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Como era antes · Ibiúna

Em 1903 havia uma fazenda com duas quedas d'água em Ibiúna — uma de 18 e outra de 56 metros

A Light comprou aquilo, represou o canyon do rio Sorocaba e inaugurou a usina em 26 de maio de 1914, em plena crise de energia em São Paulo. O lago cobriu o que havia embaixo e desenhou a paisagem que Ibiúna vende hoje.

· 8 min de leitura

Vista de Ibiúna

Quem passa por Ibiúna hoje vê água por toda parte: braços de represa entre morros, pesqueiro, pousada, condomínio de fim de semana.

Aquilo tem cento e doze anos — e uma data de nascimento exata.

Antes de 26 de maio de 1914, não havia lago nenhum. Havia um canyon, um rio correndo no fundo dele e uma fazenda com duas cachoeiras.

1903: a Fazenda do Itupararanga

O registro é preciso sobre o que existia antes.

Em 1903, havia nos arredores a Fazenda do Itupararanga, que pertencia ao Banco União de São Paulo.

E ela tinha uma característica que chamava atenção: duas grandes quedas d'água, uma com 18 metros e outra com 56 metros de altura.

Cinquenta e seis metros é a altura de um prédio de dezoito andares.

Repare em quem era o dono: um banco. Não um fazendeiro, não uma família, não a Igreja. Já em 1903, aquela terra era ativo financeiro — e o que a tornava valiosa não era o solo, era o desnível.

Quem olhava para aquelas cachoeiras em 1903 não via paisagem. Via energia potencial, à espera de alguém com capital para convertê-la.

1912: a crise que fez a obra

O gatilho foi uma escassez.

Por volta de 1912, o estado de São Paulo enfrentou uma forte crise de oferta de energia elétrica — o que motivou a Light a iniciar o projeto de uma nova usina hidrelétrica.

A empresa anglo-canadense já dominava a geração e a distribuição na capital. Faltava capacidade, e faltava rápido.

A solução foi ir ao interior, comprar o desnível que o Banco União tinha e represar o canyon do rio Sorocaba, na Serra de São Francisco.

A barragem foi construída a partir de 1912, e em 1914 a usina entrou em operação — inaugurada em 26 de maio.

A Usina Hidrelétrica de Itupararanga é hoje reconhecida como um dos marcos do início da atuação do Grupo Light no interior do estado. Ela fica em território de três municípios: Ibiúna, Sorocaba e Votorantim.

Uma divergência de datas

Vale registrar, porque a série passou a registrar.

A memória local de Ibiúna, no relato do bairro do Paruru assinado por Manoel Julio da Costa, situa a construção da barragem entre 1896 e 1911, com a usina inaugurada em 26 de maio de 1914 — assunto do artigo sobre as duas datas de Paruru.

As fontes sobre a Light situam a construção a partir de 1912.

As duas versões batem na inauguração — 26 de maio de 1914 — e divergem no início da obra em mais de uma década.

Pode ser a diferença entre os primeiros estudos e o começo efetivo da construção. Mas não temos como decidir, e não vamos fingir que temos.

O que a água cobriu

E aqui está a pergunta que este artigo não consegue responder — a mesma que ficou aberta no artigo sobre a Billings, em São Bernardo do Campo.

Não localizamos, em fonte verificável, o registro do que existia no fundo do canyon antes de 1914.

Não há lista de sítios alagados, nem número de famílias deslocadas, nem menção a indenização.

E é quase certo que havia gente. Vale de rio, terra fértil, água farta, num estado que já tinha três séculos de ocupação — não é o tipo de lugar que fica vazio.

Some-se a isso o que a memória local conta: os primeiros proprietários do Paruru abriram picadas com machado, foice e enxada, para as tropas e carroções, já por volta de 1803. Havia mais de um século de presença humana naquela região quando a barragem fechou.

Mas a história que sobreviveu é a da engenharia: a altura das quedas, a crise de 1912, o nome da companhia, a data da inauguração.

De novo, sabemos o nome da empresa e não sabemos o nome de ninguém que morava lá.

A represa criou a Ibiúna que existe hoje

O que é inegável é o efeito.

Aquele lago redesenhou a hidrografia, o clima local e — décadas depois — a economia inteira do município.

Este guia mapeia 3.317 estabelecimentos em Ibiúna. O perfil:

  • Serviços e profissionais — 485
  • Mercados e alimentos — 338
  • Bares e restaurantes — 305
  • Construção e reforma — 278
  • Hospedagem e turismo — 277
  • Outros — 246

Hospedagem e turismo em quinto lugar, com 277 estabelecimentos num acervo de pouco mais de três mil.

