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Como era antes · Embu das Artes

Embu ficou duzentos anos parada — entre a expulsão dos jesuítas, em 1760, e o tombamento do século XX

A aldeia é de 1554. A fazenda foi doada aos jesuítas em 1624. Em 1690 o padre Belchior de Pontes mudou o núcleo de lugar e começou a igreja. Aí a Coroa expulsou os jesuítas e a cidade entrou em retração por dois séculos.

· 8 min de leitura

Vista de Embu das Artes

Toda cidade tem períodos bons e ruins.

Embu das Artes tem uma coisa mais rara: um período de dois séculos em que praticamente não aconteceu nada.

Entre 1760, quando os jesuítas foram expulsos do Brasil por ordem da Coroa portuguesa, e meados do século XX, quando a capela e o convento foram tombados, o lugar entrou no que as fontes chamam, sem rodeio, de período de retração.

Duzentos anos de espera.

E o que veio depois — a feira, os artistas, o nome "das Artes", a estância turística — é todo posterior a essa longa pausa.

1554: Bohi

A origem é do primeiro século da colonização.

Em 1554, um grupo de jesuítas fundou o aldeamento de Bohi, depois chamado M'Boy, estabelecendo uma capela no centro do povoado. Em volta dela floresceram pequenas roças e sítios com plantações.

Mil quinhentos e cinquenta e quatro é o mesmo ano da fundação de São Paulo de Piratininga. Embu é contemporânea da capital.

E o nome tem uma explicação tupi que tratamos no artigo sobre a origem de "Embu".

1607 e 1624: a fazenda muda de mãos

A propriedade da terra tem uma sequência documentada com datas precisas.

Em 1607, as terras do aldeamento passaram a Fernão Diastio do bandeirante Fernão Dias Paes Leme — e a sua mulher, Catarina Camacho.

Em 24 de janeiro de 1624, Fernão Dias Paes e Catarina Camacha fizeram a doação de sua fazenda aos padres jesuítas.

Mas a transferência não foi imediata. Só em 27 de julho de 1668 as terras de Bohy passaram definitivamente aos jesuítas.

Quarenta e quatro anos entre a doação e a posse efetiva.

Isso é revelador do funcionamento fundiário colonial: doar era um gesto; consolidar juridicamente era outra coisa, que podia atravessar duas gerações e uma pilha de disputas.

E vale registrar a coincidência: 1624 é também o ano em que o padre João Álvares construiu o oratório que originaria Itaquaquecetuba, do outro lado da capital. O mesmo ano, dois marcos jesuíticos.

1690: Belchior de Pontes muda a cidade de lugar

Em 1690, o padre jesuíta Belchior de Pontes fez algo pouco comum: transferiu o núcleo da aldeia do local original e começou a construir a atual Igreja do Rosário.

Pare nisso. Ele mudou a cidade de lugar.

Não sabemos, pelas fontes que abrimos, por que — se por água, por terreno, por saúde ou por conveniência da administração. Mas o Embu que existe hoje não está onde o aldeamento de 1554 estava.

Entre 1730 e 1734, os jesuítas construíram sua residência anexa à igreja, formando um conjunto arquitetônico contínuo, de linhas retas e sóbrias — o casario que hoje é o cartão-postal da cidade e que foi tombado em 1938, no ano seguinte à criação do IPHAN.

Belchior de Pontes, aliás, é um nome que atravessa este guia inteiro. Ele aparece na história de Itapecerica da Serra, na de Carapicuíba e na de São Lourenço da Serra, onde catequizava os indígenas trazidos por Afonso Sardinha.

Um único padre jesuíta deixou marca em pelo menos quatro das vinte cidades deste guia.

1760: a queda

E aí, num único ato, tudo parou.

Em 1760, por ordem da Coroa portuguesa, os jesuítas foram expulsos do Brasil.

Foi a política do Marquês de Pombal, aplicada em todo o império português. E o efeito sobre lugares como Embu foi devastador — porque ali os jesuítas não eram só a igreja: eram a administração, a economia e a escola.

Tirados eles, o que sobra é um casario, uma igreja e nenhuma instituição.

O registro é direto: "Embu entrou em um período de retração que durou até meados do século XX."

Duzentos anos.

Pense no que aconteceu no Brasil nesse intervalo: a mudança da corte, a Independência, o Império inteiro, a abolição, a República, o ciclo do café, a industrialização, duas guerras mundiais.

Embu atravessou tudo isso parada.

O renascimento

O que tirou a cidade da retração foi, primeiro, o reconhecimento do patrimônio: a capela e o convento foram tombados pelo Estado em meados do século XX.

E então a comunidade local, liderada por Annis Neme Bassith, iniciou o processo de emancipação — criando o município de Embu em 1959.

