Como era antes · Taboão da Serra
Taboão da Serra trocou de município quatro vezes antes de existir — e nasceu no mesmo decreto que criou Osasco
Foi bairro de Santo Amaro até 1935, depois bairro do Embu, depois distrito de Itapecerica em 1953. Em 31 de dezembro de 1958 o estado desmembrou a comarca inteira e criou dois municípios de uma vez.
A cidade mais densamente povoada do estado de São Paulo passou boa parte do século XX sem saber a que município pertencia.
Taboão da Serra foi bairro de Santo Amaro. Depois bairro do Embu. Depois distrito de Itapecerica da Serra. Só então virou cidade.
Quatro jurisdições em pouco mais de duas décadas.
E o dia em que ela finalmente se separou é uma data que já apareceu nesta rodada: 31 de dezembro de 1958.
Antes de tudo: um lugar onde se parava
A origem de Taboão não é um fundador, uma capela nem uma estação.
É o cansaço de quem viajava.
Taboão da Serra era ponto de passagem de viajantes que seguiam do interior paulista rumo à capital. E eles paravam ali por dois motivos concretos: as águas e o relevo.
Depois de subir a serra, antes de entrar em São Paulo, havia um lugar com água boa e terreno que permitia descanso. Quem vinha do sul e do sudoeste parava ali.
É o mesmo mecanismo do Centro de Miracatu, que nasceu de uma praia onde os canoeiros almoçavam, e de tantos outros lugares deste guia. Cidade brasileira nasce de gente parando.
E o nome, aliás, também vem da paisagem: "taboão" é aumentativo de taboa, planta de brejo que cresce onde há muita água — assunto que tratamos no artigo sobre o nome da cidade.
Água em abundância explica a planta, explica a parada e explica o nome, tudo de uma vez.
Os anos 1920: povoamento em pedaços
A partir da década de 1920, Taboão foi se constituindo em vários polos de povoamento.
E a descrição desses polos é geograficamente precisa: eles iniciavam no marco existente na Estrada do M'Boy — hoje Avenida Francisco Morato —, então pertencente ao município de Santo Amaro, e seguiam o caminho até o Embu, hoje BR-116, pertencente à Comarca de Itapecerica da Serra.
Leia de novo, porque está tudo ali.
O território de Taboão era, desde o início, um corredor entre dois caminhos — e cada ponta pertencia a um município diferente.
Não era uma cidade dividida por acidente. Era um trecho de estrada que ninguém tinha decidido a quem pertencia.
E é por isso que a história administrativa dela é tão confusa: não havia centro. Havia uma linha, com polos de povoamento ao longo dela.
Quatro donos em vinte e quatro anos
A sequência:
Até 1935 — Taboão era bairro de Santo Amaro, com parte de suas terras no subdistrito do Embu.
Anos seguintes — passou a ser bairro do Embu.
Início dos anos 1950 — já havia quase cinco mil moradores, e o lugar continuava sendo apenas um bairro.
10 de dezembro de 1953 — desmembrou-se do Distrito de Embu, deixando de ser bairro e passando a Distrito do município de Itapecerica da Serra.
Cinco mil pessoas sem prefeitura, sem câmara, sem orçamento próprio, num corredor entre dois caminhos, mudando de dono a cada década e meia.
Não surpreende que tenha começado a organizar reuniões.
31 de dezembro de 1958
E aqui está a data que amarra esta rodada.
No dia 31 de dezembro de 1958, a Comarca de Itapecerica da Serra foi desmembrada, sendo criados os municípios de Embu e Taboão da Serra.
A emancipação política aconteceu oficialmente em 19 de fevereiro de 1959, depois de intensa mobilização popular.
Agora repare no que já contamos nesta mesma rodada, no artigo sobre Osasco:
"No último dia do ano de 1958, o decreto-lei número 5.121, assinado pelo então governador de São Paulo, Carvalho Pinto, criava o município de Osasco."
A mesma data.
31 de dezembro de 1958 foi o dia em que o estado de São Paulo redesenhou o mapa da própria região metropolitana. Numa canetada de fim de ano, nasceram Osasco, Embu e Taboão da Serra.
E há uma segunda coincidência que vale registrar: Taboão comemora a emancipação em 19 de fevereiro de 1959; Osasco comemora em 19 de fevereiro de 1962.
Mesmo dia do mês, mesmo mês, três anos de diferença.
A cidade-mãe que virou menor que a filha
Taboão saiu de Itapecerica da Serra — que, como já contamos, é mãe de cinco municípios.
E o resultado é o de sempre nesta região: a filha ultrapassou a mãe.
