forno em operação contínua come mata rapidamente.

E é isso que torna São Lourenço um caso interessante: a cidade viveu de derrubar a mata e hoje vive de mostrá-la. Se a atividade tivesse durado mais algumas décadas, provavelmente não haveria o que mostrar.

Linha do tempo

  • séculos XVI–XVII — aldeamento indígena na região que hoje é a Aldeinha, na divisa com Itapecerica
  • meados do século XIX — os caçadores Manuel Soares de Borba e Manuel Mendes Rodrigues se estabelecem e dividem as terras
  • período seguinte — lavoura de milho, feijão, cana e mandioca; pomar, moenda de açúcar preto e monjolo; criação de gado, porco, galinha e cavalo
  • depois — desenvolvimento da produção e do comércio do carvão
  • início do século XX — do outro lado da região, a comunidade da Parada Piedade, em Suzano, também vive de carvão, lenha e madeira
  • 30/12/1953 — criação do distrito
  • 30/12/1991 — plebiscito de emancipação
  • 12/03/1992 — emancipação oficial; é a cidade mais nova deste guia
  • hoje — 767 estabelecimentos, com hospedagem em quinto lugar

Comparando com os vizinhos

Com Suzano: as duas prefeituras registram a mesma economia de carvão no mesmo período, em pontas opostas da região metropolitana. Suzano industrializou; São Lourenço virou destino de fim de semana.

Com Juquitiba: vizinhas, com origens parecidas e as duas com forte peso de turismo e de religião no comércio. Juquitiba tem 1.330 estabelecimentos; São Lourenço, 767.

Com Itapecerica da Serra: São Lourenço foi o último pedaço a sair de Itapecerica, em 1991. É a caçula de uma cidade que perdeu cinco filhas em 32 anos.

O que ninguém explica

  • Quantos fornos de carvão existiram? A atividade é registrada numa frase, sem escala.
  • Para onde ia o carvão? Presume-se São Paulo, e nenhuma fonte confirma o destino.
  • Quando a produção acabou? Não há registro do fim da atividade.

O que fica

Dois caçadores chegaram a uma capela abandonada no meio da mata, em meados do século XIX, e decidiram ficar.

Plantaram milho, feijão, cana e mandioca. Fizeram um pomar, uma moenda de açúcar preto e um monjolo. Criaram gado, porco, galinha e cavalo.

E aí descobriram que a coisa mais valiosa que tinham não era o que plantavam: era a floresta em volta — desde que virasse carvão, que é o único jeito de a mata caber num carro de boi.

Do outro lado da Grande São Paulo, na mesma época, outra comunidade fazia exatamente a mesma coisa, e pediu uma estação de trem para escoar melhor.

Cento e cinquenta anos depois, São Lourenço da Serra tem 767 comércios, dos quais 57 vivem de receber quem vem de fora ver a mata.

A mesma mata.

Antes ela valia queimada. Hoje vale de pé.

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