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Como era antes · Juquitiba

Juquitiba se chamava Capela Nova de Bela Vista do Juquiá — e o fundador dava o lote e a madeira da casa

Manoel Jesuíno Godinho e Francisca Maria da Penha doaram dois alqueires para a capela, ofereceram lotes de graça a quem quisesse ficar e ainda forneciam a madeira para construir. O distrito só veio em dezembro de 1907.

· 7 min de leitura

Vista de Juquitiba

Antes de ser Juquitiba, o lugar tinha um nome muito mais comprido e muito mais bonito.

Chamava-se Capela Nova de Bela Vista do Juquiá.

E ele existe porque um casal de proprietários fez uma coisa que hoje soa inacreditável: deu a terra da igreja, deu os lotes de graça a quem quisesse morar, e ainda forneceu a madeira para as pessoas construírem as casas.

O bairro de São Lourenço

O registro histórico da prefeitura começa com uma geografia.

Desde meados do século XIX, a região banhada pelo rio São Lourenço, quase na sua confluência com o rio Jequiá ou Juquiá, era conhecida como bairro de São Lourenço.

Repare no nome: bairro de São Lourenço.

É o mesmo topônimo que, mais tarde, daria nome ao município vizinho de São Lourenço da Serra — que ficaria com o santo, enquanto Juquitiba ficaria com o rio.

Dois municípios diferentes, dois pedaços do mesmo nome antigo.

1867: os primeiros moradores

Em 1867, foi legitimada a posse daqueles que podem ser considerados os primeiros moradores de Juquitiba — entre eles Manoel Jesuíno Godinho.

"Legitimada a posse" é uma expressão precisa e reveladora. Significa que as pessoas já estavam lá e que o Estado passou a reconhecer, por escrito, o que já era fato.

É assim que boa parte do Brasil rural virou propriedade: primeiro ocupa-se, depois regulariza-se. O mesmo que aconteceria oitenta e cinco anos depois no Jardim Zaira, em Mauá, onde o loteamento começou em 1952 e a autorização municipal só veio em 1956.

A doação — com duas datas

E aqui está o gesto que fundou a cidade.

Segundo o texto narrativo da prefeitura, em 1887, Manoel Jesuíno Godinho e sua mulher, Dona Francisca Maria da Penha, proprietários de terras na região, resolveram doar dois alqueires para a construção da capela em louvor de Nossa Senhora das Dores — padroeira e protetora de Juquitiba.

E não pararam aí. Ofereceram também, gratuitamente, lotes para aqueles que estivessem interessados em se fixar, aos quais forneciam madeira para construção das casas.

Leia de novo: lote de graça e madeira para levantar a casa.

Vale registrar a divergência, porque ela está dentro do mesmo documento da prefeitura. A cronologia oficial data a doação em 1877, "pela escritura de 1º de novembro, lavrada no Tabelião de Itapecerica" — dez anos antes do que diz o texto narrativo.

Duas datas, um arquivo só. Ficamos com as duas anotadas, como já fizemos no artigo sobre os bairros de Juquitiba.

Por que alguém daria terra de graça

O gesto parece altruísmo puro, e provavelmente tinha bastante disso. Mas vale entender a lógica, porque ela se repete na história desta região.

Terra sem gente não vale nada. Um proprietário com centenas de alqueires no meio da mata, a dias de qualquer mercado, tem um ativo que não gera renda e que ele não consegue vender.

Se ele doa a terra da capela, aparece o padre. Com o padre, aparece a missa. Com a missa, aparece a feira. Com a feira, aparece o comércio — e a terra que sobrou, no entorno, passa a valer.

Dar o lote e a madeira acelera tudo isso. É o mesmo cálculo que Chafik Mansur Sadek faria em Mauá, setenta anos depois, doando tijolo, telha, porta e janela para quem comprasse lote no Jardim Zaira.

Não diminui o gesto. Explica por que ele funcionou.

De capela a distrito

O primeiro agrupamento populacional passou a se chamar Capela Nova de Bela Vista do Juquiá.

E ficou assim até que, em dezembro de 1907, foi criado o distrito.

Quarenta anos entre a legitimação da posse dos primeiros moradores, em 1867, e o primeiro reconhecimento administrativo.

E note a padroeira: Nossa Senhora das Dores.