O mesmo 1959 em que Taboão da Serra também se separou de Itapecerica, pelo mesmo ato.

Depois vieram os artistas, e depois a feira — que nasceu de gente expulsa de uma praça e virou patrimônio imaterial do estado, como contamos aqui.

Ou seja: a cidade que hoje vive de turismo cultural passou dois terços da própria existência sem nada acontecer. E o que a reativou foi justamente o que tinha sobrado do período jesuítico — a igreja e o casario que ninguém teve dinheiro para demolir.

A retração preservou o patrimônio. Se Embu tivesse prosperado nos séculos XIX e XX, provavelmente teria derrubado o conjunto para construir outra coisa, como fizeram quase todas as suas vizinhas.

O que Embu é hoje

Este guia mapeia 9.177 estabelecimentos em Embu das Artes.

O perfil:

  • Serviços e profissionais — 1.550
  • Mercados e alimentos — 995
  • Bares e restaurantes — 956
  • Construção e reforma — 785
  • Beleza e bem-estar — 695
  • Igrejas e templos — 604

E 213 estabelecimentos de indústria e atacado, ou 2,3% do total.

Embu é hoje a terceira menor economia entre as cidades da faixa sudoeste deste guia, à frente apenas de Embu-Guaçu e Juquitiba — e bem atrás de Taboão da Serra, que se emancipou no mesmo ato, no mesmo ano, e tem 13.123 estabelecimentos.

Duas cidades criadas pela mesma lei, no mesmo dia. Uma tem 43% mais comércio que a outra.

A diferença? Taboão ficou no caminho de São Paulo. Embu ficou com a igreja.

Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Embu das Artes, serviços e profissionais, mercados e alimentos, bares e restaurantes e igrejas e templos.

Linha do tempo

  • 1554 — jesuítas fundam o aldeamento de Bohi, depois M'Boy, com capela no centro
  • 1607 — as terras passam a Fernão Dias, tio do bandeirante, e sua mulher Catarina Camacho
  • 24/01/1624 — Fernão Dias Paes e Catarina Camacha doam a fazenda aos padres jesuítas
  • 27/07/1668 — as terras de Bohy passam definitivamente aos jesuítas
  • 1690 — o padre Belchior de Pontes transfere o núcleo da aldeia e começa a construir a Igreja do Rosário
  • 1730–1734 — construção da residência jesuítica anexa à igreja
  • 1760 — por ordem da Coroa portuguesa, os jesuítas são expulsos do Brasil; começa o período de retração
  • meados do século XX — capela e convento são tombados pelo Estado
  • 1959 — criação do município de Embu, com a comunidade liderada por Annis Neme Bassith

Comparando com os vizinhos

Com Taboão da Serra: as duas foram criadas no mesmo ato, em 1959, desmembradas de Itapecerica. Taboão tem hoje 13.123 estabelecimentos; Embu, 9.177.

Com Itaquaquecetuba: as duas nasceram de aldeamento jesuítico e as duas têm uma igreja tombada como marco. Mas Itaquá industrializou, e Embu foi por outro caminho.

Com Carapicuíba: a aldeia de Carapicuíba, de 1580, sobreviveu escondida por quatro séculos. Em Embu, o conjunto sobreviveu por outro motivo: ninguém teve com o que substituí-lo.

O que ninguém explica

  • Por que Belchior de Pontes mudou o núcleo de lugar em 1690? A transferência é registrada, e o motivo não.
  • Por que quarenta e quatro anos entre a doação de 1624 e a posse de 1668? Nenhuma fonte explica a demora.
  • Quem foi Annis Neme Bassith? Liderou a emancipação da cidade e aparece só como nome.

O que fica

Em 1554, no mesmo ano em que se fundava São Paulo, um grupo de jesuítas ergueu uma capela num lugar chamado Bohi.

Em 1624, o tio de um bandeirante famoso doou a fazenda aos padres. Levou quarenta e quatro anos para a doação virar posse.

Em 1690, um padre chamado Belchior de Pontes decidiu que a aldeia devia ficar em outro lugar, mudou tudo e começou a igreja que está lá até hoje.

Entre 1730 e 1734 levantaram a casa ao lado, formando o conjunto de linhas retas e sóbrias que o Brasil inteiro reconhece.

E em 1760 a Coroa expulsou os jesuítas.

A partir dali, por dois séculos, Embu não cresceu, não industrializou, não virou nada.

Foi essa parada — e não um plano de preservação — que salvou o casario.

Quando a cidade finalmente acordou, em meados do século XX, descobriu que a única coisa que tinha era exatamente a única coisa que ninguém mais na região tinha conseguido manter de pé.

E foi com isso que ela se reinventou.

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