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O bairro · Itapecerica da Serra

Existe uma abadia beneditina com monjas de clausura num bairro rural de Itapecerica — e ela dá nome a uma estrada

Potuverá tem mais estradas que ruas, quase todas com sobrenome de família, e duas com nome japonês. Numa delas fica a Abadia Nossa Senhora da Paz, fundada em 1974, onde se fazem cerâmica, licor e trufas.

· 8 min de leitura

Vista de Itapecerica da Serra

A vinte e poucos quilômetros do centro de São Paulo, num bairro rural de Itapecerica da Serra, existe um mosteiro de clausura onde monjas beneditinas rezam sete vezes por dia e se sustentam fazendo cerâmica, doce, trufa, biscoito e licor.

O endereço é literal: Estrada Mosteiro Nossa Senhora da Paz, 1400, Potuverá.

A estrada leva o nome da abadia. A abadia é o que há de mais documentado no bairro.

E o bairro, curiosamente, tem mais estradas do que ruas.

A abadia

A Abadia Nossa Senhora da Paz foi fundada em 21 de julho de 1974, como priorado dependente da Abadia de Santa Maria, em São Paulo.

Em 1983, foi elevada a Abadia — passou de casa dependente a comunidade autônoma, com abadessa própria.

Pertence à Congregação Beneditina do Brasil, e a comunidade segue os três votos da tradição beneditina: estabilidade, conversão de vida e obediência. O Ofício Divino é celebrado sete vezes por dia.

A regra beneditina se resume numa fórmula de mil e quinhentos anos: ora et labora, reza e trabalha. E o trabalho ali é bem concreto — o mosteiro se sustenta pelo trabalho artesanal: cerâmicas, doces, trufas, biscoitos, licores e réplicas de obras sacras, vendidos na loja da própria casa.

A igreja abacial abriga obras do artista sacro Cláudio Pastro, incluindo um painel do Cristo Pantocrator. Pastro foi o principal nome da arte sacra brasileira contemporânea, responsável pela ambientação de igrejas em todo o país.

Uma comunidade contemplativa, cercada de mata, dentro da Região Metropolitana de São Paulo, a poucos quilômetros de uma rodovia federal.

Um bairro feito de estradas

Aqui está o que o cadastro de logradouros revela, e é o dado mais expressivo de Potuverá.

O bairro tem 53 vias distintas no acervo deste guia. A composição:

  • 27 estradas
  • 22 ruas
  • 2 rodovias
  • 1 avenida
  • 1 travessa

Mais estradas que ruas. Isso não acontece em nenhum outro bairro desta série.

Nos bairros urbanos que mapeamos, a proporção é esmagadoramente de ruas: o Parque dos Camargos, em Barueri, não tem uma estrada sequer; a Cidade Intercap, em Taboão, tem 27 ruas e nenhuma estrada própria; a Vila Amorim, em Suzano, tem 28 ruas e nenhuma estrada.

Potuverá tem 27.

É a assinatura cartográfica de zona rural. Rua é coisa de quadra loteada. Estrada é o que liga sítio a sítio.

As estradas têm sobrenome

E há um segundo padrão dentro do primeiro.

Quase todas as estradas de Potuverá levam nome de pessoa ou de família:

Estrada dos Godoi. Estrada dos Cintras. Estrada do Xavi. Estrada Pedro Xavi. Estrada Ferreira Guedes. Estrada Djalma Pinto Ribeiro. Estrada Abílio Marchi. Estrada Egydio Marco. Estrada Emiliana Emery. Estrada Francisco Hengles. Estrada Gracelina Vaz Pires de Oliveira. Estrada João Antônio Domingues. Estrada Manoel Antônio da Silva. Estrada Maria Simão. Estrada Balthazar Manoel. Estrada Benedito Pereira de Borba. Estrada Paulo Rodrigues de Borba. Estrada Borba Gato. Estrada Salli.

Isso é o oposto exato do que vimos na Vila Virgínia, em Itaquá, onde 40 ruas levam nome de município escolhido por um loteador, ou no Parque dos Camargos, em Barueri, onde dezenas de vias levam prenomes femininos.

Ali, uma pessoa batizou tudo de uma vez, com um tema.

Aqui, cada estrada foi ganhando o nome de quem morava no fim dela.

É como a zona rural nomeia o próprio território: você não vai "para a Rua Tal", você vai "pela estrada dos Godoi", porque é onde os Godoi têm terra. O nome não é homenagem — é endereço funcional, dado pelo uso e depois oficializado.

Repare também que há duas grafias para a mesma via em vários casos — Godoi e Godois, Domingues e Domingos, Gracelina e Graciliana. É o que acontece quando um nome nasce na boca e só depois chega ao cadastro.

E há a Estrada do Mato Dentro, que dispensa comentário.

Duas ruas japonesas

Entre as 22 ruas de Potuverá, duas chamam atenção:

Rua Hikari Kurachi e Rua Milton Takeo.

