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Como era antes · Miracatu

Miracatu teve trem de 1915 a 1997 — e o expresso de luxo que passava por lá se chamava Ouro Branco

A linha Santos–Juquiá tinha 223,6 km e treze estações. Nos anos 1940 e 1950 corria ali um trem de luxo ligando a capital a Peruíbe. Em 1997 o passageiro acabou; em 2003, tudo. Sobrou um bairro chamado Estação, com dez comércios.

· 7 min de leitura

Vista de Miracatu

Existe em Miracatu um bairro chamado Estação.

No acervo deste guia, ele tem dez estabelecimentos comerciais.

Não passa trem ali desde 1997 — e a linha inteira foi desativada em 2003.

Mas por oito décadas aquele foi um dos pontos de uma ferrovia de 223,6 quilômetros, com treze estações, que ligava o Vale do Ribeira ao porto de Santos. E por ela corria um trem de luxo com nome de joia.

1915: a Southern São Paulo Railway

A linha Santos–Juquiá foi construída em 1915 pela Southern São Paulo Railway, ligando o Porto de Santos à região do Vale do Ribeira.

Duzentos e vinte e três quilômetros e seiscentos metros. Treze estações, entre elas Miracatu e Juquiá.

Vale lembrar o que Miracatu era em 1915: ainda se chamava Prainha, era distrito, e havia nascido de uma faixa de areia na margem do rio São Lourenço onde os canoeiros paravam para descansar e comer — história que contamos no artigo sobre o Centro.

O francês Pierre Laragnoit, que comprou a sesmaria em 1847, escoava a produção pelo rio São Lourenço até Iguape e o Rio de Janeiro.

O trem mudou isso. Onde havia canoa, passou a haver vagão. E o destino deixou de ser Iguape para ser Santos.

Foi a segunda vez que a logística da região virou de cabeça para baixo. A terceira viria com a Régis Bittencourt.

1925: o estado compra

Dez anos depois da inauguração, a ferrovia mudou de dono.

Em 1925, sob o governador Washington Luís, a companhia foi comprada pelo Governo do Estado de São Paulo e incorporada à Estrada de Ferro Sorocabana.

Washington Luís é lembrado pela frase sobre governar ser abrir estradas — e aqui ele está fazendo o contrário do slogan: estatizando uma ferrovia inglesa.

A partir dali, a linha do Vale do Ribeira passou a integrar a mesma malha que, poucos anos depois, abriria o ramal Mairinque–Santos e inauguraria a estação de Embu-Guaçu, em 1934.

As duas cidades menores deste guia acabaram ligadas pela mesma companhia — e, sessenta anos depois, seriam desligadas pelo mesmo movimento.

O Expresso Ouro Branco

E aqui está o detalhe que quase ninguém sabe.

A ferrovia atingiu o auge nas décadas de 1940 e 1950, quando operava o luxuoso trem Expresso Ouro Branco, ligando a capital a Peruíbe.

Pare nisso.

Um trem de luxo, saindo de São Paulo, atravessando o Vale do Ribeira, com destino ao litoral sul.

Isso significa que, por duas décadas, Miracatu esteve numa rota de turismo de elite. Gente da capital passava por ali a caminho da praia, em vagão confortável, num serviço com nome próprio.

"Ouro Branco" era como se chamava a banana no Vale do Ribeira — o produto que fez a economia da região e que hoje tem selo de indicação geográfica, assunto que tratamos neste artigo.

O trem de luxo levava o apelido da fruta que os vagões de carga transportavam.

1986, 1997, 2003: o fim em três atos

O desmonte foi lento.

Em 1986, a Fepasa ainda ampliou a linha, com uma extensão de 70 quilômetros entre Juquiá e Cajati, que acrescentou Registro ao percurso. Ou seja: dez anos antes do fim, ainda se investia.

Em 1997, depois de 84 anos de operação, o transporte de passageiros foi suspenso — "por não interessar mais à concessionária".

Foi o mesmo ano e o mesmo movimento que encerrou o trem de passageiros de Embu-Guaçu.

A linha continuou operando para carga até 2003, quando barreiras caíram sobre os trilhos na região do Vale do Ribeira e a concessionária desativou a linha por completo.

Não houve decisão de fechar. Houve um deslizamento — e ninguém achou que valia a pena limpar.

É um jeito muito brasileiro de acabar uma ferrovia: ela não é encerrada, é abandonada onde parou.