Só duas cidades deste guia colocam turismo tão alto: Ibiúna e Juquitiba. E no caso de Ibiúna, a razão está no lago — pesqueiro, pousada, chácara de aluguel, restaurante de beira de estrada.

Uma decisão tomada por uma empresa anglo-canadense em 1912, para resolver uma crise de energia na capital, virou a base do turismo de fim de semana de um município inteiro cem anos depois.

E a indústria é de apenas 1,3% — 43 estabelecimentos em 3.317, a menor proporção entre todas as vinte cidades deste guia.

Ibiúna não industrializou. Ficou com a água, com a horticultura que abastece a Grande São Paulo e com quem vem passar o domingo.

Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Ibiúna, hospedagem e turismo, mercados e alimentos, bares e restaurantes e construção e reforma.

O que a Light era

Vale explicar a empresa, porque ela aparece três vezes nesta rodada e quase ninguém sabe o que era.

A São Paulo Tramway, Light and Power Company era uma companhia de capital anglo-canadense, fundada em 1899, que recebeu a concessão para operar bonde, luz e força na capital paulista.

Os brasileiros a chamavam simplesmente de "a Light" — e a palavra virou sinônimo de energia elétrica no português falado por décadas. Ainda hoje há quem diga "acabou a light".

O modelo de negócio era integrado e muito poderoso: a mesma empresa gerava a eletricidade, distribuía para as casas, operava os bondes que consumiam essa eletricidade e vendia força motriz para as fábricas.

Para sustentar isso, ela precisava de uma coisa acima de tudo: queda d'água. E foi atrás dela sistematicamente, comprando desnível em todo o entorno da capital.

Daí vêm as três obras que aparecem nesta rodada:

Vinte e um anos, três represas, e a hidrografia inteira da Grande São Paulo redesenhada por decisão de uma companhia estrangeira.

O que hoje são áreas de proteção aos mananciais, restrição de loteamento e cartão-postal de turismo começou como infraestrutura privada de geração de energia.

Linha do tempo

  • 1903 — a Fazenda do Itupararanga, do Banco União de São Paulo, tem duas quedas d'água, de 18 e de 56 metros
  • por volta de 1912 — São Paulo enfrenta forte crise de oferta de energia elétrica
  • 1912 — a Light inicia a construção da barragem no canyon do rio Sorocaba, na Serra de São Francisco (a memória local de Ibiúna situa a obra entre 1896 e 1911)
  • 26/05/1914 — inauguração da Usina Hidrelétrica de Itupararanga
  • 1944 — Una passa a se chamar Ibiúna
  • hoje — 3.317 estabelecimentos, com hospedagem em quinto lugar e a menor proporção industrial do guia

Comparando com os vizinhos

Com a Billings, em São Bernardo: as duas represas foram feitas pela mesma lógica — represar rio para gerar energia — com treze anos de diferença. E nas duas, o registro do que havia embaixo desapareceu.

Com a Guarapiranga, em Embu-Guaçu: a de Embu-Guaçu começou em 1906, seis anos antes. As três obras da Light e associadas redesenharam a hidrografia da Grande São Paulo em vinte anos.

Com Juquitiba: as duas são as cidades mais turísticas deste guia. Juquitiba vende corredeira e mata; Ibiúna vende lago e chácara.

O que ninguém explica

  • O que havia no fundo do canyon antes de 1914? Nenhuma fonte acessível registra.
  • 1896 ou 1912? Duas datas para o início da obra, com dezesseis anos de diferença.
  • Por que o Banco União de São Paulo era dono da fazenda? A propriedade bancária de terra rural em 1903 é registrada sem explicação.

O que fica

Em 1903 havia uma fazenda em Ibiúna que pertencia a um banco, e ela tinha duas cachoeiras — uma de dezoito metros, outra de cinquenta e seis.

Nove anos depois, faltou energia em São Paulo.

Uma empresa anglo-canadense olhou para aquele canyon, viu quanta eletricidade dava para tirar dali, e fechou o rio.

Em 26 de maio de 1914 a usina entrou em operação e a água subiu sobre o fundo do vale.

Cento e doze anos depois, aquilo é o cartão-postal do município: 277 estabelecimentos de hospedagem e turismo vivem daquele lago, num acervo de 3.317 comércios.

O que ninguém sabe dizer é o que havia debaixo da água antes de ela chegar.

E, como em São Bernardo, o nome da empresa está em toda parte — e o de quem morava lá, em lugar nenhum.

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