Como era antes · Barueri
Barueri teve estação de trem 98 anos antes de ter Alphaville — e a estação levava o nome de uma aldeia
A Sorocabana chegou em 1875 e transformou Barueri em entreposto de carga, quando o lugar ainda era distrito de Santana de Parnaíba. A estação foi batizada com o nome do aldeamento indígena que ficava a 2 km dali.
Barueri é conhecida por uma coisa: Alphaville.
Torre de vidro, sede de multinacional, o quinto maior PIB do estado, a menor alíquota de ISS de São Paulo.
Tudo isso começou em 1973.
Mas Barueri já era ponto obrigatório no mapa da província noventa e oito anos antes — desde 1875, quando a Estrada de Ferro Sorocabana abriu seu primeiro trecho e o lugar ganhou estação.
Naquela época, Barueri nem era cidade. Era distrito de outro município.
O trilho chega em 1875
A construção da Estrada de Ferro Sorocabana começou em 1870.
Em 1875, com a inauguração do primeiro trecho, Barueri ganhou sua estação ferroviária — e virou, nas palavras do registro histórico, um importante entreposto de cargas e caminho obrigatório ligando a cidade de São Paulo a Santana de Parnaíba e a Pirapora do Bom Jesus.
Pare em "caminho obrigatório".
Antes do trem, ir de São Paulo a Pirapora era uma expedição. Depois do trem, era uma viagem — e todo mundo que fazia essa viagem passava por Barueri.
E Pirapora não era destino qualquer: era, e continua sendo, um dos maiores centros de romaria do estado. O Bom Jesus de Pirapora movimentava multidões — as mesmas romarias que, do outro lado da região metropolitana, deram nome ao bairro de Piraporinha, em Diadema.
Barueri era a passagem.
A estação com nome de aldeia
E aqui está o detalhe mais bonito da história.
O nome da estação não veio do município a que Barueri pertencia na época, que era Parnahyba — hoje Santana de Parnaíba.
Veio da Aldeia de Barueri, o aldeamento indígena fundado no fim do século XVI, que ficava a cerca de 2 km dali.
Ou seja: em 1875, uma companhia ferroviária inglesa-brasileira precisava batizar uma parada, olhou em volta e escolheu o nome do aldeamento jesuítico que existia ali desde os anos 1580.
Foi a estação que consagrou o nome. O aldeamento tinha desaparecido como instituição, mas o topônimo sobreviveu porque virou placa de estação — e depois virou nome de distrito, e depois nome de município.
Contamos a história desse aldeamento — e da lenda de que "Barueri" significaria "flor vermelha que encanta" — neste artigo.
A cidade que hoje é sinônimo de escritório corporativo se chama assim porque um trem parou perto de uma aldeia indígena de quatrocentos e tantos anos atrás.
De distrito a cidade
Barueri só virou município em 1949, desmembrada de Santana de Parnaíba.
Setenta e quatro anos depois da estação.
Isso diz muito sobre como funcionava a região: o trilho chegava antes da prefeitura. O comércio se formava em volta da parada, a população crescia, e a autonomia política vinha décadas depois — quando já não dava mais para administrar de longe.
É o mesmo padrão de Jundiapeba, em Mogi, e do KM 18, em Osasco: primeiro o trem, depois o povoado, depois o reconhecimento oficial.
E vale registrar o destino do prédio: a estação de 1926 foi demolida, e uma nova foi inaugurada em 5 de novembro de 1982.
A Barueri de hoje não tem mais a estação que a fundou. Tem a terceira construção no mesmo ponto.
E então veio 1973
O desenvolvimento econômico que fez a fama da cidade acelerou a partir de 1973, quando a Câmara Municipal aprovou uma Lei de Zoneamento Industrial que permitiu o surgimento dos centros empresariais: Alphaville, Tamboré e Jardim Califórnia.
É importante entender a ordem dos fatos, porque a lenda inverte tudo.
Não foi Alphaville que criou Barueri. Foi Barueri que criou as condições para Alphaville — com uma lei municipal, votada em plenário, que redesenhou o zoneamento da cidade.
E o projeto original nem era esse. O plano residencial de Alphaville foi vetado pelo prefeito, e o que existe hoje é o plano B — história que contamos aqui.
Ou seja: entre a estação de 1875 e o parque empresarial de 1973 há quase um século em que Barueri foi outra coisa inteiramente — entreposto de carga, ponto de romaria, distrito rural de Parnaíba, cidade pequena de beira de trilho.
O que o acervo do guia mostra
Este guia mapeia 19.600 estabelecimentos em Barueri.
O perfil:
- Serviços e profissionais — 3.672
- Outros — 2.579
- Bares e restaurantes — 1.827
- Beleza e bem-estar — 1.650
- Saúde — 1.501
Serviços com mais que o dobro da segunda categoria. É a maior desproporção deste guia entre o primeiro e o segundo lugar — efeito direto do polo corporativo e da alíquota de ISS de 2%.
E há um número que fecha o argumento deste artigo: Barueri tem 530 estabelecimentos de indústria e atacado, ou 2,7% do total.
