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Como era antes · Cotia

Cotia começou por volta de 1700 como pouso de tropeiro — no caminho que trazia mulas do Rio Grande do Sul

Quem descia de Viamão com tropa de muares passava por Curitiba, Sorocaba e São Paulo. Cotia era parada obrigatória para descansar e comer. E a cidade se chamava Acutia quando virou vila, em 1856.

· 9 min de leitura

Vista de Cotia

Cotia é conhecida hoje por duas coisas: a Granja Viana e a maior cooperativa agrícola da América Latina.

As duas são do século XX.

Mas a cidade começou duzentos anos antes — e não por causa de lavoura, de indústria nem de igreja.

Começou porque era um lugar bom para parar.

O caminho que descia o Brasil

Para entender Cotia, é preciso entender o negócio mais estranho e mais importante do Brasil colonial: o comércio de mulas.

A economia do ouro em Minas Gerais e, depois, a lavoura em São Paulo precisavam de uma coisa que o Brasil não produzia em quantidade: animal de carga e de montaria.

A resposta veio do extremo sul. Nos campos do Rio Grande do Sul e do que hoje é a Argentina havia muar e gado em abundância — e ninguém para comprar por perto.

Assim nasceu o Caminho de Viamão, também chamado Caminho da Mata: uma rota que saía do Rio Grande do Sul, passava por Curitiba e chegava a Sorocaba, trazendo muares e gado.

Em Sorocaba os animais eram vendidos na maior feira do gênero do país. E de Sorocaba a estrada seguia até São Paulo, passando por Cotia e Itapetininga.

Era, literalmente, a espinha dorsal logística do Brasil colonial.

Por que Cotia

A história de Cotia começou por volta de 1700, quando viajantes que seguiam para o interior — principalmente vindos do sul do Brasil e de Sorocaba — paravam ali para descansar e comer.

O registro é explícito: era um antigo pouso de tropeiros e animais de carga, onde cargas e mantimentos circulavam.

E aqui está o detalhe geográfico que explica tudo. Cotia fica a uma jornada de São Paulo.

Tropa de mula não anda o dia inteiro sem parar. Ela precisa de pasto, água e um lugar seguro para passar a noite. E o último pouso antes de entrar na cidade grande é sempre o mais movimentado: é onde o tropeiro descansa os animais, separa a carga e se prepara para chegar.

Cotia era esse lugar.

É exatamente o mesmo mecanismo que fez Taboão da Serra, do outro lado do mesmo eixo — ponto de parada de quem vinha do interior rumo à capital, por causa das águas e do relevo. E o mesmo do Centro de Miracatu, onde os canoeiros encostavam para almoçar.

Três cidades deste guia existem porque alguém precisava descansar.

O que é um pouso, na prática

Vale descrever, porque a palavra hoje soa vaga.

Um pouso de tropa não era uma pousada. Era um conjunto de funções: pasto cercado para os animais, água limpa, um rancho coberto para os tropeiros, e — quase sempre — uma venda.

E é a venda que gera cidade.

Quem para precisa comprar: milho para o animal, sal, farinha, cachaça, ferradura, corda, remédio. Alguém se instala para vender isso. Depois alguém abre uma ferraria, porque mula perde ferradura. Depois um ferreiro precisa de casa, e a casa precisa de vizinho.

Em uma ou duas gerações, o pouso virou povoado.

É a versão colonial do que este guia mede todos os dias: comércio se forma onde as pessoas param.

Acutia, 1856

O reconhecimento oficial demorou.

Em 2 de abril de 1856, a freguesia de Acutia foi elevada à categoria de vila pelo vice-presidente da província de São Paulo, Roberto de Almeida.

Repare no nome: Acutia.

É a grafia antiga de Cotia — e ela é um argumento a favor da leitura tupi do topônimo, já que "acuti" é a forma registrada para o roedor que hoje chamamos de cutia.

Mas a questão é mais complicada do que parece, e tratamos disso no artigo sobre o nome da cidade: há também a leitura de koty, "ponto de encontro", que faria um sentido notável para um lugar que nasceu justamente como parada de estrada.

Um pouso de tropeiros chamado "ponto de encontro" seria bom demais para ser verdade — e é por isso mesmo que não afirmamos que seja.

De pouso a polo

O que aconteceu com Cotia depois é uma sequência de reinvenções.

O pouso virou freguesia, virou vila em 1856, e no século XX recebeu a leva de imigrantes japoneses que fundou, com 83 produtores de batata, a maior cooperativa agrícola da América Latina — história que contamos aqui.

Depois vieram as chácaras e a Granja Viana, que nasceu porque um homem gostava de gado leiteiro e o irmão importou animais da Holanda, como contamos neste artigo.

E hoje Cotia é uma das maiores economias da região oeste.

Este guia mapeia 18.081 estabelecimentos no município. O perfil:

  • Serviços e profissionais — 4.263
  • Mercados e alimentos — 1.618
  • Construção e reforma — 1.570
  • Bares e restaurantes — 1.391
  • Saúde — 1.252
  • Beleza e bem-estar — 1.231

Serviços com mais que o dobro da segunda categoria. É um perfil de cidade com renda alta e atividade profissional forte — reflexo dos condomínios do eixo da Raposo Tavares.

E 500 estabelecimentos de indústria e atacado, ou 2,8% do total.

