Como era antes · Embu-Guaçu
Embu-Guaçu teve trem para Santos por 63 anos — e ainda existe um bairro chamado Estação de Trem
A estação foi inaugurada em 5 de abril de 1934, no ramal Mairinque–Santos da Sorocabana. O último trem de passageiros passou em novembro de 1997. Restou o nome no cadastro de endereços, com dois comércios.
Existe em Embu-Guaçu um bairro chamado Estação de Trem.
No acervo deste guia, ele tem dois estabelecimentos comerciais.
E não passa trem de passageiros ali desde novembro de 1997.
O nome ficou. O trem não.
1934: a estação
A Estrada de Ferro Sorocabana decidiu, no fim dos anos 1920, abrir um ramal que ligasse Mairinque a Santos — um traçado alternativo para escoar a produção do interior paulista até o porto, sem depender da São Paulo Railway e da sua subida de serra por cabo de aço em Paranapiacaba.
A obra começou em 1927 e chegou à região de Embu-Guaçu por volta de 1929. O ramal foi inaugurado em 1937.
Mas a estação de Embu-Guaçu é anterior a isso: foi inaugurada em 5 de abril de 1934.
Ou seja: o trem parou em Embu-Guaçu três anos antes de a linha inteira estar pronta. Enquanto a obra avançava serra abaixo, a estação já funcionava.
E vale o contexto: a Sorocabana operou a linha de 1934 a 1971, transportando o café produzido no interior de São Paulo até o porto de Santos. Em 1971 a malha passou à FEPASA — Ferrovia Paulista S.A. —, que a operou até 1998.
O que uma estação significava aqui
É preciso entender o que Embu-Guaçu era em 1934 para dimensionar o que aquilo representou.
O município nem existia. A região era território de Itapecerica da Serra, e só seria elevada a distrito em 1944 — dez anos depois da estação. A emancipação viria em 1964, e o primeiro prefeito tomaria posse em 1965.
Contamos essa história no artigo sobre o dote de Emília, a menina de dezesseis anos cujo casamento, em 1867, transferiu as terras que formariam a cidade.
Ou seja: a estação chegou antes do distrito, que chegou antes do município.
É o mesmo padrão que vimos em Barueri, onde o trem parou em 1875 e a cidade só nasceu em 1949, e em Jundiapeba, onde a estação de 1914 gerou o povoado que viraria distrito em 1938.
Na Grande São Paulo, o trilho quase sempre chegou antes da prefeitura.
1997: o fim
O trem de passageiros entre Embu-Guaçu e Santos funcionou até novembro de 1997.
O serviço foi encerrado em outubro daquele ano, junto com a linha Santos–Juquiá — que servia Miracatu, do outro lado da serra, e sobre a qual escrevemos em outro artigo desta rodada.
Duas cidades deste guia, em pontas opostas da região, perderam o trem no mesmo ano e pelo mesmo motivo.
Sessenta e três anos de serviço, de 1934 a 1997.
Uma pessoa que pegou o primeiro trem aos vinte anos estaria com oitenta e três quando passou o último. Coube numa vida.
O que restou
Restou o nome.
No cadastro de endereços deste guia, Embu-Guaçu tem um bairro registrado como "Estação de Trem" — com dois estabelecimentos comerciais.
É pouco, e é justamente por isso que é revelador. Um bairro inteiro leva o nome de uma infraestrutura que não existe mais, e a atividade econômica ali é praticamente nula.
Compare com o que aconteceu em Miracatu, onde o bairro Estação tem dez, ou com o KM 18, em Osasco, que virou um dos maiores centros comerciais da cidade.
Três lugares nomeados pela ferrovia, três destinos completamente diferentes depois que ela foi embora.
O que Embu-Guaçu virou
Este guia mapeia 2.579 estabelecimentos em Embu-Guaçu — o terceiro menor acervo entre as vinte cidades, à frente apenas de Juquitiba e Miracatu.
O perfil:
- Serviços e profissionais — 355
- Mercados e alimentos — 275
- Bares e restaurantes — 243
- Construção e reforma — 203
- Igrejas e templos — 203
- Saúde — 185
E 74 estabelecimentos de indústria e atacado, ou 2,9% do total.
Igrejas e templos empatado em quarto, com 203. É a assinatura da faixa sudoeste inteira — onde o município é grande em território, disperso em população, e o templo de bairro é o equipamento coletivo mais próximo de casa.
O mesmo padrão de Juquitiba, de Itapecerica e de Paruru.
E há um fator que trava o crescimento de Embu-Guaçu e que vale nomear: boa parte do território está sob a represa de Guarapiranga e sob restrição de manancial — o que congela o uso do solo e impede o adensamento. Contamos isso no artigo sobre a represa que dá água a milhões de paulistanos.
