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Como era antes · Itapecerica da Serra

Itapecerica perdeu cinco pedaços em 32 anos — e hoje as filhas somam quatro vezes e meia o comércio da mãe

O território original ia de Taboão da Serra a São Lourenço. Duas leis estaduais, em 1959 e 1964, levaram quatro municípios de uma vez. O quinto saiu em 1991. Sobrou a cidade menor de todas.

· 8 min de leitura

Vista de Itapecerica da Serra

Há cidades que crescem. Itapecerica da Serra fez o contrário.

Inicialmente, o território de Itapecerica englobava as áreas onde hoje se encontram os municípios de Taboão da Serra, Embu, Embu-Guaçu, Juquitiba e São Lourenço da Serra.

Cinco cidades saíram de dentro dela.

E hoje, somadas, essas cinco filhas têm quatro vezes e meia o comércio que sobrou para a mãe.

O território original

Antes de qualquer desmembramento, Itapecerica era um município enorme, que ia do que hoje é a divisa com a capital, ao norte, até a serra e as cabeceiras que descem para o litoral sul.

Era um território de aldeamento jesuítico, fundado no século XVI sob a invocação de Nossa Senhora dos Prazeres, e que cresceu com a chegada de indígenas trazidos de Carapicuíba — história que tratamos no artigo sobre a pedra que batizou a cidade.

Também foi ali que, em 1827, desembarcou uma colônia de alemães trazidos ao Brasil sob promessa, cujos sobrenomes ainda estão espalhados pela região — como contamos neste artigo.

Sobrenomes como Hengles, que hoje dá nome a uma estrada em Potuverá, e Schuster, aportuguesado como Justo, que virou nome de um bairro inteiro em Juquitiba.

As famílias de 1827 se espalharam por um território que, naquele momento, era todo Itapecerica.

A primeira lei: 18 de fevereiro de 1959

O primeiro corte foi duplo.

Pela Lei Estadual nº 5.285, de 18 de fevereiro de 1959, foram desmembrados do município de Itapecerica da Serra os distritos de Embu e Taboão da Serra, elevados à categoria de município.

Dois de uma vez.

E essa lei merece atenção especial, porque ela aparece em outro lugar deste guia: a mesma Lei nº 5.285, de 18/02/1959 consta como a que criou o distrito de Paruru, em Ibiúna, do outro lado da região — assunto do artigo sobre as duas datas de Paruru.

Não é coincidência: a Lei 5.285 foi uma lei estadual de reorganização administrativa em massa, do tipo que redesenhava a divisão territorial de São Paulo inteiro de uma vez só.

Uma canetada, dezenas de municípios e distritos criados.

Uma ressalva de fonte. Registros locais de Taboão da Serra situam o desmembramento da Comarca de Itapecerica em 31 de dezembro de 1958, com emancipação política em 19 de fevereiro de 1959. A referência à Lei 5.285 aponta para 18 de fevereiro de 1959. As duas coisas podem conviver — comarca é divisão judiciária, município é divisão política, e a instalação costuma vir um dia depois da lei. Mas o guia registra a divergência em vez de fingir que ela não existe.

A segunda lei: 28 de fevereiro de 1964

Cinco anos depois, mais dois pedaços.

Pela Lei Estadual nº 8.092, de 28 de fevereiro de 1964, foram desmembrados do município de Itapecerica da Serra os distritos de Embu-Guaçu e Juquitiba, elevados à categoria de município.

E de novo o número da lei reaparece.

A Lei nº 8.092, de 28/02/1964, é exatamente a mesma que elevou Carapicuíba a município, desmembrada de Barueri — assunto do artigo sobre a separação das duas.

Ou seja: um único ato legislativo, num único dia de fevereiro de 1964, criou três das vinte cidades deste guia — Embu-Guaçu, Juquitiba e Carapicuíba.

Duas leis estaduais, 5.285 e 8.092, respondem por cinco dos vinte municípios que este guia cobre.

Vale parar nisso um segundo. A geografia política da Grande São Paulo — quem é cidade, quem é bairro, quem arrecada o próprio imposto — não foi decidida por vocação econômica nem por identidade local. Foi decidida em duas sessões da Assembleia Legislativa, com cinco anos de intervalo.

O quinto pedaço: 1991

O último corte demorou quase três décadas.

Em 30 de dezembro de 1991, o então Distrito de São Lourenço da Serra foi elevado à categoria de município, quando se emancipou de Itapecerica da Serra.

A emancipação oficial se completou em 12 de março de 1992, o que faz de São Lourenço a cidade mais nova deste guia — e a história dela, que começa com dois caçadores e uma capela abandonada, está aqui.

Trinta e dois anos entre o primeiro e o último desmembramento. De 1959 a 1991.

