Como era antes · Itaquaquecetuba
Itaquá foi uma das 12 aldeias de Anchieta — e esperou quase quatro séculos para ter prefeitura própria
A aldeia é do século XVI. O oratório de Nossa Senhora d'Ajuda é de 1624. A freguesia, de 1838. E o município só foi instalado em 1º de janeiro de 1954. Hoje é a segunda cidade mais industrial deste guia.
Existe uma conta que resume Itaquaquecetuba melhor que qualquer outra.
A aldeia é do século XVI. A prefeitura própria é de 1954.
Quase quatrocentos anos entre uma coisa e outra.
Não é exagero retórico: é a distância exata entre o momento em que o lugar passou a existir e o momento em que ele passou a se governar.
Uma das doze aldeias de Anchieta
Itaquaquecetuba é reconhecida como uma das 12 aldeias fundadas pelo padre jesuíta José de Anchieta.
Vale entender o que isso significa. O aldeamento jesuítico não era um vilarejo qualquer: era uma instituição de catequese e trabalho, criada para concentrar população indígena em torno de uma capela, sob administração religiosa.
Doze delas formavam a rede que estruturou o povoamento do planalto paulista no século XVI — e várias cidades deste guia saíram exatamente desse molde: Carapicuíba, Barueri, Embu das Artes, Itapecerica da Serra e Itaquá.
Cinco das vinte cidades do guia começaram como aldeamento jesuítico. É um padrão, não uma coincidência.
1624: o oratório
O desenvolvimento efetivo do povoado tem uma data e um responsável.
Em meados de 1624, o padre João Álvares decidiu construir um oratório em louvor a Nossa Senhora d'Ajuda, iniciando o processo de povoação.
Foi dessa devoção que nasceu a igreja que hoje é o bem mais antigo tombado do Alto Tietê, assunto que tratamos no artigo sobre a Igreja de Nossa Senhora d'Ajuda.
Repare na sequência, porque ela se repete em toda a região: primeiro o aldeamento, depois a capela, depois o povoado em volta da capela.
É a mesma ordem de Embu, de Miracatu e de Juquitiba. No Brasil colonial, a fé chegava antes do cartório.
1838: freguesia de Mogi
O primeiro degrau administrativo veio duzentos e catorze anos depois do oratório.
Em 28 de fevereiro de 1838, o povoado foi elevado à categoria de freguesia do município de Mogi das Cruzes.
Freguesia era a divisão eclesiástica que servia também de divisão civil: tinha igreja, tinha vigário, tinha registro de nascimento e óbito — mas não tinha administração própria.
E foi assim que Itaquá ficou. Durante séculos, permaneceu vinculada a Mogi das Cruzes, da qual era distrito.
Vale dizer o que isso implica, e nós já explicamos o mecanismo no artigo sobre Carapicuíba: distrito arrecada e não decide. O imposto sai e a obra chega por último.
Itaquá viveu nessa condição por mais de cem anos depois de virar freguesia — e por quase quatrocentos desde a aldeia.
1953 e 1954: finalmente
A emancipação veio no meio do século XX, e ela tem — como quase todas nesta região — duas datas.
Pela Lei nº 2.456, de 30 de dezembro de 1953, Itaquaquecetuba foi elevada a município. A lei foi posta em execução em 1º de janeiro de 1954.
Há também fontes que registram 8 de dezembro de 1953 como data da conquista da emancipação política. Ficamos com as duas anotadas, sem escolher.
E olhe o padrão que se forma quando se lê muita história municipal em sequência:
- Itaquaquecetuba — lei em 30/12/1953, execução em 01/01/1954
- Mauá — plebiscito em 22/11/1953, instalação em 01/01/1955
- Diadema — município em 18/02/1953
- Taboão da Serra — distrito de Itapecerica em 10/12/1953
Quatro cidades deste guia mudaram de status no mesmo triênio. Os anos 1953 e 1954 foram, na Grande São Paulo, o momento em que dezenas de distritos cansaram de esperar.
E há um detalhe elegante: a lei foi assinada em 30 de dezembro e passou a valer em 1º de janeiro. Itaquá começou a existir como cidade literalmente com a virada do ano.
O que Itaquá virou
E aqui está a surpresa do acervo.
Este guia mapeia 12.485 estabelecimentos em Itaquaquecetuba. Deles, 683 são de indústria e atacado — ou 5,5% do total.
Cinco vírgula cinco por cento.
Isso coloca Itaquá em segundo lugar na proporção industrial entre todas as vinte cidades deste guia, atrás apenas de Diadema (6,8%) e à frente de Mauá (3,9%), Guarulhos (3,3%) e São Bernardo do Campo (2,3%).
Uma cidade que ninguém associa a parque fabril tem densidade industrial maior que a capital do automóvel.
