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Como era antes · Mauá

Em 1954 Mauá trocou de matéria-prima — saiu do barro branco e entrou no petróleo, no mesmo ano em que virou cidade

O solo do Pilar era rico em argila branca, e por isso a cidade fez louça. Aí veio a refinaria, com a maior capacidade do Brasil, exatamente quando o distrito se separava de Santo André. Setenta anos depois, o número ainda mostra.

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Vista de Mauá

Há cidades que mudam de vocação devagar, ao longo de gerações.

Mauá mudou em um ano.

Em 1954, o distrito se separou de Santo André e, no mesmo período, foi inaugurada a Refinaria e Exploração de Petróleo União S/A — que viria a ser a Refinaria de Capuava, a RECAP.

Até ali, o que se extraía do chão de Mauá era argila branca, e o que se fazia com ela era louça.

Depois disso, o que passou a definir a cidade veio de tubulação.

Antes de tudo: Cassaquera

A região tinha nome antes de ter povoado.

Chamava-se "Cassaquera" — palavra indígena que a prefeitura traduz como "Cercados Velhos".

E o lugar se desenvolveu por um motivo geográfico simples: era passagem entre São Paulo e o litoral, às margens do rio Tamanduateí.

O mesmo Tamanduateí que corre por Santo André e São Bernardo, e que organizava toda a circulação do que hoje chamamos de ABC. Antes de haver estrada, havia rio; antes de haver rio navegável, havia a margem do rio como caminho.

Em 1714 foi construída a Capela de Nossa Senhora do Pilar, e dela nasceu o povoado do Pilar.

É importante entender a ordem: o lugar existiu como passagem por muito tempo, ganhou uma capela em 1714, e a capela deu o nome.

1867: o mesmo trem, o mesmo dia

O Barão de Mauá obteve os direitos de construção ferroviária, e a obra começou no porto de Santos em direção a São Paulo, em maio de 1860.

A estrada foi inaugurada em 16 de fevereiro de 1867.

Guarde a data, porque ela é exatamente a mesma do sistema funicular de Paranapiacaba, em Santo André, sobre o qual escrevemos nesta mesma rodada.

É a mesma ferrovia, inaugurada no mesmo dia. A São Paulo Railway subiu a serra por cabo de aço, atravessou o planalto e passou pelo povoado do Pilar. Duas cidades de hoje nasceram do mesmo trilho e do mesmo ato.

A estação, porém, demorou. Em 1883 foi inaugurada a então Estação do Pilar, toda construída em madeira.

Dezesseis anos entre o trem passar e o trem parar.

E só em 1926 a Estação do Pilar passou a se chamar Estação Mauá — em homenagem ao barão que viabilizou a ferrovia. O nome da estação acabou virando o nome da cidade.

É o mesmo mecanismo de Suzano, que ganhou o nome de um engenheiro ferroviário, e de Barueri, cuja estação consagrou o nome de um aldeamento. Na Grande São Paulo, quem batizava as cidades era a companhia de trem.

O barro branco

E aqui está a parte que quase ninguém conecta.

A prefeitura registra o motivo pelo qual Mauá virou o que virou: o solo local era "rico em argila branca, ideal para a fabricação de cerâmica e porcelana".

Não foi decisão empresarial. Foi geologia.

Argila comum é vermelha, cheia de óxido de ferro, e serve para tijolo e telha. Foi ela que fez a fortuna das olarias de Guarulhos, que tratamos há poucos dias nesta rodada.

Argila branca é outra coisa. Tem pouco ferro, queima clara, aceita esmalte e vitrifica. É a matéria-prima da louça, do azulejo e da porcelana — produtos de valor muito mais alto que tijolo.

Duas cidades da mesma região metropolitana, a poucos quilômetros uma da outra, tiraram destinos diferentes do mesmo gesto de cavar o próprio chão. Guarulhos achou barro vermelho e construiu São Paulo. Mauá achou barro branco e pôs mesa.

Fábricas de louça surgiram no início do século XX. Em 1943 foi criada a Porcelana Real, depois Schmidt — e a cidade ganhou o apelido de cidade porcelana, história que contamos no artigo sobre o primeiro jogo de jantar.

1954: o ano em que tudo virou

Agora a sequência que dá título ao artigo, e ela é apertada.

Mauá pertencia a Santo André desde 1938.

O plebiscito que permitiu à população optar pela autonomia do distrito ocorreu em 22 de novembro de 1953.

Em 1954 foi inaugurada a Refinaria e Exploração de Petróleo União S/A, futura RECAP.

E a efetiva instalação municipal aconteceu em 1º de janeiro de 1955.

Ou seja: em pouco mais de treze meses, Mauá votou pela independência, ganhou a maior refinaria do país e virou cidade.

A refinaria começou a operar processando 3.180 m³ de petróleo por dia — na época, a maior capacidade de refino do Brasil.