Nomes japoneses num bairro rural de Itapecerica da Serra não são acaso. A região sudoeste da Grande São Paulo — Cotia, Itapecerica, Embu-Guaçu, Ibiúna — foi um dos principais destinos da imigração japonesa dedicada à horticultura, e é dela que saía boa parte dos legumes e verduras consumidos na capital.

É a mesma história que contamos no artigo sobre a Cooperativa Agrícola de Cotia, que começou com 83 produtores, e no artigo sobre Kizaemon Takeuti, o pioneiro japonês de Taboão da Serra.

Duas placas de esquina em Potuverá guardam esse capítulo — sem que exista, até onde conseguimos verificar, qualquer texto explicando quem foram Hikari Kurachi e Milton Takeo.

O que o acervo mostra

Este guia mapeia 135 estabelecimentos em Potuverá, dos quais 125 têm telefone.

Entre os 140 bairros de Itapecerica da Serra no acervo, é o terceiro — atrás do Centro (537) e do Parque Paraíso (515).

O perfil:

  • Serviços e profissionais — 24
  • Construção e reforma — 18
  • Oficinas e serviços para veículos — 16
  • Mercados e alimentos — 14
  • Indústria e atacado — 9
  • Casa e decoração — 9

Indústria e atacado no top 5 de um bairro rural. Isso é incomum, e tem explicação: a Rodovia Régis Bittencourt passa por Potuverá — há endereços cadastrados no km 294 dela.

Beira de rodovia federal é onde se instala galpão, depósito, distribuidora e transportadora. Barato, com acesso a caminhão, longe do adensamento urbano.

E é o que também explica veículos em terceiro, com 16.

Ou seja: Potuverá é dois lugares ao mesmo tempo. De um lado da rodovia, sítio, estrada de família e mosteiro de clausura. Do outro, galpão e oficina de beira de estrada.

Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Itapecerica da Serra, construção e reforma, oficinas e serviços para veículos, serviços e profissionais e mercados e alimentos.

E o nome "Potuverá"?

Aqui precisamos ser francos, porque esta série já errou por não ser.

Não encontramos base acadêmica para a etimologia de "Potuverá".

O nome tem forma tupi, e é tentador decompô-lo — a região está cheia de topônimos assim, a começar por Itapecerica, que Eduardo de Almeida Navarro decompõe como itá (pedra), peb (achatada), syryk (escorregadia) e o sufixo -a, conforme tratamos neste artigo.

Mas decompor por semelhança é exatamente o método que produz desinformação. Já corrigimos, nesta série, etimologias que circulavam há décadas e não se sustentavam em dicionário.

Então dizemos o que sabemos: Potuverá é um topônimo de aparência tupi cujo significado não localizamos em fonte confiável.

Se algum leitor tiver a referência — em Navarro, em Teodoro Sampaio ou em documentação do aldeamento —, agradecemos a correção.

Comparando com os vizinhos

Com a Cidade Intercap, em Taboão da Serra: os dois são cortados pela mesma Régis Bittencourt. Um é o terceiro bairro da cidade mais densa do estado; o outro é rural, com estrada de família e mata. A mesma rodovia atravessa dois mundos.

Com o Jardim Santo Eduardo, em Embu das Artes: Embu se emancipou de Itapecerica, e o contraste entre os dois bairros mede a distância que as duas cidades tomaram uma da outra.

Com a colônia alemã de 1827, que Itapecerica recebeu e sobre a qual escrevemos aqui: duas ondas de gente de fora, um século e meio de distância, no mesmo município. Uma virou capítulo de livro; a outra virou nome de rua.

Linha do tempo

  • 1827 — Itapecerica recebe colonos alemães
  • século XX — famílias abrem sítios e as estradas ganham seus sobrenomes
  • 21/07/1974 — fundação do Mosteiro Nossa Senhora da Paz, como priorado dependente
  • 1983 — elevação a Abadia
  • hoje — 3º bairro de Itapecerica em número de comércios, com 135 estabelecimentos

O que ninguém explica

  • O que significa "Potuverá"? Nome de aparência tupi, sem etimologia documentada que tenhamos localizado.
  • Quem foram Hikari Kurachi e Milton Takeo? Duas ruas com nome japonês, e nenhuma informação sobre eles.
  • Quem foram os Godoi, os Cintra, os Xavi e os Borba? Vinte e sete estradas com sobrenome de família, e nenhuma história escrita.

O que fica

Num bairro que tem mais estrada que rua, onde quase todas as estradas levam o sobrenome de quem morava no fim delas, e onde duas ruas guardam nomes japoneses que ninguém explica, existe uma abadia.

Ela foi fundada em 1974, virou autônoma em 1983 e é habitada por monjas que rezam sete vezes por dia e vendem cerâmica, doce, trufa, biscoito e licor para se sustentar.

A estrada que leva até lá se chama Estrada Mosteiro Nossa Senhora da Paz.

E a poucos quilômetros dali, no km 294 da Régis Bittencourt, caminhões passam a caminho de Curitiba, entre galpões e oficinas.

Potuverá tem 135 comércios, um nome que ninguém sabe traduzir e duas vidas ao mesmo tempo — a que corre na rodovia e a que reza sete vezes por dia, do outro lado da mata.

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