A cidade que aprovou uma Lei de Zoneamento Industrial em 1973 é hoje, proporcionalmente, uma das menos industriais do grupo que abrimos nesta rodada — bem atrás de Diadema (6,9%) e Guarulhos (3,7%).
A lei foi industrial. O resultado foi corporativo.
Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Barueri, serviços e profissionais, saúde, bares e restaurantes e indústria e atacado.
O que era a Sorocabana
Vale explicar a ferrovia, porque ela é a razão de metade da região oeste existir.
A Estrada de Ferro Sorocabana não foi construída para transportar gente. Foi construída para escoar algodão e depois café do interior paulista até o porto — e, com o tempo, virou a espinha dorsal de tudo o que ficava a oeste da capital.
Ela começou em 1870 e abriu o primeiro trecho em 1875. Note a ordem: a Sorocabana é anterior à República. Quando o trem parou em Barueri pela primeira vez, o Brasil ainda era Império e a escravidão ainda era legal.
E o efeito de uma parada ferroviária no século XIX era desproporcional ao que hoje se imagina. Não havia estrada asfaltada, não havia caminhão, não havia telefone. A estação era, ao mesmo tempo, entreposto, correio, ponto de encontro e endereço.
Quem tinha carga para mandar ia até a estação. Quem esperava mercadoria ia até a estação. Quem viajava ia até a estação. O comércio se formava a metros dela, porque não fazia sentido se formar em outro lugar.
É por isso que tantos bairros e cidades desta região começam com a palavra "estação" ou com um número de quilômetro. O trilho não passava pelo lugar: o trilho fazia o lugar.
Duas Baruerís, com um século de distância
Vale colocar as duas fases lado a lado, porque o contraste é o ponto deste texto.
A Barueri de 1875 era um ponto de parada num ramal ferroviário, dentro de um município que ficava a quilômetros dali, com nome emprestado de um aldeamento indígena extinto, servindo de entreposto para carga e de passagem para romeiros a caminho de Pirapora.
A Barueri de 1973 em diante é um município autônomo que aprova a própria lei de zoneamento, atrai sede de multinacional, opera a menor alíquota de ISS do estado e concentra o quinto maior PIB de São Paulo.
Entre uma coisa e outra há noventa e oito anos — e uma inversão completa de lógica. No século XIX, o valor do lugar vinha de por onde a carga passava. No século XX, passou a vir de onde a empresa se registra.
O que não mudou foi a natureza da vantagem: nas duas épocas, Barueri prosperou por estar no caminho de alguma coisa que ia para outro lugar.
Linha do tempo
- fim do século XVI — fundação da Aldeia de Barueri, a cerca de 2 km do futuro ponto da estação
- 1870 — começa a construção da Estrada de Ferro Sorocabana
- 1875 — inauguração do primeiro trecho; Barueri ganha estação e vira entreposto de cargas e caminho obrigatório para Santana de Parnaíba e Pirapora do Bom Jesus
- 1926 — construção do prédio da estação que seria demolido décadas depois
- 1949 — Barueri se emancipa de Santana de Parnaíba
- 1973 — a Câmara aprova a Lei de Zoneamento Industrial, abrindo caminho para Alphaville, Tamboré e Jardim Califórnia
- 05/11/1982 — inauguração do novo prédio da estação
- hoje — 19.600 estabelecimentos, com serviços respondendo por quase o dobro da segunda categoria
Comparando com os vizinhos
Com Osasco: as duas cresceram na mesma linha ferroviária e as duas viraram cidades de serviço. Mas Osasco só se emancipou em 1958; Barueri, em 1949 — nove anos antes, e sem plebiscito conturbado.
Com Carapicuíba: as três cidades — Barueri, Carapicuíba e Osasco — formam o corredor da antiga Sorocabana. Carapicuíba foi a última a virar município, em 1965.
Com Guarulhos: as duas viraram polos econômicos gigantes, mas por vocações opostas. Guarulhos manteve a fábrica; Barueri trocou a fábrica pelo escritório.
O que ninguém explica
- Como era a estação original de 1875? O prédio de 1926 já era substituição de algo anterior, e não há registro do primeiro.
- Por que a Sorocabana escolheu o nome da aldeia, e não o do município? A decisão consagrou o topônimo e não tem motivo registrado.
- Quanto tempo Barueri foi de fato entreposto de cargas? O registro afirma a função sem datar o fim dela.
O que fica
Em 1875, um trem parou num ponto do interior da província de São Paulo e alguém precisou dar um nome àquela parada.
Escolheram o nome de uma aldeia indígena que ficava a dois quilômetros dali e que já não existia como instituição havia muito tempo.
O lugar virou entreposto de carga, virou caminho obrigatório para as romarias de Pirapora, virou distrito, e em 1949 virou cidade.
Vinte e quatro anos depois, uma lei de zoneamento aprovada pela câmara local abriu espaço para um parque empresarial que hoje é sinônimo do nome da cidade.
Mas o nome não veio do parque.
Veio de uma placa de estação de 1875, que por sua vez veio de um aldeamento do século XVI.
Alphaville tem cinquenta e três anos. O nome que ele carrega tem mais de quatrocentos.
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