O perfil completo:
- Serviços e profissionais — 1.717
- Mercados e alimentos — 1.336
- Bares e restaurantes — 1.139
- Construção e reforma — 1.088
- Igrejas e templos — 964
- Beleza e bem-estar — 952
Duas leituras saltam.
Construção e reforma em quarto lugar, com 1.088 — a assinatura de cidade em obra permanente, autoconstrução em escala, o mesmo padrão de Jundiapeba.
E igrejas e templos em quinto, com 964. Numa cidade que nasceu de um oratório construído por um padre em 1624, a religião continua sendo uma das cinco maiores categorias comerciais quatrocentos anos depois.
Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Itaquaquecetuba, indústria e atacado, construção e reforma, igrejas e templos e mercados e alimentos.
O que era um aldeamento jesuítico
Vale explicar a instituição, porque ela é a origem de cinco cidades deste guia e quase ninguém sabe como funcionava.
O aldeamento não era uma aldeia indígena. Era o oposto dela: um núcleo criado pelos jesuítas para reunir, num só lugar, populações que viviam dispersas.
O objetivo declarado era a catequese. O funcionamento prático incluía muito mais que isso.
Concentração. Grupos de origens diferentes eram trazidos e assentados juntos, muitas vezes a grande distância de seu território original. Foi assim que indígenas de Carapicuíba acabaram em Itapecerica e em São Lourenço da Serra.
Trabalho. O aldeamento produzia — roça, criação, artesanato — e a produção sustentava a missão e abastecia as vilas coloniais em volta.
Administração. O padre era, ao mesmo tempo, autoridade religiosa, judicial e econômica. Não havia câmara, não havia juiz, não havia outra instância.
Território. As terras do aldeamento eram protegidas em tese, e disputadas na prática, durante todo o período colonial.
É por isso que a expulsão dos jesuítas, em 1760, foi devastadora para lugares assim: retirada a ordem, sumia de uma vez a igreja, a escola, a administração e a economia. Foi o que aconteceu em Embu, que entrou em dois séculos de retração.
Itaquá teve destino diferente porque, já em 1624, o povoamento tinha ganhado vida própria em torno do oratório de Nossa Senhora d'Ajuda — com moradores, roças e comércio que não dependiam apenas da ordem religiosa.
Sobreviveu. Mas sobreviveu como distrito de outro município, por mais três séculos.
Linha do tempo
- século XVI — Itaquaquecetuba figura entre as 12 aldeias fundadas pelo padre José de Anchieta
- 1624 — o padre João Álvares constrói um oratório em louvor a Nossa Senhora d'Ajuda, iniciando a povoação
- 28/02/1838 — o povoado é elevado a freguesia do município de Mogi das Cruzes
- séculos seguintes — permanece como distrito de Mogi
- 30/12/1953 — a Lei nº 2.456 eleva Itaquaquecetuba a município (há fontes que registram 08/12/1953)
- 01/01/1954 — a lei é posta em execução
- hoje — 12.485 estabelecimentos, com 5,5% de indústria
Comparando com os vizinhos
Com Mogi das Cruzes: Itaquá foi distrito de Mogi por séculos. Hoje Mogi tem o dobro do comércio, mas Itaquá tem quase três vezes a proporção industrial — 5,5% contra 1,9%.
Com Suzano: as duas saíram da mesma matriz do Alto Tietê e se emanciparam com poucos anos de diferença. Suzano tem 14.980 estabelecimentos; Itaquá, 12.485.
Com Diadema: as duas lideram a densidade industrial deste guia. Diadema por causa da Via Anchieta e das autopeças; Itaquá por um processo que nenhuma fonte que abrimos explica.
O que ninguém explica
- 08 ou 30 de dezembro de 1953? Duas datas circulam para a mesma emancipação.
- Por que a industrialização de Itaquá? A cidade tem a segunda maior proporção industrial do guia, e nenhuma fonte trata de como isso aconteceu.
- Quem foi o padre João Álvares? Construiu o oratório que originou a cidade, e não há registro além do nome.
O que fica
No século XVI, um jesuíta chamado José de Anchieta fundou doze aldeias no planalto paulista, e uma delas ficava onde hoje é Itaquaquecetuba.
Em 1624, um padre chamado João Álvares levantou ali um oratório para Nossa Senhora d'Ajuda, e em volta dele começou a nascer um povoado.
Em 1838 aquilo virou freguesia de Mogi das Cruzes.
E aí passaram-se cento e quinze anos até que uma lei, assinada em 30 de dezembro de 1953, entrasse em vigor no primeiro dia de 1954 e finalmente desse à cidade um prefeito próprio.
Da aldeia ao cartório: quase quatro séculos.
Hoje são 12.485 comércios, 683 deles industriais — a segunda maior densidade de fábrica de todo este guia.
A cidade esperou quatrocentos anos para poder decidir alguma coisa. E aí, em setenta, virou parque industrial.
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