- Taboão da Serra — 11.598 estabelecimentos no acervo
- Itapecerica da Serra — 5.315
Taboão tem mais que o dobro do comércio da cidade da qual se separou. E faz isso num território de cerca de 20 km², o que a torna o município mais densamente povoado do estado de São Paulo, com cerca de 13,4 mil habitantes por km².
Uma cidade que cabe num bairro grande da capital e que tem mais comércio que a comarca inteira de onde saiu.
O que Taboão virou
O perfil comercial da cidade:
- Serviços e profissionais — 1.573
- Bares e restaurantes — 1.305
- Beleza e bem-estar — 1.227
- Outros — 1.024
- Mercados e alimentos — 849
- Oficinas e serviços para veículos — 843
E 274 estabelecimentos de indústria e atacado, ou 2,4% do total.
Repare no achatamento: da primeira à sexta categoria há 730 estabelecimentos de diferença, num acervo de 11.598. É o mesmo formato que encontramos em Carapicuíba, que tem 11.015 estabelecimentos e um perfil quase idêntico.
Duas cidades densas, residenciais, sem setor dominante, com comércio dimensionado para o morador.
E há um detalhe que fecha o círculo deste artigo. O bairro Cidade Intercap, terceiro maior da cidade, tem como via mais comercial a Avenida São Paulo — e é cortado pela Régis Bittencourt, a mesma BR-116 que, nos anos 1920, marcava a ponta do território que pertencia a Itapecerica.
O corredor que Taboão sempre foi continua sendo o que organiza a cidade. Contamos essa história aqui.
Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Taboão da Serra, serviços e profissionais, bares e restaurantes, mercados e alimentos e oficinas e serviços para veículos.
Linha do tempo
- antes do século XX — o lugar é ponto de parada de viajantes do interior rumo à capital, por causa das águas e do relevo
- a partir dos anos 1920 — formam-se vários polos de povoamento, do marco na Estrada do M'Boy (atual Francisco Morato) até o caminho do Embu (atual BR-116)
- até 1935 — Taboão é bairro de Santo Amaro, com parte das terras no subdistrito do Embu
- anos seguintes — passa a ser bairro do Embu
- início dos anos 1950 — quase cinco mil moradores, ainda sem autonomia
- 10/12/1953 — desmembra-se do Distrito de Embu e vira distrito de Itapecerica da Serra
- 31/12/1958 — a Comarca de Itapecerica é desmembrada; são criados os municípios de Embu e Taboão da Serra
- 19/02/1959 — emancipação política oficial
- 1963 — Taboão elege a primeira prefeita da história do município
Comparando com os vizinhos
Com Osasco: as duas foram criadas no mesmo 31 de dezembro de 1958, e as duas comemoram em 19 de fevereiro. Osasco levou mais três anos para instalar o governo.
Com Embu das Artes: nasceram no mesmo ato, do mesmo desmembramento. Embu virou estância turística; Taboão virou a cidade mais densa do estado.
Com Carapicuíba: 11.598 contra 11.015 estabelecimentos, perfis comerciais quase idênticos, e as duas emancipadas em meados do século XX. São as gêmeas estatísticas deste guia.
O que ninguém explica
- Quando exatamente Taboão passou de Santo Amaro para o Embu? O registro marca 1935 como fim de uma fase, sem datar o começo da seguinte.
- Onde ficava o marco da Estrada do M'Boy? O ponto de origem do povoamento é citado e não localizado.
- Por que o estado escolheu 31 de dezembro? Três municípios criados no último dia do ano, sem motivo registrado.
O que fica
Havia um trecho de estrada entre a subida da serra e a entrada de São Paulo, com água boa, onde quem viajava parava para descansar.
Nos anos 1920, o povoamento começou a se formar ao longo dele — com uma ponta pertencente a Santo Amaro e a outra a Itapecerica da Serra.
O lugar foi bairro de um, depois bairro de outro, e em 1953 virou distrito de um terceiro.
No último dia de 1958, um ato do governo estadual desmembrou a comarca inteira e criou dois municípios de uma vez — e, no mesmo dia, do outro lado da capital, criou Osasco.
Taboão da Serra tomou posse do próprio destino em 19 de fevereiro de 1959.
Sessenta e sete anos depois, tem 11.598 comércios em vinte quilômetros quadrados, mais que o dobro da cidade de onde saiu, e é o município mais adensado do estado de São Paulo.
Continua sendo, essencialmente, o que sempre foi: um corredor entre São Paulo e o resto.
Só que agora com nome próprio.
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