Uma cidade cercada de água que não pode construir, e sem o trem que a ligava ao porto.
Quem precisar encontrar algo pode ver o guia completo de Embu-Guaçu, mercados e alimentos, igrejas e templos, saúde e serviços e profissionais.
Por que a Sorocabana quis um caminho próprio para Santos
Vale explicar a disputa, porque ela é a razão de a estação existir.
Até os anos 1930, quem quisesse levar carga do interior paulista ao porto de Santos dependia, no trecho final, da São Paulo Railway — a companhia inglesa que detinha o monopólio da descida da serra desde 1867, com o sistema funicular de Paranapiacaba.
Monopólio de gargalo é o melhor negócio que existe. A São Paulo Railway cobrava o que queria pelo trecho, e todas as outras ferrovias do estado eram obrigadas a pagar.
A Sorocabana, que vinha do oeste paulista, resolveu furar esse bloqueio construindo a própria descida — o ramal Mairinque–Santos, com traçado próprio, tráfego próprio e nenhum pedágio a pagar.
É por isso que a linha passa onde passa. Ela não foi desenhada para servir Embu-Guaçu: foi desenhada para contornar um monopólio — e Embu-Guaçu ficou no caminho.
O que aconteceu depois é o que costuma acontecer: a cidade nasceu da infraestrutura, e não o contrário. A estação veio em 1934, o distrito em 1944, o município em 1964.
Trinta anos entre o trilho e a prefeitura.
O que muda quando o trem vai embora
A supressão de um ramal de passageiros não é um evento de transporte. É um evento econômico, e ele tem etapas previsíveis.
Some o motivo de passar. Quem ia de trem a Santos deixa de parar no meio do caminho para comprar qualquer coisa.
Some o emprego ferroviário. Estação tem chefe, bilheteiro, manobrista, manutenção de via. São postos qualificados e estáveis num lugar que costuma ter poucos dos dois.
Some a alternativa. Sem trem, deslocar-se passa a depender de ônibus e de carro — mais caro por pessoa, e pior para quem não tem nenhum dos dois.
Fica o nome. Que é exatamente o que sobrou aqui: um bairro chamado Estação de Trem, com dois comércios abertos.
É a diferença entre uma infraestrutura que some e a memória dela, que fica presa no cadastro de endereços por décadas — até que alguém pergunte por que o bairro se chama assim.
Linha do tempo
- 1927 — começa a construção do ramal Mairinque–Santos da Sorocabana
- por volta de 1929 — a obra chega à região de Embu-Guaçu
- 05/04/1934 — inauguração da estação de Embu-Guaçu
- 1937 — inauguração do ramal Mairinque–Santos
- 1944 — a região é elevada a distrito de Itapecerica da Serra
- 1964 — emancipação político-administrativa de Embu-Guaçu
- 1971 — a malha passa da Sorocabana para a FEPASA
- outubro/novembro de 1997 — fim do transporte de passageiros entre Embu-Guaçu e Santos
- hoje — sobra o bairro "Estação de Trem", com dois estabelecimentos
Comparando com os vizinhos
Com Miracatu: as duas perderam o trem de passageiros em 1997, no mesmo movimento. E as duas guardam um bairro com nome de estação.
Com Barueri: a estação de Barueri é de 1875, quase sessenta anos mais velha, e virou uma cidade de 37 mil comércios. A de Embu-Guaçu virou um bairro com dois.
Com Itapecerica da Serra: Embu-Guaçu saiu de lá em 1964, pela mesma lei que criou Juquitiba e Carapicuíba. Hoje tem menos da metade do comércio da cidade-mãe.
O que ninguém explica
- Onde exatamente ficava a estação? O bairro leva o nome e o prédio não aparece com destino registrado.
- Quanta gente usava o trem? Sessenta e três anos de serviço sem número de passageiros documentado.
- Por que a estação abriu em 1934, se o ramal só foi inaugurado em 1937? A antecipação é registrada sem explicação.
O que fica
Em 5 de abril de 1934, num lugar que ainda não era distrito nem município, inaugurou-se uma estação de trem.
Dela saía carga e gente em direção ao porto de Santos, por um ramal que a Sorocabana estava abrindo para não depender da ferrovia inglesa que subia a serra por cabo de aço.
O distrito veio dez anos depois. O município, trinta.
E em novembro de 1997, sessenta e três anos depois do primeiro, passou o último trem de passageiros.
Hoje Embu-Guaçu tem 2.579 comércios, quase todos voltados para quem mora ali, num território travado por área de manancial.
E tem um bairro chamado Estação de Trem, com dois estabelecimentos abertos.
O nome é a única coisa que sobrou de pé.
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