Como era antes · São Lourenço da Serra
Antes das pousadas, São Lourenço vivia de carvão — e o mesmo acontecia em Suzano, do outro lado da região
Os dois caçadores que fundaram a cidade plantaram milho, feijão, cana e mandioca, criaram gado e porco, e depois desenvolveram a produção e o comércio do carvão. Era a economia de quem tinha mata e nenhuma estrada.
Hoje São Lourenço da Serra vende natureza. Pousada, cachoeira, mata preservada, ar puro a uma hora de São Paulo.
Hospedagem e turismo é a quinta maior categoria comercial da cidade.
Mas por mais de um século o que aquela mesma mata produziu foi outra coisa, muito menos poética e muito mais lucrativa.
Carvão.
O que os fundadores fizeram
A história oficial, publicada pela Câmara Municipal, descreve a economia dos primeiros moradores com uma precisão rara.
Em meados do século XIX, os caçadores Manuel Soares de Borba e Manuel Mendes Rodrigues chegaram à região, encontraram uma capela de São Lourenço numa aldeia abandonada por causa da febre do ouro, acharam a terra boa e resolveram ficar — história que contamos no artigo sobre a Aldeinha.
O que eles montaram ali foi, na ordem:
Lavoura. Milho, feijão, cana-de-açúcar e mandioca. Fizeram um pomar, construíram uma moenda para produção de açúcar preto e um monjolo.
Criação. Gado leiteiro, porco, galinha e cavalo.
E depois: desenvolveram a produção e o comércio do carvão.
Repare na sequência. O carvão não é o começo. É o que vem depois que a família já está estabelecida e precisa de uma renda que dê para vender fora.
Por que carvão, e não madeira
Vale explicar, porque a diferença é toda econômica.
Madeira é pesada e volumosa. Para levar tora até São Paulo, sem estrada asfaltada e sem caminhão, seria preciso carro de boi, dias de viagem e muito animal — e o frete comeria o lucro.
Carvão vegetal resolve isso. Queimar a madeira em forno de barro, com pouco oxigênio, elimina a água e os voláteis e concentra o poder calorífico. O que sobra pesa uma fração da tora original e vale mais por quilo.
É, essencialmente, uma forma de transportar floresta.
E havia mercado garantido. São Paulo cozinhava a carvão e a lenha, as padarias assavam a lenha, as olarias — como as de Guarulhos — queimavam os fornos com lenha, e a indústria nascente também.
Uma cidade em crescimento explosivo, cercada de mata, sem gás e sem eletricidade. O combustível vinha da serra.
O mesmo padrão, do outro lado da região
E aqui está o achado que só aparece quando se lê muita história municipal em sequência.
O Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Suzano — a mais de setenta quilômetros dali, no Alto Tietê, do outro lado da capital — descreve a comunidade que vivia em torno da Parada Piedade no início do século XX com estas palavras: ela "dependia da venda de carvão, lenha e madeira".
Foi essa comunidade que pediu ao engenheiro da Estrada de Ferro Central do Brasil uma estação de alvenaria — e a estação acabou recebendo o nome dele, Suzano, que depois virou o nome da cidade e, mais tarde, o nome de uma empresa global de celulose.
Duas fontes primárias, dois municípios em pontas opostas da Grande São Paulo, o mesmo período e exatamente a mesma economia.
Não é coincidência. É o retrato de um cinturão inteiro: onde havia mata e não havia estrada, o produto de exportação era o carvão.
O que sobrou da mata
E aqui está a ironia que fecha o artigo.
São Lourenço da Serra é hoje conhecida justamente pelo que restou de Mata Atlântica — a cidade tem uma das maiores coberturas florestais da região metropolitana, assunto que tratamos neste artigo.
A mesma mata que, por gerações, foi cortada e queimada para virar carvão, é hoje o principal ativo econômico do município — só que em pé.
Este guia mapeia 767 estabelecimentos em São Lourenço da Serra — o segundo menor acervo entre as vinte cidades, à frente apenas de Miracatu.
O perfil:
- Serviços e profissionais — 125
- Mercados e alimentos — 84
- Bares e restaurantes — 61
- Construção e reforma — 59
- Hospedagem e turismo — 57
- Igrejas e templos — 54
Hospedagem em quinto lugar, com 57 estabelecimentos num acervo de 767. Junto com Ibiúna e Juquitiba, São Lourenço forma o trio de cidades deste guia em que o turismo pesa de verdade.
E a indústria é de apenas 1,2% — 9 estabelecimentos.
A cidade que exportava carvão hoje exporta paisagem. É a mesma mata, vendida de duas maneiras opostas: antes pelo que se conseguia tirar dela, agora pelo que se conseguiu deixar.
Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de São Lourenço da Serra, hospedagem e turismo, mercados e alimentos, bares e restaurantes e construção e reforma.
Uma ressalva sobre as fontes
Sendo transparente, como esta série passou a ser.
O que a Câmara registra é que os fundadores desenvolveram a produção e o comércio do carvão. É uma frase, e é tudo o que há.
Não localizamos quantos fornos existiram, quanto se produzia, para onde exatamente ia, quem comprava nem quando a atividade acabou.
O que este artigo faz é juntar essa frase com a de Suzano e mostrar que as duas descrevem o mesmo fenômeno regional. A inferência é nossa; as duas frases são das prefeituras.
Como se fazia carvão vegetal
Vale descrever o processo, porque ele explica tanto a riqueza quanto o estrago.
Corta-se a madeira. Mata nativa, preferencialmente de árvore densa, que rende mais carvão por volume.
Monta-se o forno. Na versão tradicional, um domo de barro — o "rabo-quente" ou o forno de superfície —, empilhando a lenha dentro e vedando com terra.
Ateia-se fogo e sufoca-se. Esse é o segredo. A madeira não pode queimar: tem que carbonizar, com pouquíssimo oxigênio. Se entrar ar demais, vira cinza; se entrar de menos, não pega.
Espera-se dias. O carvoeiro controla a entrada de ar tapando e destapando buracos no barro, lendo a cor e o cheiro da fumaça. É trabalho contínuo, de vigília, dia e noite.
Abre-se e ensaca-se. O que sai pesa cerca de um quinto da lenha que entrou, e concentra boa parte da energia.
Duas coisas decorrem disso.
A primeira é que carvoaria é trabalho duríssimo — calor, fumaça, isolamento e turnos que não param. Historicamente, foi ocupação de gente muito pobre.
A segunda é que o consumo de floresta é enorme. Cinco unidades de lenha para uma de carvão significa que um único forno em operação contínua come mata rapidamente.
E é isso que torna São Lourenço um caso interessante: a cidade viveu de derrubar a mata e hoje vive de mostrá-la. Se a atividade tivesse durado mais algumas décadas, provavelmente não haveria o que mostrar.
Linha do tempo
- séculos XVI–XVII — aldeamento indígena na região que hoje é a Aldeinha, na divisa com Itapecerica
- meados do século XIX — os caçadores Manuel Soares de Borba e Manuel Mendes Rodrigues se estabelecem e dividem as terras
- período seguinte — lavoura de milho, feijão, cana e mandioca; pomar, moenda de açúcar preto e monjolo; criação de gado, porco, galinha e cavalo
- depois — desenvolvimento da produção e do comércio do carvão
- início do século XX — do outro lado da região, a comunidade da Parada Piedade, em Suzano, também vive de carvão, lenha e madeira
- 30/12/1953 — criação do distrito
- 30/12/1991 — plebiscito de emancipação
- 12/03/1992 — emancipação oficial; é a cidade mais nova deste guia
- hoje — 767 estabelecimentos, com hospedagem em quinto lugar
Comparando com os vizinhos
Com Suzano: as duas prefeituras registram a mesma economia de carvão no mesmo período, em pontas opostas da região metropolitana. Suzano industrializou; São Lourenço virou destino de fim de semana.
Com Juquitiba: vizinhas, com origens parecidas e as duas com forte peso de turismo e de religião no comércio. Juquitiba tem 1.330 estabelecimentos; São Lourenço, 767.
Com Itapecerica da Serra: São Lourenço foi o último pedaço a sair de Itapecerica, em 1991. É a caçula de uma cidade que perdeu cinco filhas em 32 anos.
O que ninguém explica
- Quantos fornos de carvão existiram? A atividade é registrada numa frase, sem escala.
- Para onde ia o carvão? Presume-se São Paulo, e nenhuma fonte confirma o destino.
- Quando a produção acabou? Não há registro do fim da atividade.
O que fica
Dois caçadores chegaram a uma capela abandonada no meio da mata, em meados do século XIX, e decidiram ficar.
Plantaram milho, feijão, cana e mandioca. Fizeram um pomar, uma moenda de açúcar preto e um monjolo. Criaram gado, porco, galinha e cavalo.
E aí descobriram que a coisa mais valiosa que tinham não era o que plantavam: era a floresta em volta — desde que virasse carvão, que é o único jeito de a mata caber num carro de boi.
Do outro lado da Grande São Paulo, na mesma época, outra comunidade fazia exatamente a mesma coisa, e pediu uma estação de trem para escoar melhor.
Cento e cinquenta anos depois, São Lourenço da Serra tem 767 comércios, dos quais 57 vivem de receber quem vem de fora ver a mata.
A mesma mata.
Antes ela valia queimada. Hoje vale de pé.
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