Repare que construção e reforma aparece em terceiro, com 1.570. Numa cidade de condomínio e chácara, isso não é autoconstrução: é reforma, paisagismo, marcenaria, piscina, manutenção. A mesma categoria conta histórias opostas dependendo de onde é medida.

Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Cotia, serviços e profissionais, construção e reforma, saúde e mercados e alimentos.

Por que o Brasil precisava de mulas

Vale dimensionar o negócio, porque hoje ele parece pitoresco e na época era estratégico.

O Brasil colonial não tinha estrada de rodagem, não tinha ferrovia e, na maior parte do território, não tinha rio navegável útil. Tudo o que se movia, movia-se em lombo de animal.

E a mula é superior ao cavalo e ao boi para esse trabalho: aguenta mais peso proporcional, come pior, adoece menos, tem casco mais resistente e é muito mais segura em trilha de serra.

Só que mula é híbrida — cruzamento de jumento com égua — e portanto estéril. Não se reproduz.

Isso significa que cada mula em serviço no Brasil precisava ser criada de propósito, uma a uma, e depois transportada até onde seria usada.

A criação acontecia no extremo sul. O consumo acontecia em Minas Gerais e em São Paulo. Entre um e outro havia mais de mil quilômetros de mata, campo e rio.

Daí o Caminho de Viamão, daí a feira de Sorocaba — que chegou a ser o maior mercado de animais da América do Sul — e daí a cadeia de pousos que se formou ao longo da rota.

Cotia era um elo dessa cadeia. E o fato de a cidade ter sobrevivido ao fim do tropeirismo, enquanto dezenas de outros pousos viraram nada, tem a ver com um detalhe simples: ela estava perto o bastante de São Paulo para virar outra coisa quando as mulas pararam de passar.

O que aconteceu quando as tropas acabaram

O tropeirismo morreu com a ferrovia, na segunda metade do século XIX.

Trem carrega mais, mais rápido e mais barato. A partir do momento em que os trilhos chegaram ao interior paulista, a tropa de mula virou obsoleta em poucas décadas.

E aí cada pouso do caminho teve que decidir o que seria.

Alguns viraram cidade grande, porque estavam num cruzamento útil. Outros viraram bairro rural. A maioria simplesmente desapareceu do mapa — restou o nome numa estrada vicinal, quando restou.

Cotia teve sorte na geografia e sorte na gente. A imigração japonesa, no começo do século XX, deu ao município uma segunda vocação econômica — a horticultura — que era tão forte quanto a primeira.

De pouso de tropa a cinturão verde da capital. De cinturão verde a cidade de condomínio e serviço.

Três economias completamente diferentes, no mesmo lugar, em trezentos anos — e o fio que liga as três é sempre o mesmo: a proximidade de São Paulo.

Linha do tempo

  • século XVIII — a Coroa portuguesa passa a incentivar o comércio de tropas; consolida-se o Caminho de Viamão, do Rio Grande do Sul a Sorocaba, via Curitiba
  • por volta de 1700 — viajantes vindos do sul e de Sorocaba param no lugar que viria a ser Cotia, para descansar e comer; forma-se o pouso de tropeiros
  • 02/04/1856 — a freguesia de Acutia é elevada à categoria de vila pelo vice-presidente da província, Roberto de Almeida
  • século XX — imigração japonesa e fundação da cooperativa agrícola
  • hoje — 18.081 estabelecimentos, com serviços respondendo por mais que o dobro da segunda categoria

Comparando com os vizinhos

Com Taboão da Serra: as duas nasceram como parada no caminho de quem ia para a capital. Taboão virou a cidade mais densa do estado; Cotia virou uma das mais espraiadas.

Com Barueri: as duas ficam no eixo oeste. Barueri deve sua existência à ferrovia de 1875; Cotia é anterior — deve à estrada de tropa, de por volta de 1700.

Com Itapecerica da Serra: vizinha ao sul, também de origem colonial, mas por outro caminho: Itapecerica nasceu de aldeamento jesuítico, e Cotia, de comércio de estrada.

O que ninguém explica

  • Onde ficava exatamente o pouso? O ponto que originou a cidade não tem localização registrada.
  • Quem eram os donos do pouso? Nenhum nome aparece nas fontes que abrimos.
  • Acutia ou koty? A grafia de 1856 sugere a cutia; a leitura de "ponto de encontro" faria mais sentido histórico. As duas seguem em disputa.

O que fica

Por volta de 1700, homens que tinham saído dos campos do extremo sul do Brasil com centenas de mulas chegavam ao fim de mais uma jornada, a um dia de São Paulo, e paravam para comer e dormir.

Alguém abriu uma venda ali. Depois uma ferraria. Depois uma capela.

Em 1856 aquilo virou vila, com o nome de Acutia.

Duzentos anos depois, o mesmo lugar tem 18.081 comércios, quatro mil e duzentos deles de serviço profissional, e é conhecido por condomínio e por cooperativa agrícola.

O caminho das tropas sumiu do mapa. A rota de Viamão virou rodovia, e ninguém mais leva mula de Curitiba a Sorocaba.

Mas a lógica que criou a cidade continua funcionando exatamente igual: Cotia é, até hoje, um lugar onde as pessoas param a caminho de São Paulo.

Só mudou o veículo.

CotiaTropeirosCaminho de ViamãoAcutia1856

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