O que Miracatu virou

Este guia mapeia 752 estabelecimentos em Miracatu — o menor acervo entre as vinte cidades deste guia.

O perfil:

  • Serviços e profissionais — 107
  • Bares e restaurantes — 94
  • Mercados e alimentos — 78
  • Igrejas e templos — 72
  • Outros — 58
  • Oficinas e serviços para veículos — 54

E apenas 8 estabelecimentos de indústria e atacado1,1%, a menor proporção do guia.

Já apontamos, no artigo sobre o Centro, que Miracatu tem um traço único: bares e restaurantes muito alto para o tamanho da cidade, em segundo lugar com 94.

E agora dá para juntar as peças.

A cidade nasceu como parada de canoeiro. Ganhou uma ferrovia em 1915 e um trem de luxo nos anos 1940. Perdeu os dois. E hoje é cortada pela Régis Bittencourt, a mesma rodovia que passa por Potuverá, pela Cidade Intercap e por Juquitiba.

Canoa, trem, caminhão. Três tecnologias, cento e oitenta anos, e sempre a mesma função: Miracatu é o lugar onde quem está de passagem para para comer.

Por isso bar e restaurante lidera. Não é acaso — é a vocação mais antiga da cidade, sobrevivendo a três mudanças completas de transporte.

Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Miracatu, bares e restaurantes, mercados e alimentos, oficinas e serviços para veículos e igrejas e templos.

Linha do tempo

  • 1847 — o francês Pierre Laragnoit compra a sesmaria e escoa a produção pelo rio São Lourenço
  • 1915 — a Southern São Paulo Railway constrói a linha Santos–Juquiá: 223,6 km e treze estações, entre elas Miracatu
  • 1925 — sob o governador Washington Luís, o Estado compra a companhia e a incorpora à Sorocabana
  • anos 1940 e 1950 — auge da linha, com o luxuoso Expresso Ouro Branco ligando a capital a Peruíbe
  • 1944 — Prainha passa a se chamar Miracatu
  • 1986 — a Fepasa amplia a linha em 70 km, entre Juquiá e Cajati, incluindo Registro
  • 1997 — após 84 anos, o transporte de passageiros é suspenso, junto com o de Embu-Guaçu
  • 2003 — barreiras caem sobre a linha e a concessionária a desativa por completo
  • hoje — sobra o bairro Estação, com dez estabelecimentos

Comparando com os vizinhos

Com Embu-Guaçu: as duas perderam o trem de passageiros em 1997, na mesma decisão. E as duas guardam um bairro com nome de estação — dez comércios em Miracatu, dois em Embu-Guaçu.

Com Juquitiba: as duas nasceram de capela dedicada a Nossa Senhora das Dores e são as duas menores economias deste guia, com 752 e 1.330 estabelecimentos.

Com Barueri: a estação de Barueri, de 1875, virou uma cidade de 37 mil comércios. A de Miracatu virou um bairro com dez. A diferença não é a ferrovia — é a distância da capital.

O que ninguém explica

  • Onde está o prédio da estação de Miracatu? O bairro leva o nome e o destino da construção não aparece.
  • Quanto tempo levava a viagem até Santos? Duzentos e vinte e três quilômetros, e nenhum registro acessível do tempo de percurso.
  • Por que investir em 1986 e desistir em 1997? Onze anos entre a ampliação e o fim do passageiro, sem explicação registrada.

O que fica

Em 1915, uma companhia inglesa assentou duzentos e vinte e três quilômetros de trilho ligando o Vale do Ribeira ao porto de Santos, com treze estações no caminho.

Uma delas ficava em Miracatu, que ainda se chamava Prainha e que tinha nascido, setenta anos antes, de uma faixa de areia onde os canoeiros paravam para almoçar.

Nos anos 1940 e 1950 passava por ali um trem de luxo chamado Expresso Ouro Branco — o apelido da banana que os vagões de carga levavam —, com gente da capital a caminho da praia.

Em 1997, depois de oitenta e quatro anos, o último passageiro desembarcou.

Em 2003, uma barreira caiu sobre os trilhos e ninguém foi tirar.

Hoje Miracatu tem 752 comércios, o menor acervo deste guia, e um bairro chamado Estação com dez deles.

Mas bar e restaurante continua sendo a maior categoria da cidade.

Porque a canoa acabou, o trem acabou, e a única coisa que nunca mudou é que as pessoas continuam parando ali para comer.

MiracatuSantos-JuquiáSorocabanaExpresso Ouro Branco1997

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