É a mesma invocação da capela que deu origem a Miracatu, do outro lado da serra, cuja povoação começou com a igreja para a qual Pierre Laragnoit doou terras em 1871.

Duas cidades deste guia, separadas por dezenas de quilômetros de mata, fundadas em torno da mesma santa, no mesmo período, pelo mesmo mecanismo: um proprietário doa terra, ergue-se uma capela, forma-se um povoado.

O que Juquitiba virou

Este guia mapeia 1.330 estabelecimentos em Juquitiba — o segundo menor acervo entre as vinte cidades, à frente apenas de Miracatu e São Lourenço da Serra.

O perfil:

  • Serviços e profissionais — 165
  • Mercados e alimentos — 127
  • Igrejas e templos — 127
  • Hospedagem e turismo — 117
  • Construção e reforma — 113
  • Bares e restaurantes — 111

Igrejas e templos empatado em segundo lugar com mercados, com 127 cada.

Numa cidade que nasceu literalmente de uma capela — a ponto de ter se chamado "Capela Nova" —, o templo continua sendo, cento e quarenta anos depois, uma das duas maiores categorias comerciais.

E hospedagem em quarto, com 117. Juquitiba e Ibiúna são as duas cidades mais turísticas deste guia — a primeira por causa da corredeira e da mata, a segunda por causa do lago.

A indústria é de apenas 1,7% — 23 estabelecimentos em 1.330.

Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Juquitiba, igrejas e templos, hospedagem e turismo, mercados e alimentos e construção e reforma.

Linha do tempo

  • meados do século XIX — a região banhada pelo rio São Lourenço, perto da confluência com o Juquiá, é conhecida como bairro de São Lourenço
  • 1867 — legitimada a posse dos primeiros moradores, entre eles Manoel Jesuíno Godinho
  • 1877 — pela escritura de 1º de novembro, lavrada no Tabelião de Itapecerica, Godinho e Francisca Maria da Penha doam cerca de dois alqueires em torno da capela (o texto narrativo da prefeitura data o gesto em 1887)
  • período seguinte — lotes gratuitos e madeira para construção atraem moradores; forma-se a Capela Nova de Bela Vista do Juquiá
  • dezembro de 1907 — criação do distrito
  • 1964 — Juquitiba é elevada a município pela Lei Estadual nº 8.092
  • 1996 — pela Lei nº 698, é criado o distrito de Barnabés
  • hoje — 1.330 estabelecimentos, com igrejas empatadas em segundo lugar

Comparando com os vizinhos

Com Miracatu: as duas nasceram de uma capela dedicada a Nossa Senhora das Dores, doada por um proprietário local, no mesmo período. E as duas são as menores economias deste guia.

Com São Lourenço da Serra: as duas dividem o nome antigo do lugar. Juquitiba ficou com o rio; São Lourenço, com o santo.

Com Mauá: o mesmo mecanismo comercial, com setenta anos de diferença. Godinho dava lote e madeira; Chafik dava tijolo, telha, porta e janela.

O que ninguém explica

  • 1877 ou 1887? O mesmo documento da prefeitura traz as duas datas para a mesma doação.
  • Quantas famílias aceitaram o lote de graça? O oferecimento é registrado; a adesão, não.
  • Por que Nossa Senhora das Dores? A escolha da invocação, compartilhada com Miracatu, não aparece explicada.

O que fica

Havia um trecho de mata entre dois rios que as pessoas chamavam de bairro de São Lourenço.

Em 1867, o Estado reconheceu no papel que algumas famílias já moravam ali. Uma delas era a de Manoel Jesuíno Godinho.

Uma década depois — ou duas, dependendo da página do arquivo —, ele e a mulher, Francisca Maria da Penha, doaram dois alqueires para se erguer uma capela a Nossa Senhora das Dores.

E ofereceram lotes de graça a quem quisesse ficar, fornecendo a madeira para as casas.

O lugar passou a se chamar Capela Nova de Bela Vista do Juquiá. Em dezembro de 1907 virou distrito. Em 1964, município.

Hoje tem 1.330 comércios, e igrejas e templos empata em segundo lugar entre as maiores categorias.

Cento e quarenta anos depois de um casal dar a terra para levantar uma capela, o templo continua sendo, em números, uma das duas coisas que mais existem na cidade.

JuquitibaManoel Jesuíno GodinhoCapela NovaNossa Senhora das Dores1907

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