Pense no que isso significa para um município que estava nascendo. Uma cidade recém-instalada, sem estrutura administrativa, sem quadro técnico, sem histórico de arrecadação, recebeu de uma vez o maior equipamento industrial do país dentro do próprio território.

E nos anos 1950 vieram junto os parques mecânico e metalúrgico — sobretudo autopeças —, químico e petroquímico.

A cidade da louça virou cidade do polo petroquímico em menos de uma década.

Setenta anos depois, os números

E aqui está o que só o acervo deste guia consegue mostrar.

Este guia mapeia 12.865 estabelecimentos em Mauá. Deles, 532 são de indústria e atacado — ou 4,1% do total.

Isso coloca Mauá em segundo lugar na proporção industrial entre as cidades que abrimos nesta rodada, atrás apenas de Diadema (6,9%) e à frente de Guarulhos (3,7%), São Bernardo (2,8%), Barueri (2,7%), Santo André (2,5%) e Osasco (2,0%).

Uma cidade pequena, com um acervo comercial de médio porte, e a segunda maior densidade industrial do guia.

Mais interessante ainda são dois bairros:

  • Capuava — 147 estabelecimentos, o bairro que leva o nome da refinaria
  • Jardim Pilar — 148 estabelecimentos

O nome antigo da cidade sobreviveu como nome de bairro. Mauá se chamava Pilar; hoje o Pilar é um pedaço de Mauá, com 148 comércios abertos.

E os dois bairros — o do passado e o do presente, a capela de 1714 e a refinaria de 1954 — têm praticamente o mesmo número de estabelecimentos. Cento e quarenta e oito contra cento e quarenta e sete.

O perfil geral da cidade:

  • Serviços e profissionais — 1.599
  • Beleza e bem-estar — 1.347
  • Bares e restaurantes — 1.336
  • Oficinas e serviços para veículos — 1.165
  • Mercados e alimentos — 987

Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Mauá, indústria e atacado, serviços e profissionais, oficinas e serviços para veículos e mercados e alimentos.

Linha do tempo

  • antes de tudo — a região se chamava Cassaquera, "Cercados Velhos", e era passagem entre São Paulo e o litoral, às margens do Tamanduateí
  • 1714 — construção da Capela de Nossa Senhora do Pilar, origem do povoado
  • maio de 1860 — começa a construção da ferrovia, a partir do porto de Santos
  • 16/02/1867 — inauguração da estrada de ferro, no mesmo ato que inaugurou o funicular de Paranapiacaba
  • 1883 — inauguração da Estação do Pilar, toda de madeira
  • 1926 — a Estação do Pilar passa a se chamar Estação Mauá
  • 1938 — Mauá passa a pertencer a Santo André
  • 1943 — criação da Porcelana Real, depois Schmidt
  • 22/11/1953 — plebiscito pela autonomia do distrito
  • 1954 — inauguração da Refinaria e Exploração de Petróleo União S/A, futura RECAP, com 3.180 m³/dia
  • 01/01/1955 — instalação efetiva do município

Comparando com os vizinhos

Com Guarulhos: as duas cidades viveram de cavar o próprio chão. Uma achou argila vermelha e fez tijolo para a capital; a outra achou argila branca e fez porcelana.

Com Diadema: as duas viraram municípios no mesmo período e as duas ficaram industriais. Diadema pelas autopeças da Anchieta, Mauá pela petroquímica de Capuava. São hoje as duas maiores proporções industriais do guia.

Com Santo André: Mauá saiu de lá em 1954. Hoje Santo André tem três vezes mais comércio, mas Mauá tem quase o dobro da proporção industrial.

O que ninguém explica

  • 1954 ou 1955? A prefeitura registra o plebiscito em 1953 e a instalação em 1º/1/1955; a data de 1954 aparece em várias fontes como a da emancipação.
  • Onde ficavam as jazidas de argila branca? A geologia é citada como causa, sem localização registrada.
  • A instalação da refinaria influiu no plebiscito? As duas coisas acontecem com meses de diferença, e nenhuma fonte trata da relação.

O que fica

Havia um caminho entre São Paulo e o litoral, à beira de um rio, e em 1714 construíram uma capela ali.

O povoado ganhou o nome da santa. O trem passou em 1867 e parou em 1883. Em 1926, a estação trocou o nome da santa pelo do barão que fez a ferrovia — e a cidade foi junto.

Enquanto isso, quem cavava aquele chão encontrava argila branca, e com ela se fez louça, azulejo e porcelana, a ponto de o lugar virar a cidade porcelana do Brasil.

Aí, em pouco mais de um ano entre 1953 e 1955, a população votou pela independência, a maior refinaria do país abriu as portas e o município foi instalado.

Setenta e um anos depois, Mauá tem 532 indústrias em 12.865 endereços — a segunda maior densidade industrial deste guia.

E o nome antigo continua no mapa: Jardim Pilar, 148 comércios. Praticamente empatado com Capuava, o bairro da refinaria.

O passado e o presente da cidade, lado a lado, do mesmo tamanho.

MauáPilarArgila brancaRefinaria de Capuava1954

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