A conta de hoje

E agora o dado que dá título ao artigo.

Este guia mapeia 5.931 estabelecimentos em Itapecerica da Serra.

As cinco filhas:

  • Taboão da Serra — 13.123
  • Embu das Artes — 9.177
  • Embu-Guaçu — 2.579
  • Juquitiba — 1.330
  • São Lourenço da Serra — 767

Soma: 26.976 estabelecimentos.

As cinco cidades que saíram de Itapecerica têm, juntas, quatro vezes e meia o comércio da cidade que as gerou.

E duas delas, sozinhas, já são maiores que a mãe: Taboão tem mais que o dobro de Itapecerica, e Embu das Artes tem mais de uma vez e meia.

Não é decadência — Itapecerica não encolheu em números absolutos. É subtração territorial: cada lei levou embora um pedaço de chão que continuou existindo e crescendo, só que com outro CNPJ de prefeitura.

O que sobrou

O perfil de Itapecerica hoje:

  • Serviços e profissionais — 918
  • Mercados e alimentos — 596
  • Bares e restaurantes — 577
  • Construção e reforma — 532
  • Beleza e bem-estar — 446
  • Igrejas e templos — 426

E 128 estabelecimentos de indústria e atacado, ou 2,2% do total.

Igrejas e templos em sexto, com 426 — a assinatura da faixa sudoeste inteira, onde o templo de bairro é o equipamento coletivo mais próximo de casa.

E boa parte do território que restou é área de proteção aos mananciais, o que congela o uso do solo e explica por que a cidade não adensou como Taboão. É o caso de Potuverá, bairro rural com mais estradas que ruas, cortado pela Régis Bittencourt e habitado por uma abadia beneditina.

Itapecerica ficou com a serra, com a água e com a restrição. As filhas ficaram com o asfalto.

Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Itapecerica da Serra, serviços e profissionais, mercados e alimentos, construção e reforma e igrejas e templos.

Linha do tempo

  • século XVI — aldeamento jesuítico sob a invocação de Nossa Senhora dos Prazeres
  • 1827 — chegada da colônia alemã ao território
  • 1841 — Itapecerica é elevada a freguesia, pertencente ao antigo município de Santo Amaro
  • 18/02/1959 — a Lei Estadual nº 5.285 desmembra Embu e Taboão da Serra, elevados a município
  • 28/02/1964 — a Lei Estadual nº 8.092 desmembra Embu-Guaçu e Juquitiba; a mesma lei cria Carapicuíba
  • 30/12/1991 — o distrito de São Lourenço da Serra é elevado a município
  • 12/03/1992 — emancipação oficial de São Lourenço, a cidade mais nova deste guia
  • hoje — Itapecerica com 5.931 estabelecimentos; as cinco filhas com 26.976

Comparando com os vizinhos

Com Taboão da Serra: a filha maior. Saiu em 1959 e hoje tem 13.123 estabelecimentos em 20 km², contra 5.931 da mãe num território muito maior.

Com Mogi das Cruzes: o caso oposto. Mogi também gerou cidades — Suzano, Itaquaquecetuba — mas continuou grande, com 25.273 estabelecimentos. Perder pedaço não condena ninguém; depende do que sobra.

Com Santana de Parnaíba: também mãe de município, gerou Barueri em 1949 — que por sua vez gerou Carapicuíba em 1964. Três gerações de emancipação numa linhagem só.

O que ninguém explica

  • Por que os desmembramentos vieram em pares? Embu e Taboão juntos em 1959; Embu-Guaçu e Juquitiba juntos em 1964.
  • 31/12/1958 ou 18/02/1959? Duas datas para a criação de Embu e Taboão, em fontes diferentes.
  • Houve resistência de Itapecerica? Nenhuma fonte acessível registra a posição da cidade-mãe em nenhum dos cinco processos.

O que fica

Havia um município que ia da divisa da capital até a serra, nascido de um aldeamento jesuítico do século XVI, que recebeu alemães em 1827 e cujos sobrenomes se espalharam por toda a região.

Em 18 de fevereiro de 1959, uma lei estadual levou dois pedaços dele: viraram Embu e Taboão da Serra.

Em 28 de fevereiro de 1964, outra lei levou mais dois: viraram Embu-Guaçu e Juquitiba. A mesma lei, no mesmo dia, criou Carapicuíba do outro lado da região.

E em 30 de dezembro de 1991, o último pedaço saiu e virou São Lourenço da Serra.

Trinta e dois anos, cinco cidades, duas canetadas e um plebiscito.

Hoje Itapecerica tem 5.931 comércios. As cinco filhas somam 26.976.

A cidade-mãe da região oeste-sudoeste da Grande São Paulo é, entre todas as que gerou, apenas a terceira maior.

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